Manuel António Pina – Eugénio de Andrade no seu leito de morte

Na mão de Ana o iogurte não iluminava, escurecia, comunhão ajoelhada no fundo do coração do dia dividido onde, desperto, ele dormia. O movimento da colher embalava-o como uma música que quase se ouvia neste mundo ou um colo que o adormecia. A tarde declinava, as sombras, como sonhos, alongavam-se na almofada; tudo fazia um … Continue lendo Manuel António Pina – Eugénio de Andrade no seu leito de morte

Manuel António Pina – Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte

Hoje soube-se uma coisa extraordinária, que morreste. Talvez já to tenham dito, embora o caso verdadeiramente não te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo. Algo, de fato, deve ter acontecido porque nada acontece, a não ser o costume, amor e estrume; quanto ao resto tudo prossegue de acordo com o Plano. Há apenas agora … Continue lendo Manuel António Pina – Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte

Manuel António Pina – As escadas

Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas em direção à tua escuridão, deixando-me, ou a alguma coisa menos tangível, no seu lugar. Também elas envelheceram, as escadas, também, como eu, desabitadas. Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus, e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras.

Manuel António Pina – As Coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”, algo que já lá não está ou se perdeu antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. Em certas tardes altas, absolutas, quando o mundo por fim nos recebe como se também nós fôssemos mundo, a nossa própria ausência … Continue lendo Manuel António Pina – As Coisas

Manuel António Pina – A avó

Tinha ao colo o gato velho cansadamente passando a sua branca mão pelo pelo dele preto e brando Sentada ao pé da janela olhando a rua ou sonhando-a todo o passado passando a passos lentos por ela Dormiam ambos enquanto a tarde se ia acabando o gato dormindo por fora a avó dormindo por dentro

Manuel António Pina – Extrema-unção

Uma breve, amável mágoa à flor dos olhos, um distante desapontamento, morrias como se pedisses desculpa por nos fazeres perder tempo. Tinhas pressa mas não o mostravas, receavas que não estivéssemos preparados, e, suspenso sobre nós, esperavas que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado. Morrer não é motivo de orgulho, mas estavas cansado demais para … Continue lendo Manuel António Pina – Extrema-unção

Manuel António Pina – Quinquagésimo ano

São muitos dias (e alguns nem tantos como isso...) e começa a fazer-se tarde de um modo menos literário do que soía, (um modo literal e inerte que, no entanto, não posso dizer-te senão literariamente). Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr; a única coisa que corre é o tempo, do lado … Continue lendo Manuel António Pina – Quinquagésimo ano

Manuel António Pina – Todas as palavras

As que procurei em vão, principalmente as que estiveram muito perto, como uma respiração, e não reconheci, ou desistiram e partiram para sempre, deixando no poema uma espécie de mágoa como uma marca de água impresente; as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te nem foram capazes de dizer-me; as que calei por serem muito … Continue lendo Manuel António Pina – Todas as palavras

Manuel António Pina – Café do molhe

Perguntavas-me (ou talvez não tenhas sido tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia) por que a poesia, e não outra coisa qualquer: a filosofia, o futebol, alguma mulher? Eu não sabia que a resposta estava numa certa estrofe de um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe) … Continue lendo Manuel António Pina – Café do molhe

Manuel António Pina – Sérgio

Onde agora estás não alcançam o clamor dos magistrados nem a faca do assassino. A tua própria morte não te pertence já, é assunto nosso, desprovido e inerte. Que faremos nós com o teu inúmero corpo, como te diremos o que está a acontecer-te? Fechou-se qualquer coisa qualquer porta espessa e desabitada, a faca pôs … Continue lendo Manuel António Pina – Sérgio