Laura Gilpin – O bezerro de duas cabeças

Amanhã, quando os garotos da fazenda encontrarem esta
aberração da natureza, eles embrulharão seu corpo
em jornal e o levarão para o museu.

Mas esta noite ele está vivo e no campo
ao norte, com sua mãe. É uma noite
perfeita de verão: a lua crescente sobre
o pomar, o vento na grama. E
quando ele olha para o céu, há
duas vezes mais estrelas do que de costume.

Trad.: Nelson Santander

Two-Headed Calf

Tomorrow when the farm boys find this
freak of nature, they will wrap his body
in newspaper and carry him to the museum.

But tonight he is alive and in the north
field with his mother. It is a perfect
summer evening: the moon rising over
the orchard, the wind in the grass. And
as he stares into the sky, there are
twice as many stars as usual.

Bye Adam Ellis

Gabrielle Calvocoressi – Sinto a sua falta. Gostaria de dar um passeio com você.

Não importa se você acabou de chegar em seu esqueleto.
Adoraria dar um passeio com você. Sinto a sua falta.
Adoraria preparar um camarão saganaki para você.
Como você costumava me fazer quando estava viva.
Adoraria alimenta-la. Sentarmo-nos com uma fumegante
tigela de pilaf. Pequenos tomates tostados
cobertos de pimenta e noz-moscada. Sinto a sua falta.
Adoraria caminhar até os correios com você.
Traga o cão fantasma. Passaremos pela cachoeira
e você poderá me contar sobre o além.
Eu queria. Queria que você voltasse por um tempo.
Não precisa nem mesmo trazer sua epiderme. Eu saberei que é
você. E sei que você me reconhecerá, apesar de tudo. Estou
maior agora. Mais grisalha. Eu lhe mostrarei o meu jardim.
Eu gostaria de me jogar na pilha de folhas que você rastelou, mas e se você
também quiser se jogar? Eu rastelarei para você. Sinto falta
de você parada olhando para o rio com seu rastelo
na mão. Sinto falta de você na sua jaqueta azul bufante.
Elas estão na moda agora. Posso lhe dar uma nova
se você passar por aqui. Eu sei que lhe disse
que estaria tudo bem se você partisse. Sei que lhe disse
que estaria tudo bem se você me deixasse. Por que você acreditou em mim?
Você sempre acreditou em mim. Queria que você
voltasse para que pudéssemos falar sobre a verdade.
Sinto a sua falta. Queria que você entrasse pela minha
porta e me encarasse do espelho. Venha pela
tubulação.

Trad.: Nelson Santander

Miss you. Would like to take a walk with you.

Do not care if  you just arrive in your skeleton.
Would love to take a walk with you. Miss you.
Would love to make you shrimp saganaki.
Like you used to make me when you were alive.
Love to feed you. Sit over steaming
bowls of pilaf. Little roasted tomatoes
covered in pepper and nutmeg. Miss you.
Would love to walk to the post office with you.
Bring the ghost dog. We’ll walk past the waterfall
and you can tell me about the after.
Wish you. Wish you would come back for a while.
Don’t even need to bring your skin sack. I’ll know
you. I know you will know me even though. I’m
bigger now. Grayer. I’ll show you my garden.
I’d like to hop in the leaf pile you raked but if you
want to jump in? I’ll rake it for you. Miss you
standing looking out at the river with your rake
in your hand. Miss you in your puffy blue jacket.
They’re hip now. I can bring you a new one
if you’ll only come by. Know I told you
it was okay to go. Know I told you
it was okay to leave me. Why’d you believe me?
You always believed me. Wish you would
come back so we could talk about truth.
Miss you. Wish you would walk through my
door. Stare out from the mirror. Come through
the pipes.

Sahar Romani – Tarde na Andaluzia

E por que a geometria não seria igual à divindade 

1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé

senão a confiança no uno & infinito Uma vez


em Granada observei um muro de polígonos

ou eram estrelas ou abelhas ou por um segundo um fulgor

de gladíolos em um campo até que pude ver


uma galáxia planetas girando raios de uma roda

relógios ou botões videiras florescendo um tornado

de um século futuro jardim de elipses


a córnea do meu amante acesa em cada manhã

Deus tão distante & bem na minha frente


Trad.: Nelson Santander

Afternoon in Andalusia


But why wouldn’t geometry equal divinity

1000 + 1 + 1 + 1 What is faith

but trust in one & infinity Once


in Granada I studied a wall of polygons

or was it stars or bees or for a second a flash

of gladiolas in a field until I could see


a galaxy planets spinning spokes on a wheel

clocks or buttons vines blooming a tornado

from a future century garden of ellipses


my lover’s cornea alight each morning

God so far away & right in front of me

Ellen Bass – A dor de deus

Grande pai
que deve ter começado
com tantas expectativas.
Que magnitude de sofrimento,
imensidão de culpa,
desconcertante desespero.
Uma mente do tamanho do sol,
ardendo em nostalgia,
um coração enorme como o de uma baleia-cinzenta
rompendo, fluindo
na água do mar contra o céu claro.
Deus homem ou deus animal,
deus que respira em cada folha plissada,
saco vocal de sapo, penugem e raque —
deus do plutônio e da penicilina, bêbado
dormindo na grade do metrô,
deus de Joana d´Arc, deus de Crazy Horse,
de Lady Day1, que nos põe de joelhos,
deus de Houdini com suas mãos
como um rio, de Einstein, o arrependimento
correndo em suas veias,
deus de Stalin, deus de Somoza,
deus da Grande Marcha2,
do Caminho das Lágrimas3,
dos trens,
deus de Allende e deus de Tookie4,
do colhedor de morangos, o incêndio às suas costas,
deus da meia-noite, deus do inverno,
deus das crianças raptadas e vendidas
com uma semana de hospedagem
e passagem aérea para a Tailândia,
deus em apuros, deus no fim de sua corda —
insone, impotente —
deus desesperado, desvairado, coração de baleia
extraviada em águas rasas, encalhada
na areia, ressequida, empolada, esmagada
pelo peso massivo da gravidade.

Trad.: Nelson Santander

Notas

  1. Lady Day era o outro nome artístico da cantora-compositora Billie Holiday.
  2. A autora se refere à retirada das brigadas do Partido Comunista Chinês (o Exército Vermelho dos Operários e Camponeses da China) para fugir à perseguição do exército do Kuomintang.
  3. segundo a Wikipedia: “O Caminho das Lágrimas foi o nome dado pelos nativos às viagens de recolocações e migrações forçadas, impostas pelo governo dos Estados Unidos da América às diversas tribos de índios que seriam reunidas no chamado “Território Indígena” (atual Estado de Oklahoma), consoante à política de remoção indígena. Os índios habitavam as regiões ao sul da União. A referência à “Trilha das Lágrimas” foi retirada de uma descrição de um nativo da Nação Choctaw em 1831.” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Trilha_das_L%C3%A1grimas)
  4. Stanley Tookie Williams III, ou Tookie, foi um dos fundadores da gangue conhecida como Crips, uma das mais violentas gangues de rua dos Estados Unidos.

God’s Grief

Great parent
who must have started out
with such high hopes.
What magnitude of suffering,
the immensity of guilt,
the staggering despair.
A mind the size of the sun,
burning with longing,
a heart huge as a gray whale
breaching, streaming
seawater against the pale sky.
Man god or beast god,
god that breathes in every pleated leaf,
throat sac of frog, pinfeather and shaft—
god of plutonium and penicillin, drunk
sleeping on the subway grate,
god of Joan of Arc, god of Crazy Horse,
Lady Day, bringing us to our knees,
god of Houdini with hands
like a river, of Einstein, regret
running thick in his veins,
god of Stalin, god of Somoza,
god of the long march,
the Trail of Tears,
the trains,
god of Allende and god of Tookie,
the strawberry picker, fire in his back,
god of midnight, god of winter,
god of rouged children sold
with a week’s lodging
and airfare to Thailand,
god in trouble, god at the end of his rope—
sleepless, helpless—
desperate god, frantic god, whale heart
lost in the shallows, beached
on the sand, parched, blistered, crushed
by gravity’s massive weight.

Ellen Bass – A dor de Deus

Sean Thomas Dougherty – Por que se importar?

Por que se importar?

Porque agora há                   alguém

lá fora com 

um machucado                     no formato exato
                          
                                              de suas palavras.
Why Bother?

Because right now, there is          someone

out there with

a wound                                        in the exact shape
                          
                                                      of your words.

Steve Scafidi – Para o último búfalo americano

Porque as palavras fascinam sob a luz vertiginosa das coisas
e a alma é como um animal – caçada e lenta –
este búfalo passeia por mim todas as noites como se eu fosse
algum tipo de pradaria e se agacha contra a escuridão fria,
bufando sob as estrelas enquanto a névoa de sua respiração
eleva-se no ar, e é a sensação mais solitária que eu conheço
aproximar-se lentamente com a mão estendida
para ternamente tocar o pesado crânio peludo e áspero
e afagar aquele enorme lugar entre suas orelhas em que
o que eu penso e o que ele pensa é uma coisa que canta
tão calmamente que, quando eu acordo, raramente me lembro
de caminhar ao lado dele e de sussurrar ao seu ouvido, tranquilamente
percorrendo as milhas, nós dois, como se Cheyenne ou
as luzes de São Francisco fossem nosso improvável destino
e às vezes os trens passam por nós e ninguém se inclina para fora
no escuro com o objetivo de acabar conosco e assim continuamos
de alguma forma e hoje enquanto a quietude sísmica da
terra girava sob os meus pés e enquanto o mundo,
acho eu, continuava, aquela coisa desajeitada se moveu pesadamente
densa e escura através dos sonhos que acredito que continuamos
sonhando, dormindo ou não, e quando a vir
novamente diga que eu sinto muito pelas coisas que você não fez e
depois lhe ofereça um pouco de erva doce e conte-lhe as histórias
que você se lembra sobre a câmara estelar do útero
ou pelo menos a mais nova piada, algo bom para fazer-lhe
companhia, pois, senão, ela não saberá que você está aqui
por amor, e como o mundo esta noite, não se importará
se vivemos ou morremos. Diga-lhe que você sim, e por quê.

Trad.: Nelson Santander

For the Last American Buffalo

Because words dazzle in the dizzy light of things
and the soul is like an animal–hunted and slow–
this buffalo walks through me every night as if I was
some kind of prairie and hunkers against the cold dark,
snorting under the stars while the fog of its breathing
rises in the air, and it is the loneliest feeling I know
to approach it slowly with my hand outstretched
to tenderly touch the heavy skull furred and rough
and stroke that place huge between its ears where
what I think and what it thinks are one singing thing
so quiet that, when I wake, I seldom remember
walking beside it and whispering in its ear quietly
passing the miles, the two of us, as if Cheyenne or
the lights of San Francisco were our unlikely destination
and sometimes trains pass us and no one leans out hard
in the dark aiming to end us and so we continue on
somehow and today while the seismic quietness of
the earth spun beneath my feet and while the world
I guess carried on, that lumbering thing moved heavy
thick and dark through the dreams I believe we keep
having whether we sleep or not and when you see it
again say I’m sorry for things you didn’t do and
then offer it some sweet-grass and tell it stories
you remember from the star-chamber of the womb
or at least the latest joke, something good to keep it
company as otherwise it doesn’t know you are here
for love, and like the world tonight, doesn’t really
care whether we live or die. Tell it you do and why.

Ada Limón – Viaduto

A estrada não era tão perigosa na época,
quando eu caminhava até a mureta de aço,
inclinava meu corpo flexível de menina, e contemplava
a água fria do riacho. Em uma úmida nascente,
a água que corria clara e alta, peixinhos
petiscando areia e lodo, um caranguejo
ensombrado pelos altos juncos das margens.
Eu podia olhar durante horas, algo
sempre novo em cada pedaço aguacento —
uma tampinha de garrafa, uma bota preta de homem, uma rã.
Uma vez, uma carcaça de guaxinim, metade sob
o viaduto, metade fora, apodreceu lentamente
ao longo de meses. Eu o examinava todos os dias,
observando até que os ossos brancos de sua pata
ficassem totalmente sem pele e parecessem estender-se
em direção ao sol à medida em que ele entrava na água,
mostrando todos os seus cinco doces dedos tensos
ainda contraídos. Eu não acho que a venerava,
sua morte, mas eu gostava das evidências
dela, de como parecia com um trabalho diariamente
tomar nota de sua mudança na areia.

Trad.: Nelson Santander

Overpass

The road wasn’t as hazardous then,
when I’d walk to the steel guardrail,
lean my bendy girl body over, and stare
at the cold creek water. In a wet spring,
the water’d run clear and high, minnows
mouthing the sand and silt, a crawdad
shadowed by the shore’s long reeds.
I could stare for hours, something
always new in each watery wedge—
a bottle top, a man’s black boot, a toad.
Once, a raccoon’s carcass half under
the overpass, half out, slowly decayed
over months. I’d check on him each day,
watching until the white bones of his hand
were totally skinless and seemed to reach
out toward the sun as it hit the water,
showing all five of his sweet tensile fingers
still clinging. I don’t think I worshipped
him, his deadness, but I liked the evidence
of him, how it felt like a job to daily
take note of his shifting into the sand.

Robert Hayden – A nevasca

Incapaz de dormir ou rezar, permaneço
ao lado da janela olhando para
as aluadas árvores envergadas pelo gelo
de uma tempestade de dezembro.

Bordo e freixo da montanha se curvam
sob seu peso vítreo,
seus galhos fendidos caindo sobre
a neve congelada.

As árvores em si, como nos invernos passados,
sobreviverão a este fardo,
quebradas florescerão. E eu sou menos para Você
do que elas, Senhor?

Trad.: Nelson Santander

Ice Storm

Unable to sleep, or pray, I stand
by the window looking out
at moonstruck trees a December storm
has bowed with ice.

Maple and mountain ash bend
under its glassy weight,
their cracked branches falling upon
the frozen snow.

The trees themselves, as in winters past,
will survive their burdening,
broken thrive. And am I less to You,
my God, than they?

Kelli Russell Agodon – Capelas imaginárias

Sento-me no chão de um museu com um homem
que não conheço. Estamos contemplando um quadro
de 1508. Maria parece triste mas não está chorando.
Outro homem se senta à minha esquerda e encosta sua cabeça
contra a parede. Atrás de mim, uma mulher está
chorando. Eu me levanto e caminho em direção a um estranho
que está dizendo, Está tudo bem, querida, você está indo bem.
Há dias em que o mundo segura o
seu casaco e penteia o seu cabelo,
há outros em que o que sangra
mancha seu sofá, sua calça branca. Eu só quero
andar por um mundo em que as pessoas
queiram sentar-se em silêncio com um quadro,
em que, depois de ter visto tudo o que podemos
ver, possamos encontra um pub e pedir um Virgin
on the Rocks
. E no qual quando eu me divirto porque
Leonardo talvez nunca entendesse como
ele pode ter criado algo que se transforma
no pedido de um drink, por apenas alguns momentos
eu me sinta um pouco mais conectada a um país
que não é o meu lar. E talvez se sussurrar
para aqueles ao meu lado, eu diga: isto não é uma prece,
isto não é de deus
, o que estou realmente dizendo é:
olhe ao redor como a luz captura
a mulher tentando filmar a beleza,
como somos ambas esplendor e prece,
somos todos pequenos deuses fazendo o melhor que podemos.

Trad.: Nelson Santander

Imagined Chapels

I sit on the floor of a museum with a man
I do not know. We are gazing at a painting
from 1508. Mary is blue but not crying.
Another man sits to my left, leans his head
against the wall. There is a woman behind me
crying. I stand up and walk into a stranger,
he says, It’s okay, darling, you’re doing fine.
There are days when the world holds
your coat and combs your hair,
there are days when what bleeds
stains your sofa, your white pants. I just want
to walk through the world where others
want to sit in silence with a painting,
when after we’ve seen everything we can
possibly see, you find a pub and order a Virgin
on the Rocks. And when I laugh because
Leonardo might never understand how
he could create something that would turn
into a drink order, for just a few moments
I feel a little bit more connected in a country
that’s not my home. And maybe if I whisper
to those around me, say: this is not a prayer,
this is not god, what I’m really saying is
look around at how the light catches
the woman trying to film to beauty,
how we are both splendor and prayer,
we are all small gods doing the best we can.

Alan Jenkins – Pertences

Segurei a mão dela, que estava sempre marcada
Por cortar, fatiar, pelas facas que estavam à espreita
No lavatório, mão mal-acabada,
Os nós avermelhados dos dedos, ásperos de esfregar com força
panelas, frigideiras, xícaras e pratos,
Dando amor do único jeito que ela sabia,
Em cada corte barato de carne, em assados e ensopados,
Comidas tradicionais que ela preparava e nós comíamos;
E vi que tinham tirado seus anéis,
Os anéis que ela havia guardado uma vez na gaveta da penteadeira
Com fotos desbotadas, coisas há muito esquecidas
(Vaporizadores de perfume, pentes de tartaruga, um instantâneo ou dois
Da época em que tiramos férias ‘no exterior’)
Mas sem os quais ultimamente ela nunca mais havia ficado, como se
Quisesse que todos soubessem que ela era sua esposa
Só agora que ele estava morto. E o relógio dela? –
Modelo clássico feminino, pulseira de ouro – havia sumido,
E eu nunca a tinha visto sem ele,
Nem em todos aqueles anos que eles se sentaram juntos
Assistindo as telenovelas e game shows que eu desdenhava
E nem quando chegou a minha vez de cozinhar para ela,
Costeletas ou porções de frango, sabores ingleses,
Sem graça, familiares, que ela dizia preferir
A qualquer ‘coisa estrangeira esquisita’
Que os jovens parecem comer hoje em dia, pelo que ela ouvira;
Nem em todas aquelas semanas em que não apareci, quando ela se sentava
Noite após noite e ficava encarando sem ver
A televisão, em seu clima interior,
Se colocava de pé, piscava, se servia de
Drinque após drinque, bebia e fixava o olhar – o uísque
Que, quando ele estava vivo, ela não tocaria,
Esse era o jeito dela estar com ele de novo;
Nem mais tarde, na ala psiquiátrica,
Onde ela piscava sem ver a parede, as enfermeiras
(Que roubariam qualquer coisa, ela dizia), e sonhava
Em quando ela era menina, com o tempo antes
De eu nascer, ou crescer e aprender a desprezar,
Enquanto a TV no canto retumbava
Para abafar os gemidos e imprecações de algumas ‘pobres almas’,
E ela tomava seus comprimidos e piscava e fixava o olhar
Enquanto os outros vagueavam, e babavam, e praguejavam…
Mas agora ela estava deitada aqui, um grosso elástico
Com seu nome escrito em tinta preta borrada era tudo o que ela usava
Na mão que eu segurava, uma mão manchada e enrugada
Cujos dedos não podiam mais apertar os meus
Ou acenar hesitantes, ou tatear minha manga –
As últimas palavras que ela dissera foram Por favor, não vá embora
Mas é claro que eu fui; agora eu estava de volta, embora ela
Não pudesse saber disso, ou virar o rosto para ver
Uma enfermeira trazer a malinha com os seus pertences para mim.

Trad.: Nelson Santander

Effects

I held her hand, that was always scarred
From chopping, slicing, from the knives that lay in wait
In bowls of washing-up, that was raw,
The knuckles reddened, rough from scrubbing hard
At saucepan, frying pan, cup and plate
And giving love the only way she knew,
In each cheap cut of meat, in roast and stew,
Old-fashioned food she cooked and we ate;
And I saw that they had taken off her rings,
The rings she’d kept once in her dressing-table drawer
With faded snapshots, long-forgotten things
(Scent-sprays, tortoise-shell combs, a snap or two
From the time we took a holiday ‘abroad’)
But lately had never been without, as if
She wanted everyone to know she was his wife
Only now that he was dead. And her watch? –
Classic ladies’ model, gold strap – it was gone,
And I’d never known her not have that on,
Not in all the years they sat together
Watching soaps and game shows I’d disdain
And not when my turn came to cook for her,
Chops or chicken portions, English, bland,
Familiar flavours she said she preferred
To whatever ‘funny foreign stuff’
Young people seemed to eat these days, she’d heard;
Not all the weeks I didn’t come, when she sat
Night after night and stared unseeing at
The television, at her inner weather,
Heaved herself upright, blinked and poured
Drink after drink, and gulped and stared – the scotch
That, when he was alive, she wouldn’t touch,
That was her way to be with him again;
Not later in the psychiatric ward,
Where she blinked unseeing at the wall, the nurses
(Who would steal anything, she said), and dreamt
Of when she was a girl, of the time before
I was born, or grew up and learned contempt,
While the TV in the corner blared
To drown some ‘poor soul’s’ moans and curses,
And she took her pills and blinked and stared
As the others shuffled round, and drooled, and swore…
But now she lay here, a thick rubber band
With her name on it in smudged black ink was all she wore
On the hand I held, a blotched and crinkled hand
Whose fingers couldn’t clasp mine any more
Or falteringly wave, or fumble at my sleeve –
The last words she had said were Please don’t leave
But of course I left; now I was back, though she
Could not know that, or turn her face to see
A nurse bring the little bag of her effects to me.