Czesław Miłosz – Elegia para N. N.

Diga-me se é muito longe para você.
Você poderia vir sobre as ondas mansas do Báltico
passando pelos campos da Dinamarca, atravessando um bosque de faias,
poderia se voltar para o oceano, e de lá, logo estaria em
Labrador, branca nesta época do ano.
E se você, que sonhava com uma ilha deserta,
tivesse medo das cidades e das luzes piscando ao longo da rodovia,
poderia pegar o caminho direto através do deserto
sobre águas azuis-escuras de degelo, entre as pegadas de cervos e caribus,
até Sierra e as minas de ouro abandonadas.
O rio Sacramento poderia te-la conduzido
entre colinas cobertas de carvalhos espinhosos.
Então, apenas um bosque de eucaliptos, e você me encontraria.

É verdade, quando a manzanita está em flor,
e a baía, clara nas manhãs de primavera,
eu penso com relutância na casa entre os lagos
e nas redes esticadas sob o céu lituano.
A cabine de banho onde você costumava deixar seu vestido
se transformou para sempre em um cristal abstrato.
A escuridão rescendendo a mel está lá, perto da varanda,
e as cômicas corujinhas, e o cheiro de couro.

Como se podia viver naquela época, eu realmente não posso dizer.
Estilos e vestidos oscilam, indistintos,
não autossuficientes, tendendo a um final.
Faz diferença que ansiemos pelas coisas tal como elas eram?
O conhecimento dos anos de fogo chamuscou os cavalos ao lado da caldeiraria,
as esquálidas colunas no mercado,
as escadas de madeira e a peruca de Mama Fliegeltaub.

Nós aprendemos tanto, você bem o sabe:
como, aos poucos, se nos arrebatam o que não podia
ser levado. Pessoas, paisagens.
E que o coração não morre quando achamos que deveria,
nós sorrimos, há chá e pão sobre a mesa.
E que é só remorso por não termos amado
as pobres cinzas de Sachsenhausen
com amor absoluto, além das nossas forças.

Você se habituou a novos e chuvosos invernos,
a uma vila onde o sangue do proprietário alemão
foi lavado das paredes às quais ele nunca mais voltou.
Eu também aceitei, mas o que foi possível, cidades e países.
Não se pode entrar duas vezes no mesmo lago
pisando em folhas apodrecidas de amieiro,
interrompendo uma estreita faixa de sol.

Culpa, sua e minha? Não uma grande culpa.
Segredos, seus e meus? Não grandes segredos.
Não quando nos amarram a mandíbula com um lenço, colocam uma pequena cruz entre os dedos,
e um cão ladra em algum lugar, e irrompe a primeira estrela.

Não, não foi por causa da distância que
você deixou de me visitar naquele dia ou noite.
Ano após ano ela cresce até se apoderar de nós,
eu o entendi, assim como você: indiferença.

Berkeley, 1963

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: o poema foi originalmente escrito em polonês. Minha tradução parte de uma versão em inglês, vertida para aquela língua pelo próprio Czesław Miłosz e Lawrence Davis.

Elegy for N. N.

Tell me if it is too far for you.
You could have run over the small waves of the Baltic
and past the fields of Denmark, past a beech wood
could have turned toward the ocean, and there, very soon
Labrador, white at this season.
And if you, who dreamed about a lonely island,
were frightened of cities and of lights flashing along the highway
you had a path straight through the wilderness
over blue-black, melting waters, with tracks of deer and caribou
as far as the Sierras and abandoned gold mines.
The Sacramento River could have led you
between hills overgrown with prickly oaks.
Then just a eucalyptus grove, and you had found me.

True, when the manzanita is in bloom
and the bay is clear on spring mornings
I think reluctantly of the house between the lakes
and of nets drawn in beneath the Lithuanian sky.
The bath cabin where you used to leave your dress
has changed forever into an abstract crystal.
Honey-like darkness is there, near the veranda,
and comic young owls, and the scent of leather.

How could one live at that time, I really can’t say.
Styles and dresses flicker, indistinct,
not self-sufficient, tending toward a finale.
Does it matter that we long for things as they are in themselves?
The knowledge of fiery years has scorched the horses standing at the forge,
the little columns in the marketplace,
the wooden stairs and the wig of Mama Fliegeltaub.

We learned so much, this you know well:
how, gradually, what could not be taken away
is taken. People, countrysides.
And the heart does not die when one thinks it should,
we smile, there is tea and bread on the table.
And only remorse that we did not love
the poor ashes in Sachsenhausen
with absolute love, beyond human power.

You got used to new, wet winters,
to a villa where the blood of the German owner
was washed from the wall, and he never returned.
I too accepted but what was possible, cities and countries.
One cannot step twice into the same lake
on rotting alder leaves,
breaking a narrow sun-streak.

Guilt, yours and mine? Not a great guilt.
Secrets, yours and mine? Not great secrets.
Not when they bind the jaw with a kerchief, put a little cross between the fingers,
and somewhere a dog barks, and the first star flares up.
No, it was not because it was too far
you failed to visit me that day or night.
From year to year it grows in us until it takes hold,
I understood it as you did: indifference.

Berkeley, 1963
Translated by Czesław Miłosz and Lawrence Davis

David Ignatow – Para minha filha, em resposta a uma pergunta

Não, não vamos morrer,
vamos encontrar uma saída.
Respiraremos profundamente
e comeremos com cuidado.
Pensaremos sempre na vida.
Não nos desvaneceremos, nem eu nem você.
Seremos os primeiros
e não riremos de nós mesmos jamais
e seus filhos serão meus netos.
Nada terá mudado,
exceto por acréscimo.
Nunca haverá outra como você
e nunca outro como eu.
Ninguém jamais a confundirá
nem me confundirá com outro.
Nós não seremos esquecidos e ignorados
e enterrados sob os nascimentos e mortes que virão.

Trad.: Nelson Santander

For My Daughter in Reply to a Question

We’re not going to die,
we’ll find a way.
We’ll breathe deeply
and eat carefully.
We’ll think always on life.
There’ll be no fading for you or for me.
We’ll be the first
and we’ll not laugh at ourselves ever
and your children will be my grandchildren.
Nothing will have changed
except by addition.
There’ll never be another as you
and never another as I.
No one ever will confuse you
nor confuse me with another.
We will not be forgotten and passed over
and buried under the births and deaths to come.

Robinson Jeffers – Carmel Point

A extraordinária paciência das coisas!
Este belo lugar desfigurado por uma safra de casas suburbanas —
Quão belo quando o vimos pela primeira vez,
Um campo intacto de papoulas e tremoceiros cercado por límpidas falésias;
Nenhuma intrusão, salvo dois ou três cavalos pastando,
Ou algumas vacas leiteiras esfregando seus flancos nos afloramentos rochosos —
Então chega o espoliador: elas se importam?
Francamente, não, pois têm todo o tempo. Elas sabem que as pessoas são como uma maré
Que sobe e com o tempo reflui, e que todas as
Suas obras se dissolvem. Enquanto isso, a imagem da beleza intocada
Vive no próprio grão do granito.
Segura como o mar sem fim que escala nossas falésias. — Quanto a nós:
Devemos des-centralizar nossas mentes de nós mesmos;
Devemos des-humanizar um pouco nossos pontos de vista, e tornarmo-nos confiantes
Como a rocha e o oceano dos quais fomos feitos.

Trad.: Nelson Santander

Carmel Point

The extraordinary patience of things!
This beautiful place defaced with a crop of suburban houses —
How beautiful when we first beheld it,
Unbroken field of poppy and lupin walled with clean cliffs;
No intrusion but two or three horses pasturing,
Or a few milch cows rubbing their flanks on the outcrop rock-heads —
Now the spoiler has come: does it care?
Not faintly. It has all time. It knows the people are a tide
That swells and in time will ebb, and all
Their works dissolve. Meanwhile the image of the pristine beauty
Lives in the very grain of the granite.
Safe as the endless ocean that climbs our cliff. — As for us:
We must uncenter our minds from ourselves;
We must unhumanize our views a little, and become confident
As the rock and ocean that we were made from.

Eiléan Ní Chuilleanáin – Bessboro

Isso é o que eu herdei —
Nunca foi minha própria vida,
Mas o nome de uma casa que ouvi
E outros ouviram como uma advertência
Do que poderia acontecer a uma menina
Atrevida e apanhada pela má-sorte:
Um fragmento de um destino
Desolador, uma nota-marreta de medo —

Mas eu nunca vi o lugar.
Agora que estou no portão
E que o tempo já passou
É a ausência dele que chove,
Que perfura a costura
Do meu casacão, com agulhas
Pontiagudas, preenchendo o dia breve.

O portão de grades brancas está fechado,
A cerca branca perde-se de vista até
Onde passa a avenida, a chuva
Obscurece a distância, encobrindo todo som
E um semicerrado véu de névoa
Oculta elementos do conhecido:
Frontões e janelas altas e cegas.
A história se distanciou.

A chuva se incorpora ao gramado,
Soprada sobre o lago de marés
Passando pelo telhado isolado
E pelas árvores altas no parque;
Ela uiva em direção ao sul e ao oeste;
A terra é secreta como sempre:
O sangue que aqui foi semeado, floresceu,
E todas as sementes voaram para longe.

Trad.: Nelson Santander

O poema Bessboro, da poeta irlandesa Eiléan Ní Chuilleanáin, se refere ao lar para mães e bebês, atualmente conhecido como Bessborough Center, situado na cidade de Cork, onde cresceu a autora. O abrigo – para o qual mães solteiras eram secretamente enviadas para terem seus filhos, que, posteriormente, eram entregues em adoção – tem uma história controversa, iniciada nos anos 20, recheada de denúncias escabrosas: encarceramento forçado, registros falsificados de mortes, bebês e internas enterrados em sepulturas não identificadas e não registradas, abusos físico e emocionais, participação forçada em testes médicos, adoções ilícitas etc.. Para saber um pouco mais sobre a história do lugar, vale a leitura da matéria contida no link que segue, publicada na BBC News. Mas ao pesquisar na internet, dezenas de outras matérias assim podem ser encontradas.

https://www.bbc.co.uk/news/resources/idt-sh/the_girls_of_bessborough

Bessboro

This is what I inherit—
It was never my own life,
But a house’s name I heard
And others heard as warning
Of what might happen a girl
Daring and caught by ill-luck:
A fragment of desolate
Fact, a hammer-note of fear—

But I never saw the place.
Now that I stand at the gate
And that time is so long gone
It is their absence that rains,
That stabs right into the seams
Of my big coat, in pointed
Needles, crowding the short day.

The white barred gate is closed,
The white fence tracks out of sight
Where the avenue goes, rain
Veils distance, dimming all sound
And a halfdrawn lace of mist
Hides elements of the known:
Gables and high blind windows.
The story has moved away.

The rain darns into the grass,
Blown over the tidal lough
Past the isolated roof
And the tall trees in the park;
It gusts off to south and west;
Earth is secret as ever:
The blood that was sown here flowered
And all the seeds blew away.

Jane Hirshfield – Sopesagem

As razões do coração
vistas com clareza,
inclusive as mais duras,
carregarão
suas marcas de chicote e tristezas
e devem ser perdoadas.

Como a elande faminta
pela seca que perdoa
o leão faminto pela seca
que finalmente a arrebata,
e entra em seguida de bom grado
na vida que ela não pode recusar,
e torna-se leão, está alimentada,
e não se lembra da anterior.

Tão poucos grãos de felicidade
mensurados contra toda a escuridão
e mesmo assim as escalas se nivelam.

O mundo só quer de nós
a força que temos e damos.
Então ele pede mais, e nós damos.

Trad.: Nelson Santander

The Weighing

The heart’s reasons
seen clearly,
even the hardest
will carry
its whip-marks and sadness
and must be forgiven.

As the drought-starved
eland forgives
the drought-starved lion
who finally takes her,
enters willingly then
the life she cannot refuse,
and is lion, is fed,
and does not remember the other.

So few grains of happiness
measured against all the dark
and still the scales balance.

The world asks of us
only the strength we have and we give it.
Then it asks more, and we give it.

Marilyn Nelson – Mais rápido que a luz

Eu não queria pagar para estacionar meu carro,
por isso peguei um táxi para a estação ferroviária.
New London fica a uma hora de carro,
mas aquela foi a melhor solução que pude encontrar.
Depois de mais ou menos dez milhas de conversa fiada
em que acabei confessando meu ofício,
o motorista disse que ele era um físico —
Como hobby, ele acrescentou: dirigir era sua ocupação.
Ainda lutando para prender meu cinto de segurança,
pedi sua opinião sobre um artigo
que eu tinha lido no fim de semana no New York Times,
sobre alguém que pesquisa viagens no tempo.

Ele fez aquele pffft que taxistas parisienses fazem
no início de agosto, quando americanos
tentam parlez avec eles na hora do rush.
Ele me deu uma boa olhada por cima dos ombros,
apertou o volante e pisou no acelerador.
E respondeu, Ele está errado. A única coisa que poderia funcionar
seria voar mais rápido do que a velocidade da luz,
através de um buraco de minhoca. O campo gravitacional
está cheio de buracos: você só precisa achar
um e ser puxado pela força metagravitacional.

Para obter energia, você poderia usar som compactado…
(ou algo parecido. Minha memória

não é o que era há dez minutos).
Ele dirigia com os dez nós dos dedos brancos no volante,
seu olho direito azul apertado olhando para mim,
enquanto fazíamos as curvas sobre dois pneus cantantes.
Viagens mais rápidas que a luz, esse é o segredo.
O governo está nisso há anos.
Existem outros planetas esperando para serem explorados.
O nosso já está quase esgotado; está na hora de partir.
Não aceitaremos pessoas que não estejam à altura,
os intelectualmente inferiores a nós.
Deixe-os herdar a terra; nós conquistaremos os céus.
(eu ainda não descobrira a trava do cinto de segurança.) 

A população pobre e ignorante aumenta
tão rapidamente… O quê? Negar o direito à vida?

Há uma porra de um holocausto de nascituros!
Só que algumas raças e culturas carecem do dom
do conhecimento científico. É o desperdício
de sua estupidez que nos oprime e nos
refreia. Viagens mais rápidas que a luz!

Viagens mais rápidas que a luz. O único jeito!
Nós descemos a rodovia, passando por caminhões,
mais rápidos que a luz! e carros cheios de pessoas
dirigindo, doidos para chegarem pontualmente ao trabalho.
Viagens mais rápidas que a luz, esse é o caminho!

Finalmente, paramos na estação de trem.
(eu desistira de afivelar meu cinto de segurança —
estúpida engenhoca — confiando no
universo para me conceder um pouco mais de sorte).
Desci aos tropeços. Despedimo-nos amistosamente
(minha gorjeta foi generosa, se o posso dizer).
Mais rápido que a luz, ele berrou, atrasado para sua próxima
corrida, saindo em disparada, falando ao telefone.
(minha caneca estava repleta do Salmo vinte e três.
A flutuabilidade às vezes é mais poderosa do que a gravidade).
Conduzi minha bagagem através do trem lotado,
encontrei um assento e abri minha revista.

Leio que alguma interferência está afetando uma sonda
espacial, o que deixa os cientistas perplexos. Ela
reescreverá as leis da física e da astronomia
quando os cientistas entenderem e nomearem essa força.
O plano era que a Pioneer 10 chegasse,
daqui a alguns milhões de anos, em algum lugar distante.
Em caso de contato alienígena, há uma placa
de um casal humano e um mapa celeste
mostrando a Terra com uma lança apontada para sua cabeça.
Trinta anos depois do seu lançamento, já passou Plutão,
o planeta mais distante orbitando nosso sol,
no espaço vazio a 7 bilhões de milhas da Terra.

O artigo diz que as teorias atuais não podem explicar
o que está causando a diminuição da velocidade da Pioneer.
É quase imperceptível, meros
6 MPH por século: mas a Pioneer 10
está sendo puxada de volta para o sol. Eu fecho meus olhos.
Vários milhões de anos a partir de agora. Como se
uma espécie prestes a se extinguir
dissesse a uma espécie futura: Lembra-se de mim?
A espécie que aperfeiçoou o genocídio?
Algum dia a ciência descobrirá a humildade?
Certo, sua tola. Você quer dizer en garde para a ciência?
Por que parar por aí? Por que não ataca o Conhecimento,

enquanto faz isso? E quanto ao Progresso?
Não é um pouco ambiciosa, Srta. William Blake?
Que voz foi essa? Ouça, Marilyn, ouça:
como os santos uma vez ouviram (e, claro, os loucos).
Olhei em volta: os outros passageiros
estavam ocupados com seus laptops, cafés da manhã, livros.
E do que me acusam? Ambição?
Ora, eu superei todas as fantasias que um dia tive.
Devo presumir que eu deveria falar mal de nossas tentativas
de enganar a morte? Meus poemas: um punhado de pó
tentando regressar à supernova.
Como todo anseio, como tudo que vive.

Mas a ambição quer a imortalidade
de um clube Valhalla apenas para associados,
uma eterna reunião de cúpula de grandes nomes.
Milhões de anos-luz no futuro,
esta ambição de imortalidade cruza
com o acaso: o que isso significará?
Nossa poesia, nossos livros, nossa língua: pó
de palavras, nunca mais pronunciadas.
Eu me pergunto o que durará milhões de anos:
Uma rocha? Um local de eliminação de resíduos nucleares?
Irá o Homo sapiens evoluir, ou morrer?
Seres mais sábios povoarão nossa Terra?

Estamos nos extinguindo mais rápido que a velocidade da luz,
nossa fama, olvidável. Irão desaparecer, também,
as boas ações, como exaladas moléculas de ar,
para serem recicladas pelo universo?
Garota, volte para a jangada. Quando você tenta pensar
a brisa entre suas orelhas quase me derruba
.
Minha musa outra vez. Lá se foi a minha revista.
Eu fecho suas páginas e começo a divagar.
Como se você não divagasse o tempo todo.
Se você tivesse o bom senso que Deus incentiva com uma cenoura,
saberia que o que dura é o silêncio do espaço:
o sibilar da órbita e o sussurro das estrelas.

Se pudesse lançar uma sonda espacial, me perguntei,
eu aceitaria meu nome gravado em ouro?
Meus insignificantes pensamentos? Minhas esperanças para o futuro?
E se soubesse que seria anônimo,
eu publicaria? Eu escreveria poemas
(durante a contagem regressiva do Anônimo,
você estaria tentando riscar suas iniciais no casco)?
Bem, Musa da Poesia Descartável,
pelo menos eu não estou produzindo lixo tóxico!
Mas poetas que buscam a imortalidade,
poetas que são ambiciosos: é errado
querer a vida, depois de nossas mortes, para nossas canções?

Deixe a imortalidade para as células cancerígenas.
Elas não sabem quando parar. Quando chegam

ao ponto de não retorno, o corpo morre,
e o câncer é devolvido à gênese.
Os genes são programados para se reproduzir e morrer;
e a poesia, para aderir a uma sinapse,

afortunada por ser uma linha mal lembrada.
Seu trabalho, projetado para o futuro,
é puxado de volta para a terra pela energia escura,
a cola que aglutina o cosmos…

Depois de Stamford eu não viajei mais sozinha;
meu colega de assento falava rapidamente em seu celular.

Trad.: Nelson Santander

Faster Than Light

I didn’t want to pay to park my car,
so I took a taxi to the train station.
New London is an hour’s drive away,
but it was the best solution I could find.
After ten miles or so of idle chat
in which my occupation was confessed,
the driver said he was a physicist—
As a hobby, he said: Driving was his trade.
Still struggling to connect my seat-belt clasp,
I asked his opinion of an article
I’d skimmed last weekend in the New York Times,
about a man who researches time travel.

He made that pffft Parisian cabbies make
in early August, when Americans
try to parlez avec them at rush hour.
He gave me a long over-the-shoulder glare,
squeezed the steering wheel, and hit the gas.
He said, He’s wrong. The one thing that would work
 is to fly faster than the speed of light,
through a wormhole. The gravitational field
is full of holes: You only have to find
one and be pulled by metagravitational force.
For energy you could use compressed song…
(or words to that effect. My memory

isn’t what it was ten minutes ago.)
He drove with ten white knuckles on the wheel,
his pinched blue right eye looking back at me,
as we took the curves on two screaming tires.
Faster than light travel, that’s the secret.
The government’s been onto this for years.
There are other planets waiting to be explored.
This one’s almost used up; it’s time to move.
We won’t take people who don’t measure up,
our intellectual inferiors.
Let them inherit the earth; we’ll take the skies.
(I still couldn’t figure out the seat-belt catch.) 

The poor and ignorant population grows
 so quickly… What? Deny the right to life?
There’s a fuckin’ holocaust of the unborn!
But some races and cultures lack the gift
of scientific knowledge. It’s the dross
 of their stupidity which weighs us down
and holds us back. Faster than light travel!
Faster than light travel. The only way!
We hurtled down the turnpike, passing trucks
Faster than light! and cars full of people
driving hell-bent to get to work on time.
Faster than light travel, that’s the ticket!

Finally, we pulled up at the train station.
(I’d given up on fastening my seatbelt—
stupid contraption—trusting to
the universe to grant me more good luck.)
I scrambled out. We wished each other well.
(My tip was generous, if I do say so myself.)
Faster than light, he yelled, late for his next
pickup, zooming off, talking to his phone.
(My cup brimmed over with Psalm Twenty-Three.
Buoyancy’s sometimes stronger than gravity.)
I wheeled my luggage down the crowded train,
then found a seat and opened my magazine.

Some influence is affecting a space probe,
I read, which baffles scientists. It will
rewrite the laws of physics and astronomy
when scientists understand and name that force.
The plan was for Pioneer 10 to arrive
some million years from now, at some far place.
In case of alien contact, there’s a plaque
of a human couple, and a celestial map
showing Earth with a spear held to her head.
Thirty years beyond its launch, it’s past Pluto,
the farthest planet orbiting our sun,
in empty space 7 billion miles from Earth.

The article said current theories can’t explain
what’s causing the decrease in Pioneer’s speed.
It’s almost imperceptible, a mere
6 mph per century: But Pioneer 10
is being pulled back to the sun. I closed my eyes.
Several million years from now. As if
a species on the brink of extinguishing itself
said to a future species, Remember me?
The species which perfected genocide?
Will science ever discover humility?
Right, fool. You want to say en garde to science?
Why stop there? Why don’t you attack Knowledge,

while you’re at it? And how about Progress?
Ain’t that a bit ambitious, Miss William Blake?
What was that voice? Listen, Marilyn, listen:
as saints once listened (and, of course, the mad).
I looked around: The other passengers
were busy with laptops, breakfasts, books.
And where does it get off accusing me? Ambition?
Why, I’ve surpassed every fantasy I had.
Would I presume to bad-mouth our attempt
to cheat death? My poems: a handful of dust
trying to get back to supernova.
Like every longing, everything alive.

But ambition wants the immortality
of a members-only country club Valhalla,
an eternal summit meeting of great names.
Millions of lightyears into the future,
that immortality ambition breeds
with serendipity: what will it mean?
Our poetry, our books, our language: dust
of words, never again to be spoken.
I wonder what will last millions of years:
A stone? A nuclear waste disposal site?
Will Homo sapiens evolve, or die?
Will wiser beings populate our Earth?

We’re dying faster than the speed of light,
our fame forgettable. Will good deeds, too,
vanish, like molecules of exhaled breath,
to be recycled by the universe?
Girl, get on back to the raft. When you try to think
the breeze between your ears nearly blows me away.
My Muse again. So much for my magazine.
I closed its pages and began to drift.
As if you wasn’t drifting all along.
If you had the good sense God promised the carrot,
you’d know that what lasts is the hush of space:
the hiss of orbit, and the hum of stars.

If you could launch a space probe, I wondered,
would you take up my name engraved in gold?
My puny thoughts? My hopes for the future?
And, if I knew I’d be anonymous,
would I publish? Would I write poems at all?
(During the countdown of The Anonymous,
you’d be trying to scratch your initials on the hull.)
Well, Muse of Disposable Poetry,
at least I’m not producing toxic waste!
But poets who want immortality,
poets who are ambitious: Is it wrong
to want life after our deaths for our songs?

Leave immortality to cancer cells:
They don’t know when to stop. Just when they reach
the point of no return, the body dies,
and the cancer is returned to genesis.
Genes are programmed to reproduce and die;
and poetry, to stick on a synapse,
ucky to be a line remembered wrong.
Your work, projected into the future,
is pulled back to earth by dark energy,
the glue which binds the cosmos together…
From Stamford I no longer traveled alone;
my seatmate fast-talked into his cellphone.

Natalie Diaz – Meu irmão às 3 da manhã

Ele se sentou de pernas cruzadas, chorando nos degraus,
quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente.
        Meu Deus, ele disse. Meu Deus.
                Ele quer me matar, mamãe.

Quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente,
às 3 da manhã, ela estava de camisola, e papai dormia.
        Ele quer me matar, ele disse,
                olhando por cima do ombro.

Às 3 da manhã e de camisola, e papai dormia,
O que está acontecendo? ela perguntou. Quem quer te matar?
        Ele olhou por cima do ombro.
                O diabo. Olhe para ele, ali.

Ela perguntou, O que você usou? Quem quer te matar?
O céu não era preto nem azul, mas o verde de uma noite moribunda.
        O diabo, olhe para ele, ali.
                Ele apontou para a casa da esquina.

O céu não era preto nem azul, mas o verde moribundo da noite.
As estrelas haviam fechado seus olhos ou embainhado suas facas.
        Meu irmão apontou para a casa da esquina.
                Seus lábios feridos tremiam.

As estrelas haviam fechado seus olhos ou embainhado suas facas.
Meu Deus, eu posso ver o rabo, ele disse. Meu Deus, veja.
        Mamãe estremeceu ao ver as feridas nos lábios dele.
                Está saindo de trás da casa.

Meu Deus, veja o rabo, ele disse. Veja o maldito rabo.
Ele se sentou de pernas cruzadas, chorando nos degraus da frente.
        Mamãe finalmente viu, uma visão infernal, meu irmão.
                Meu Deus, meu Deus, ela disse.

Trad.: Nelson Santander

My Brother at 3 A.M.

He sat cross-legged, weeping on the steps
when Mom unlocked and opened the front door.
        O God, he said. O God.
                He wants to kill me, Mom.

When Mom unlocked and opened the front door
at 3 a.m., she was in her nightgown, Dad was asleep.
        He wants to kill me, he told her,
                looking over his shoulder.

3 a.m. and in her nightgown, Dad asleep,
What’s going on? she asked. Who wants to kill you?
        He looked over his shoulder.
                The devil does. Look at him, over there.

She asked, What are you on? Who wants to kill you?
The sky wasn’t black or blue but the green of a dying night.
        The devil, look at him, over there.
                He pointed to the corner house.

The sky wasn’t black or blue but the dying green of night.
Stars had closed their eyes or sheathed their knives.
        My brother pointed to the corner house.
                His lips flickered with sores.

Stars had closed their eyes or sheathed their knives.
O God, I can see the tail, he said. O God, look.
        Mom winced at the sores on his lips.
                It’s sticking out from behind the house.

O God, see the tail, he said. Look at the goddamned tail.
He sat cross-legged, weeping on the front steps.
        Mom finally saw it, a hellish vision, my brother.
                O God,O God, she said.

Louise Glück – Aubade

Hoje, acima do canto da gaivota,
ouvi você me acordar novamente
para ver aquela ave, voando
tão estranhamente sobre a cidade,
não querendo
parar, desejando
a desolação azul do mar —

Agora ela contorna o subúrbio;
contra si, a luz violenta do meio-dia:

Eu sinto a fome dela
como sua mão dentro de mim,

um grito
tão comum, desafinado —

O nosso não era
diferente. Eles surgiram
da necessidade
inesgotável do corpo

concretizando um desejo de voltar:
o pálido amanhecer, nossas roupas
não separadas para a partida.

Trad.: Nelson Santander

Aubade

Today above the gull’s call
I heard you waking me again
to see that bird, flying
so strangely over the city,
not wanting
to stop, wanting
the blue waste of the sea—

Now it skirts the suburb,
the noon light violent against it:

I feel its hunger
as your hand inside me,

a cry
so common, unmusical—

Ours were not
different. They rose
from the unexhausted
need of the body

fixing a wish to return:
the ashen dawn, our clothes
not sorted for departure.

Dan Gerber – Frequentemente, imagino a terra

Frequentemente, imagino a terra
com o olhar dos átomos de que somos feitos —
átomos, peculiares
átomos por toda parte —
sem eu, sem você, sem opiniões,
sem princípio, sem meio, sem fim,
planando juntos como aqueles
antigos pássaros chineses
nascidos milagrosamente com apenas uma asa,
ajudando uns aos outros a voar para casa.

Trad.: Nelson Santander

Often I Imagine the Earth

Often I imagine the earth
through the eyes of the atoms we’re made of—
atoms, peculiar
atoms everywhere—
no me, no you, no opinions,
no beginning, no middle, no end,
soaring together like those
ancient Chinese birds
hatched miraculously with only one wing,
helping each other fly home.

Dorianne Laux – Histórias de família

Tive um namorado que me contava histórias sobre sua família,
como a de certa vez em que uma discussão terminou quando seu pai
agarrou um pedaço aceso de um bolo de aniversário com ambas as mãos
e o arremessou pela janela do segundo andar. Isso,
eu pensava, era como uma família normal era: raiva
enviada através do peitoril, aterrissando como uma dádiva
para decorar a calçada abaixo. Na minha
eram punhos e golpes diretos no plexo solar,
e ninguém jamais perdoou ninguém. Mas eu acreditava
que, em suas histórias, as pessoas realmente se amavam,
mesmo quando gritavam e enfiavam seus pés
através das portas do armário ou empunhavam uma cadeira como uma garrafa
de champanhe barata, batizando a parede,
os estribos explodindo de seus orifícios.
Eu disse que soavam inofensivos, a pompa e a fúria
dos apaixonados. Ele respondeu que era uma maldição
ter nascido italiano e católico e que quando
olhava daquela janela o que via era o instante
rudemente destroçado. Mas tudo o que eu conseguia ver era um deslumbrante
bolo de três camadas deslizando como um navio avariado
pela calçada, as velas fumegantes quebradas, enraizadas
profundamente na cobertura, algumas ainda acesas.

Trad.: Nelson Santander

 

Family Stories

I had a boyfriend who told me stories about his family,
how an argument once ended when his father
seized a lit birthday cake in both hands
and hurled it out a second-story window. That,
I thought, was what a normal family was like: anger
sent out across the sill, landing like a gift
to decorate the sidewalk below. In mine
it was fists and direct hits to the solar plexus,
and nobody ever forgave anyone. But I believed
the people in his stories really loved one another,
even when they yelled and shoved their feet
through cabinet doors or held a chair like a bottle
of cheap champagne, christening the wall,
rungs exploding from their holes.
I said it sounded harmless, the pomp and fury
of the passionate. He said it was a curse
being born Italian and Catholic and when he
looked from that window what he saw was the moment
rudely crushed. But all I could see was a gorgeous
three-layer cake gliding like a battered ship
down the sidewalk, the smoking candles broken, sunk
deep in the icing, a few still burning.