Joaquin Zihuatanejo – Exame final para o meu pai

1. Verdadeiro ou falso. Na noite em que abandonou a mim e minha mãe você hesitou antes de segurar a maçaneta.

2. Se um ônibus deixa a cidade a 100 km por hora para lugar nenhum em particular, e um homem naquele ônibus deixou seu único filho para trás na escuridão dessa cidade, quantos quilômetros serão necessários para que esse filho esqueça como são e com o que se parecem as mãos de seu pai?

3. Na noite em que nos abandonou, quantos corações você partiu?

A. um, o meu

B. um, o de minha mãe

C. dois, o meu e o de minha mãe

D. três, o meu, o de minha mãe e o seu

4. Verdadeiro ou Falso. Em algumas espécies do reino animal, quando um membro masculino dessa espécie abandona sua prole, ele é condenado ao ostracismo, espancado e, em alguns casos, morto.

5. No espaço abaixo, defina os termos longe, genitor e progenitor.

6. Na noite em que seu pai morreu, o que diria a Deus se tivesse algo a dizer?

7. Quando sobrevivemos nove dias seguidos antes que o cheque da previdência social chegasse, com um saco de milho e uma panela cheia de vontades que tinham gosto de feijão, você sentia o fogo na ponta de seus dedos toda vez que minha mãe suspirava enquanto virava a tortilha na chama acessa?

8. Por causa do seu sangue, passei todos os dias de minha vida envolto por uma pele clara demais para ser parda e escura demais para ser branca. Eu costumava odiar isso em mim, até que finalmente passei a amar. O que você ama e odeia em você?

9. Quando jovem você:

A. nunca amou uma jovem e bela mulher parda.

B. amou uma jovem e bela mulher parda.

C. amou muitas jovens e belas mulheres pardas

D. amava apenas a ideia de jovens e belas mulheres pardas

10. Liste cinco coisas pelas quais você é verdadeiramente grato e cinco coisas das quais você verdadeiramente se arrepende.

11. A mãe de um famoso poeta americano disse certa vez: “Mães [solteiras] são quase sempre homens melhores do que os homens.” O que você acha disso?

12. Sem usar as palavras “Eu” ou “sinto muito”, no espaço fornecido escreva uma carta de desculpas para minha mãe.

13. Em uma escala de um a dez, sendo um nada difícil e dez bastante difícil, quão desafiador você acha que é para um guerro1 crescer no lower east side2?

14. Quando criança, seu filho se lembra de ouvir seus tios bêbados sussurrando com vozes abafadas, não destinadas aos seus ouvidos, que provavelmente você não era o pai daquela criança. Há algo que gostaria de dizer a eles?

15. Complete a frase:

“Meu filho, se eu tivesse apenas uma coisa para lhe dizer seria __________”

E uma última pergunta para concluir o teste:

Curaria ou partiria seu coração se eu lhe dissesse

Eu o perdoo?

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

1. Guerro é uma gíria hispânica usada para denominar uma pessoa (normalmente homens jovens) de pele clara e/ou loira, na maioria das vezes de forma depreciativa

2. o Lower East Side é um bairro da cidade de Nova York com grande diversidade racial, mas composto, em sua maioria, por hispânicos (32%) e asiáticos (30%)

Final Exam for My Father

1. True or False. The night that you walked out me and my mother, you hesitated before grabbing the doorknob.

2. If a bus leaves the city at 60 miles per hour to nowhere in particular, and a man on that bus has left his only son behind in the darkness of that city, how many miles will it take before that son forgets what his father’s hands look and feel like?

3. On the night that you left us, how many hearts did you break?

A. one, mine

B. one, my mother’s

C. two, mine and my mother’s

D. three, mine, my mother’s and yours

4. True or False. In certain species of the animal kingdom, when a male member of that species abandons his offspring that male member of that species is ostracized, beaten, and in some instances killed.

5. In the space provided, define the terms further, farther, and father.

6. On the night that your father died, what if anything did you have to say to God?

7. When we survived nine days in a row before the welfare check came in, on a bag of maiz and a crock pot full of wishes that tasted just like frijoles, did you feel the fire on your fingertips every time my mother winced as she turned the tortilla on the open flame?

8. Because of your blood, I have spent every day of my life enveloped by skin that’s too light to be brown and too dark to be white. I used to hate this about myself, but I have finally come to love this about myself. What do you love and hate about yourself?

9. As a young man you

A. never loved a young, beautiful dark brown woman.

B. loved one young, beautiful dark brown woman.

C. loved many young, beautiful dark brown women

D. loved only the idea of young beautiful dark brown women

10. List five things that you are truly grateful for and five things that you are truly regretful for.

11. A famous American poet’s mother once said, “[Single] mothers are almost always better men than men are.” What do you make of this?

12. Without using the words, “I’m” or “sorry” in the space provided write an apology letter to my mother.

13. On a scale from one to ten, with one being not difficult at all and ten being quite difficult, how challenging do you think it is for a guerro to grow up in the barrio of the lower east side?

14. As a child your son remembers hearing his drunk uncles whisper in hushed voices not meant for his ears that more than likely you were not that child’s father. What if anything do you have to say to them?

15. Finish this sentence:

My son, if I only had one thing to say to you, it would be

And one final question to conclude the test:

Would it mend or break your heart if I told you,

I forgive you?

Emily Dickinson – Morri pela Beleza

Morri pela Beleza – e assim que no Jazigo
Meu Corpo foi fechado,
Um outro Morto foi depositado
Num Túmulo contíguo –

“Por que morreu?” murmurou sua voz.
“Pela Beleza” – retruquei –
“Pois eu – pela Verdade – É o Mesmo. Nós
Somos Irmãos. É uma só lei” –

E assim Parentes pela Noite, sábios –
Conversamos a Sós –
Até que o Musgo encobriu nossos lábios –
E – nomes – logo após –

Trad.: Augusto de Campos

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/10/2017

I died for Beauty

I died for Beauty – but was scarce
Adjusted in the Tomb
When One who died for Truth, was lain
In an adjoining Room –

He questioned softly “Why I failed”?
“For Beauty”, I replied –
“And I – for Truth – Themself are One –
We Brethren, are”, He said –

And so, as Kinsmen, met a Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names –

Linda Pastan – O adeus de Dido

O adeus de Dido1

Crônica é a chuva
em minhas vidraças, e as velas se afogam
em sua própria cera.
Abandonados pela luz,
mesmo os filamentos de estrelas
escurecem. Esta tarde,
eu escorei com hastes
suas rosas encharcadas,
elas parecem meninas
de muletas agora.

Você deixou
um mapa parcial
de sua mão direita
em cada maçaneta,
e eu sigo de sala
em sala, nômade
em minha própria casa,
o coração batendo
no peito, exigindo
ser solto.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.

1. O título do poema provavelmente faz referência ao mito de Dido (ou Elissa ou Alyssa), a primeira rainha de Cartago, e sua grande paixão por Eneias, filho de Afrodite e um dos grandes heróis de Troia. Segundo a Eneida, de Virgilio, Dido teria se suicidado ao ser abandonada por Enéas, por quem se apaixonara quando o grande comandante e herói troiano aportou em Cartago. Em uma das passagens mais belas de Dido and Aeneas, a ópera em três atos de Henry Purcell, o episódio do suicídio de Dido é narrado na ária Dido’s Lament, que pode ser conferida nesse vídeo, na comovente interpretação da soprano Anna Dennis.

Dido’s Farewell

The rain is chronic
at my windows, and candles drown
in their own wax.
Abandoned by light,
even the filaments of stars
go black. This afternoon
I propped your drenched roses
up on sticks,
they look like young girls
on crutches now.

You left
a partial map
of your right hand
on every doorknob,
and I follow from room
to room, nomad
in my own house,
my own heart knocking
at my ribs, demanding
to be let out.

Li-Young Lee – Das flores

Das flores vem
este saco de papel pardo com os pêssegos
que compramos do menino
na curva da estrada onde dobramos em direção
às placas escritas Pêssegos.

Dos galhos carregados, das mãos,
da doce comunhão nas latas,
vem o néctar da beira da estrada, suculentos
pêssegos que devoramos, com a pele empoeirada e tudo,
vem o pó familiar do verão, pó que comemos.

Ó!, levar no interior o que amamos,
carregar dentro de nós um pomar, comer
não só a pele, mas a sombra,
não só o açúcar, mas os dias, tomar
a fruta em nossas mãos, adora-la, e depois morder
o júbilo redondo do pêssego.

Há dias em que vivemos
como se a morte não fizesse parte
de nenhum cenário; de alegria
em alegria até a alegria, de asa em asa,
de flor em flor até a
impossível flor, a doce e impossível flor.

Trad.: Nelson Santander

From Blossoms

From blossoms comes
this brown paper bag of peaches
we bought from the boy
at the bend in the road where we turned toward
signs painted Peaches.

From laden boughs, from hands,
from sweet fellowship in the bins,
comes nectar at the roadside, succulent
peaches we devour, dusty skin and all,
comes the familiar dust of summer, dust we eat.

O, to take what we love inside,
to carry within us an orchard, to eat
not only the skin, but the shade,
not only the sugar, but the days, to hold
the fruit in our hands, adore it, then bite into
the round jubilance of peach.

There are days we live
as if death were nowhere
in the background; from joy
to joy to joy, from wing to wing,
from blossom to blossom to
impossible blossom, to sweet impossible blossom.

Raymond Carver – O que o médico disse

Ele disse não parece bom
ele disse parece mau aliás muito mau
ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes
de parar de contar
eu disse fico feliz não ia querer saber
que tem mais do que isso lá
ele disse por acaso você é religioso você se ajoelha
em bosques na floresta e se permite pedir ajuda
quando encontra uma cachoeira
a névoa soprando contra seu rosto seus braços
você para e pede clareza nesses momentos
eu disse não mas pretendo começar hoje mesmo
ele disse sinto muito ele disse
gostaria de ter outro tipo de notícia para dar
eu disse Amém e ele disse algo mais
que eu não entendi e sem saber mais o que fazer
e sem querer que ele precisasse repetir aquilo
e que eu realmente precisasse digeri-lo
apenas olhei para ele
por um minuto e ele olhou de volta foi então
que me ergui num salto e apertei a mão daquele homem que
acabara de me dar
algo que ninguém no mundo jamais tinha me dado
talvez eu tenha até agradecido por força do hábito

Trad.: Cide Piquet

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 22/10/2017

What the Doctor Said

He said it doesn’t look good
he said it looks bad in fact real bad
he said I counted thirty-two of them on one lung before
I quit counting them
I said I’m glad I wouldn’t want to know
about any more being there than that
he said are you a religious man do you kneel down
in forest groves and let yourself ask for help
when you come to a waterfall
mist blowing against your face and arms
do you stop and ask for understanding at those moments
I said not yet but I intend to start today
he said I’m real sorry he said
I wish I had some other kind of news to give you
I said Amen and he said something else
I didn’t catch and not knowing what else to do
and not wanting him to have to repeat it
and me to have to fully digest it
I just looked at him
for a minute and he looked back it was then
I jumped up and shook hands with this man who’d just given me
something no one else on earth had ever given me
I may have even thanked him habit being so strong

Malena Mörling – Simplesmente iluminado

Muitas vezes no fim da tarde,
depois de outro dia, depois de
mais um ano de dias,
no meio da noite a caminho de casa
eu paro na loja de conveniência
e, aguardando na fila, me pego
perguntando sobre as pessoas. Eu me pergunto
se elas também se perguntam como é
estranho que estejamos
aqui na terra.
E como, para poder viver,
todos temos que dormir.
E como temos camas para isto
(a não ser que estejamos sem)
e quartos inteiros para onde vamos
no final do dia para desabar.
E penso em como mesmo as pessoas
mais animadas ficam desoladas
quando estão sozinhas
porque elas também precisam dormir
e, mais cedo ou mais tarde, morrer.
Estamos sempre procurando adquirir
mais comida para outras excelentes refeições.
Temos que ter excelentes refeições.
Não é o suficiente ser uma pessoa comprando
uma caixa de leite? Uma simples
latinha de manteiga
e um pão integral?
Não basta só ficar aqui
enquanto a doce caixa de meia-idade
registra as compras?
Olho para fora,
mas não consigo ver muito ali
porque está escuro agora, exceto
por um solitário letreiro de neon vermelho
flutuando sobre o posto de combustível
como um templo em miniatura simplesmente
iluminado contra a noite.

Trad.: Nelson Santander

Simply Lit

Often toward evening,
after another day, after
another year of days,
in the half dark on the way home
I stop at the food store
and waiting in line I begin
to wonder about people. I wonder
if they also wonder about how
strange it is that we
are here on the earth.
And how in order to live
we all must sleep.
And how we have beds for this
(unless we are without)
and entire rooms where we go
at the end of the day to collapse.
And I think how even the most
lively people are desolate
when they are alone
because they too must sleep
and sooner or later die.
We are always looking to acquire
more food for more great meals.
We have to have great meals.
Isn’t it enough to be a person buying
a carton of milk? A simple
package of butter and a loaf
of whole wheat bread?
Isn’t it enough to stand here
while the sweet middle-aged cashier
rings up the purchases?
I look outside,
but I can’t see much out there
because now it is dark except
for a single vermilion neon sign
floating above the gas station
like a miniature temple simply lit
against the night.

Raymond Carver – Medo

Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.
Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir.
Medo de que o passado desperte.
Medo de que o presente alce voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!
Medo de cães que supostamente não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado.
Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice, e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.

Já disse isso.

Trad.: Rubens Figueiredo

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 21/10/2017

Fear

Fear of seeing a police car pull into the drive.
Fear of falling asleep at night.
Fear of not falling asleep.
Fear of the past rising up.
Fear of the present taking flight.
Fear of the telephone that rings in the dead of night.
Fear of electrical storms.
Fear of the cleaning woman who has a spot on her cheek!
Fear of dogs I’ve been told won’t bite.
Fear of anxiety!
Fear of having to identify the body of a dead friend.
Fear of running out of money.
Fear of having too much, though people will not believe this.
Fear of psychological profiles.
Fear of being late and fear of arriving before anyone else.
Fear of my children’s handwriting on envelopes.
Fear they’ll die before I do, and I’ll feel guilty.
Fear of having to live with my mother in her old age, and mine.
Fear of confusion.
Fear this day will end on an unhappy note.
Fear of waking up to find you gone.
Fear of not loving and fear of not loving enough.
Fear that what I love will prove lethal to those I love.
Fear of death.
Fear of living too long.
Fear of death.

I’ve said that.

Margaret Atwood – Um barco

A noite chega e as colinas adensam-se;
desvanecimento rubro e amarelo das folhas.
Os gélidos pinheiros se alongam em suas sombras.

Abaixo deles, a água silencia,
um pôr do sol tremeluzindo nela.
Mais um que desce para se juntar aos outros.

Agora o lago se expande
e se fecha, simultaneamente.

A escuridão que se mantém
sob a superfície durante o dia
emerge dela como a névoa
ou como névoa.

A distância se esvai, a ausência
de distância faz pressão contra os olhos.

Não há como ver o lago,
apenas os contornos das colinas,
que são quase idênticas,

familiares para mim como o sono,
e as margens se desdobrando sobre margens
em seus contornos de lenta respiração.

É pelo tato que eu vou,
o barco como mão sondando
através de cardumes e entre
árvores mortas, elevando-se invisível
sobre os penedos, camada
por camada de tempo afogado desaparecendo.

Foi assim que aprendi a navegar
na escuridão sem estrelas.

Estar perdido é apenas uma falha de memória.

Trad.: Nelson Santander

A Boat

Evening comes on and the hills thicken;
red and yellow bleaching out of the leaves.
The chill pines grow their shadows.

Below them the water stills itself,
a sunset shivering in it.
One more going down to join the others.

Now the lake expands
and closes in, both.

The blackness that keeps itself
under the surface in daytime
emerges from it like mist
or as mist.

Distance vanishes, the absence
of distance pushes against the eyes.

There is no seeing the lake,
only the outlines of the hills
which are almost identical,

familiar to me as sleep,
shores unfolding upon shores
in their contours of slowed breathing.

It is touch I go by,
the boat like a hand feeling
through shoals and among
dead trees, over the boulders
lifting unseen, layer
on layer of drowned time falling away.

This is how I learned to steer
through darkness by no stars.

To be lost is only a failure of memory.

Matthew Sweeney – Crucificação

Eu cozinhava uma beterraba quando a campainha tocou.
‘Quem será a essa hora?’, murmurei, marchando
para a porta. Quando a abri, o sol brilhava
tanto que só vi silhuetas, mas discerni
que pairava sobre tudo uma grande cruz preta.
Havia dois homens, um com cara de bode,
o outro um sujeito enorme com um cigarro
na boca e suor no rosto de carregar a cruz.
O primeiro homem sorria, sacudindo seu saco de pregos
e acariciando o martelo em seu cinto. ‘Viemos
para efetuar a sua crucificação.’ Vendo minha reação,
ele sorriu, ‘Não se preocupe, está tudo pago.’
O outro homem havia posto a cruz no chão, e
analisava o gramado para encontrar o melhor local.
“Posso perguntar quem pagou por isso?’, gaguejei. ‘Certamente
houve um grande engano.’ Seguiu-se uma gargalhada.
‘Não houve engano, senhor. Foi precisamente o seu bom eu
quem ordenou o acontecimento. Veja aqui,’ disse ele,
empurrando um formulário de compra assinado na minha cara.
Meu nome estava correto, mas era uma falsificação. Eu apontei
isto, sem sucesso, então gritei que bastava.
‘Por favor, saia daqui imediatamente e peça ao
seu palhaço gigante para não esquecer a cruz.’ Fechei
a porta com força, empurrei uma poltrona contra ela,
e sentei-me, depois de pegar minha faca maior e mais afiada.
Estava com o celular preparado para chamar a polícia, mas
pensei ter ouvido os dois se arrastando corredor afora,
e uma olhada pelo olho mágico confirmou essa hipótese.
Voltei para a cozinha para verificar minha beterraba.
Havia quase secado e a água estava vermelha.

Trad.: Nelson Santander

Crucifixion

I was boiling a beetroot when the doorbell rang.
‘Who the hell is this?’, I muttered, marching
to the door. When I opened it the sun was so
bright I only saw silhouettes, but that was enough
for looming over everything was a big black cross.
There were two men, one with the face of a goat,
the other a huge fellow with a fag in his mouth
and sweat on his face from carrying the cross.
The first man grinned, shaking his bag of nails
and patting the hammer in his belt. ‘We’ve come
to carry out your crucifixion.’ Seeing my reaction
he laughed, ‘Don’t worry it’s all been paid for.’
The other man had set the cross down, and was
checking out the lawn for the best location.
“Can I ask who’s paid for it?’ I stuttered. ‘Surely
there’s been a huge mistake.’ A laugh ensued.
‘No mistake, sir. It was your good self exactly
who ordered the happening. See here,’ he said,
shoving a signed order form into my face. It was
my name all right, but it was a forgery. I pointed
this out, to no avail, so I shouted that was enough.
‘Kindly leave this premises immediately, and ask
your giant clown not to forget his cross.’ I slammed
the door, then wheeled an armchair up against it,
and sat in this, after getting my biggest sharp knife.
I had my mobile primed to call the police, but I
thought I heard the two lumbering down the path,
and a look through the spyhole confirmed this.
I went back to the kitchen to check my beetroot.
It had nearly boiled dry and the water was red.

Derek Walcott – O Amor Depois do Amor

Um dia virá
em que, eufórico,
você cumprimentará a si próprio chegando
à sua porta, em seu espelho
e cada um dará ao outro um sorriso de boas-vindas,

e você dirá, sente-se aqui. Coma.
Você amará outra vez o estranho que foi.
Sirva vinho. Reparta o pão. Restitua
o seu coração
para ele mesmo, para o estranho que um dia você amou

por toda sua vida, a quem você ignorou
por outro, que o conhece de cor.
Derrube da estante as cartas de amor,

as fotografias, os bilhetes desesperados,
arranque sua imagem do espelho.
Sente-se. Saboreie a sua vida.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 13/10/2017

Derek Walcott – Love After Love

The time will come
when, with elation
you will greet yourself arriving
at your own door, in your own mirror
and each will smile at the other’s welcome,

and say, sit here. Eat.
You will love again the stranger who was your self.
Give wine. Give bread. Give back your heart
to itself, to the stranger who has loved you

all your life, whom you ignored
for another, who knows you by heart.
Take down the love letters from the bookshelf,

the photographs, the desperate notes,
peel your own image from the mirror.
Sit. Feast on your life.