Louise Glück – Santas

Em nossa família, havia duas santas,
minha tia e minha avó.
Mas suas vidas foram diferentes.

Minha avó era tranquila, mesmo no final.
Ela parecia uma pessoa caminhando em águas calmas;
por alguma razão
o mar não conseguiu feri-la.
Quando minha tia enveredou pelo mesmo caminho,
as ondas quebraram sobre ela, atacaram-na,
que é como as Fiandeiras do Destino respondem
a uma verdadeira natureza espiritual.

Minha avó era cautelosa, conservadora:
por isso escapou do sofrimento.
Minha tia não escapou de nada;
cada vez que o mar recua, alguém a quem ela ama é levado embora.

Ainda assim, ela não vivenciará
o mar como um mal. Para ela, ele é o que é:
onde toca a terra, ele tem que recorrer à violência.

Trad.: Nelson Santander

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Saints

In our family, there were two saints,
my aunt and my grandmother.
But their lives were different.

My grandmother’s was tranquil, even at the end.
She was like a person walking in calm water;
for some reason
the sea couldn’t bring itself to hurt her.
When my aunt took the same path,
the waves broke over her, they attacked her,
which is how the Fates respond
to a true spiritual nature.

My grandmother was cautious, conservative:
that’s why she escaped suffering.
My aunt’s escaped nothing;
each time the sea retreats, someone she loves is taken away.

Still she won’t experience
the sea as evil. To her, it is what it is:
where it touches land, it must turn to violence.

Mary Oliver – Canção dos construtores

Em uma manhã de verão
sentei-me
em uma encosta
para pensar em Deus—

um nobre passatempo.
Perto de mim, vi
um grilo solitário;
estava movendo os grãos da encosta

de um lado para o outro.
Quão grande era sua energia,
quão humilde o seu esforço.
Esperemos que

seja sempre assim,
cada um de nós avançando
por nossos inexplicáveis caminhos
construindo o universo.

Trad.: Nelson Santander

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Song of the Builders

On a summer morning
I sat down
on a hillside
to think about God—

a worthy pastime.
Near me, I saw
a single cricket;
it was moving the grains of the hillside

this way and that way.
How great was its energy,
how humble its effort.
Let us hope

it will always be like this,
each of us going on
in our inexplicable ways
building the universe.

Adrienne Rich – Fotografias do Hubble: Após Sappho

Deve ser a visão mais desejada de todas
a pessoa com quem você espera viver e morrer

entrando numa sala, voltando-se para olhar para você, vis-à-vis
Deveria haver ainda algo

mais desejável: a ex-estase das galáxias,
tão afastadas de nós que não há vocabulário

mas equações matemáticas e óticas
que permitem que a visão atravesse o tempo

em liberações e lacerações de luz e poeira,
expostas como uma cavidade corporal, violeta verde lívida e venosa, lindas

— além do bem e do mal como sempre manchadas em sonho
além do remorso, da desilusão, do medo da morte

ou da vida, do ódio
de ordem, do ódio de destruição

além deste amor que agita
o ar toda vez que ela entra na sala

Estas impersonae, como as chamamos,
não irão nos invadir como nas telas do cinema

elas são tão antigas, tão novas, nós não somos para elas
nós olhamos ou não para elas de dentro da nebulosidade leitosa

de nosso oblíquo olhar
mas elas não olham para trás e não podemos feri-las

Trad.: Nelson Santander

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Hubbele Photographs: after Sapho

It should be the most desired sight of all
the person with whom you hope to live and die

walking into a room, turning to look at you, sight for sight
Should be yet I say there is something

more desirable: the ex-stasis of galaxies
so out from us there’s no vocabulary

but mathematics and optics
equations letting sight pierce through time

into liberations, lacerations of light and dust
exposed like a body’s cavity, violet green livid and venous, gorgeous

—beyond good and evil as ever stained into dream
beyond remorse, disillusion, fear of death

or life, rage
for order, rage for destruction

beyond this love which stirs
the air every time she walks into the room

These impersonae, however we call them
won’t invade us as on movie screens

they are so old, so new, we are not to them
we look at them or don’t from within the milky gauze

of our tilted gazing
but they don’t look back and we cannot hurt them

Edward Field – Ícaro

Apenas as penas flutuando ao redor do chapéu
Mostravam que algo mais espetacular havia ocorrido
Além do afogamento habitual. A polícia preferiu ignorar
Os aspectos confusos do caso
E as testemunhas correram para uma guerra de gangues.
Assim, o relatório arquivado e esquecido nos registros dizia simplesmente
“Afogado,” mas estava errado: Ícaro
Tinha nadado para longe, chegando finalmente à cidade
Onde alugou uma casa e passou a cuidar de um jardim.

“Aquele simpático Sr. Hicks”, os vizinhos diziam,
Sem sonhar que aquele terno cinza e respeitável
Ocultava braços que haviam controlado enormes asas e
Que aqueles olhos tristes e derrotados tinham outrora
Compelido o sol. E se ele tivesse lhes contado
Eles teriam reagido com um olhar
surpreso e incompreensível.
Não, ele não poderia perturbar seus impecáveis quintais;
No entanto, todos os seus livros insistiam que isto era um terrível equívoco:
O que fazia ele envelhecendo em um subúrbio?
Pode o gênio do herói decair
Para a estatura mediana do meramente talentoso?

E todas as noites Ícaro examina seu ferimento
E diariamente, em sua oficina, cortinas cuidadosamente cerradas,
Constrói pequenas asas e tenta voar
Até a luminária do teto:
Falha todas as vezes e se odeia por tentar.
Ele se achava um herói, que tinha agido heroicamente,
E sonhava com sua queda, a trágica queda do herói;
Mas agora viaja em trens metropolitanos,

Serve em vários comitês,
E gostaria de ter-se afogado.

Trad.: Nelson Santander

Icarus

Only the feathers floating around the hat
Showed that anything more spectacular had occurred
Than the usual drowning. The police preferred to ignore
The confusing aspects of the case,
And the witnesses ran off to a gang war.
So the report filed and forgotten in the archives read simply
“Drowned,” but it was wrong: Icarus
Had swum away, coming at last to the city
Where he rented a house and tended the garden.

“That nice Mr. Hicks” the neighbors called,
Never dreaming that the gray, respectable suit
Concealed arms that had controlled huge wings
Nor that those sad, defeated eyes had once
Compelled the sun. And had he told them
They would have answered with a shocked,
uncomprehending stare.
No, he could not disturb their neat front yards;
Yet all his books insisted that this was a horrible mistake:
What was he doing aging in a suburb?
Can the genius of the hero fall
To the middling stature of the merely talented?

And nightly Icarus probes his wound
And daily in his workshop, curtains carefully drawn,
Constructs small wings and tries to fly
To the lighting fixture on the ceiling:
Fails every time and hates himself for trying.
He had thought himself a hero, had acted heroically,
And dreamt of his fall, the tragic fall of the hero;
But now rides commuter trains,

Serves on various committees,
And wishes he had drowned.

Joan Margarit – Separado

A casa se abre para uma calçada
onde não me espera ninguém.
Aqui sem ti. Um estranho.
Foi aqui que eu me perdi.
Caminho sem mim, contigo.
Minha sombra é apenas um erro,
vem dos lugares mais gélidos:
teu coração e tuas mãos.
Por isso eu parti.
A vida desconhecida
eu a vivi sem ti.
A teu lado.

Trad.: Nelson Santander

Separado

La casa se abre a una acera
donde no me espera nadie.
Aquí sin ti. Un extraño.
Fue aquí donde me extravié.
Paseo sin mí, contigo.
Mi sombra es sólo un error,
viene de sitios más gélidos:
tu corazón y tus manos. 
Es por lo que me marché.
La vida desconocida
yo la he vivido sin ti.
A tu lado.

Lynn Ungar – Pandemia

E se pensasses nisso
da mesma forma que os judeus consideram o Sabbath —
o mais sagrado dos tempos?
Cessa com as viagens.
Cessa com as compras e as vendas.
Desiste, por enquanto,
de tentar fazer o mundo
diferente do que é.
Canta. Reza. Toca apenas aqueles
a quem confias tua vida.
Alcança o equilíbrio.

E quando teu corpo estiver imóvel,
expande o teu coração.
Compreende que todos estamos conectados
de maneiras assustadoras e belas.
(Dificilmente poderias nega-lo agora.)
Compreende que nossas vidas
estão nas mãos uns dos outros.
(Certamente isso ficou claro.)
Não estendas tuas mãos.
Expande o teu coração.
Expande tuas palavras.
Expande todos os tentáculos
de compaixão que se movem, invisivelmente,
onde não podemos alcançar.

Promete a este mundo o teu amor –
na alegria e na tristeza,
na saúde e na doença,
até que a morte nos separe.

Trad.: Nelson Santander

Pandemic

What if you thought of it
as the Jews consider the Sabbath—
the most sacred of times?
Cease from travel.
Cease from buying and selling.
Give up, just for now,
on trying to make the world
different than it is.
Sing. Pray. Touch only those
to whom you commit your life.
Centre down.

And when your body has become still,
reach out with your heart.
Know that we are connected
in ways that are terrifying and beautiful.
(You could hardly deny it now.)
Know that our lives
are in one another’s hands.
(Surely, that has come clear.)
Do not reach out your hands.
Reach out your heart.
Reach out your words.
Reach out all the tendrils
of compassion that move, invisibly,
where we cannot touch.

Promise this world your love–
for better or for worse,
in sickness and in health,
so long as we all shall live.

Carolyn Forché – Dois poemas

Penso em você naquele mar de túmulos além da cidade,
onde muitas pedras foram deixadas, entre elas

a minha: uma pequena lasca de dolomita para pesar um pedaço de papel.
Eu teria colocado suas luvas e o guarda-chuva no caixão,

juntamente com uma manhã em Berlin com Tanya, uma hora
de pombos ascendendo ao seu redor, lilases embrulhados em jornais,

um minuto nas barricadas, outro cavalgando
nos ombros do seu pai através da plantação de alho, até os cigarros

que sobraram da ocupação eu teria colocado lá.
Em vez disso, este caderno, uma caneta cheia de tinta, e aquele curto

poema de Hölderlin que você amava, para que pudessem virar fumaça
juntos: você, o caderno, a caneta, o poema de Hölderlin.

Na sequência, você é uma emulsão sobre papel, um cadáver ouvindo debaixo
da terra um trem rompendo uma polaroide de nuvens.

Foi Joseph quem disse que, por toda a eternidade, Veneza aconteceria apenas uma vez.
Você, portanto, é um fantasma seguindo um fantasma voltando para sua única vida.

Ou como você diz agora: havia muitas cidades, mas nunca uma cidade duas vezes.

*

No fim

Neste arquipélago de pensamento um nevoeiro surge, sirenes de navios para navios
invisíveis, um ano
se passando, o choro de um ano sem saber onde, alguém que você
conheceu

parado no final, aquele que você era então, um pequeno frisson de reconhecimento,
e então, sem mais nem menos — simplesmente desapareceu, e ninguém por horas, um som que você pensou

ter ouvido

mas que, na escuridão, desperto, não é ouvido novamente, duas batidas violentas na
porta, era
a morte, você disse, mas agora é nada, as ilhas, lugares em que você já esteve, o mar
o incerto,

cheio de fantasmas chamando, perdidos como eles estão, ninguém que você conheceu em sua vida, a
lua sobre

tudo, como a luz no fundo da abertura de um poço no gélido ar

em que você mergulhou e retornou, luz, não mais acorrentado
ao seu próprio passado, e que não fosse pelo clima de transe, de trevas e
neblina, você poderia ver

tudo de uma só vez: todas as ilhas, cada momento que você viveu ou lugar
em que esteve,
sem confusão ou perplexidade, e você seria uma pessoa. Você seria
uma pessoa novamente.

Trad.: Nelson Santander

 

Two Poems

I think of you in that sea of graves beyond the city,
where many stones have been left, among them,

mine: a little piece of dolomite to weigh down a slip of paper.
I would have put your gloves and umbrella in the coffin,

along with one more morning in Berlin with Tanya, an hour
of pigeons rising around you, lilacs wrapped in news

stories, a minute at the barricades, another riding
on your father’s shoulders through the garlic fields, even cigarettes

left over from the occupation I would have placed there.
Instead, this notebook, a pen full of ink, and that short

poem by Hölderlin you loved, so you could go up in smoke
together: you, the notebook, the pen, the poem by Hölderlin.

In the aftermath, you are emulsion on paper, a corpse listening beneath
the ground to a train passing through a polaroid of clouds.

It was Joseph who said that for all eternity, Venice would happen only once.
You are a ghost then, following a ghost back through its only life.

Or as you say now: there were many cities, but never a city twice.

*

Toward the end

In this archipelago of thought a fog descends, horns of ships to unseen
ships, a year
passing overhead, the cry of a year not knowing where, someone standing
in the aftermath

who once you knew, the one you were then, a little frisson of recognition,
and then just like that—gone, and no one for hours, a sound you thought

you heard

but in the waking darkness is not heard again, two sharp knocks on the
door, death
it was, you said, but now nothing, the islands, places you have been, the sea
the uncertain,

full of ghosts calling out, lost as they are, no one you knew in your life, the
moon above

the whole of it, like the light at the bottom of a well opening in iced air

where you have gone under and come back, light, no longer tethered
to your own past, and were it not for the weather of trance, of haze and
murk, you could see

everything at once: all the islands, every moment you have lived or place
you have been,
without confusion or bafflement, and you would be one person. You would
be one person again.

Fleur Adcock – Para uma criança de cinco anos

Um caracol escala o peitoril da janela
do seu quarto, depois de uma noite de
chuva. Você me chama para ver,
e eu explico que seria cruel deixa-lo lá:
ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar
para que ninguém o esmague. Você entende
e o carrega para fora, com mão diligente,
para comer uma flor amarela.

Vejo, então, que prepondera uma espécie de certeza:
sua bondade ainda é moldada por palavras que vêm
de mim, que aprisionava ratos e alvejava pássaros também,
de mim, que afoguei os seus gatinhos, que traí
seus parentes mais próximos, e que abasteci
das verdades mais duras muitos outros.
Mas é assim que as coisas são: eu sou sua mãe,
e nós tratamos os caracóis com gentileza.

Trad.: Nelson Santander

For a Five-Year-Old

A snail is climbing up the window-sill
into your room, after a night of rain.
You call me in to see, and I explain
that it would be unkind to leave it there:
it might crawl to the floor; we must take care
that no one squashes it. You understand,
and carry it outside, with careful hand,
to eat a daffodil.

I see, then, that a kind of faith prevails:
your gentleness is moulded still by words
from me, who have trapped mice and shot wild birds,
from me, who drowned your kittens, who betrayed
your closest relatives, and who purveyed
the harshest kind of truth to many another.
But that is how things are: I am your mother,
and we are kind to snails.

Mark Wunderlich – Peônias

No pátio, as peônias rebentam em brancos corações,
rebordos arredondados que desabrocham apenas para elas.
Sua simplicidade, a lâmina disso, fende a manhã.

Neste Brooklyn de pátios aureolados por arames farpados
e roupas sujas balançando como bandeiras de rendição,
vapor de resina flutuando até essas janelas,

sombras viajando dos pulmões de um fumante,
eu observo o helicóptero da polícia ameaçar a vizinhança,
seu motor provocando o casamento de inúmeras fechaduras

e chaves. Mesmo agora, diante dessa doença,
há um movimento para frente, necessidades americanas
forçando minha mão, todo dia uma pérola opaca

pendurada num frágil fio. A última vez que a vi,
mantive minha mão sobre você enquanto você dormia, imaginando o calor
aumentando em verde e vermelho, como em uma imagem térmica,

seu corpo desistindo de seu único tesouro. Há
tanta selvageria nesta negligência – tensão muscular,
falha de fluido, a carne recuando

do osso até ficarmos com a marca
e a fratura indeléveis, nossas células estilhaçando
no cérebro de um sobrevivente como imagens granuladas,

a única maneira de perdurarmos. Eu lhe trouxe peônias
rosa, como uma concha, como um céu, uma boca,
uma criança, um infinito, uma crise, um ponto final.

Trad.: Nelson Santander

Peonies

In the yard, peonies burst their white hearts,
scalloped edges unfolding only for themselves.
Their simplicity, the blade of it, cuts the morning.

In this Brooklyn of yards haloed in razor wire
and laundry flapping like flags of surrender,
resin smoke drifting up to these windows,

traveled shadows from a smoker’s lungs,
I watch the police helicopter menace the neighborhood,
its engine hooking together manifold locks

and keys. Even now, in the face of this sickening,
there is forward movement, American needs
forcing my hand, each day a dull pearl

strung on a weakening line. The last time I saw you,
I held my hand over you while you slept, imagining heat
rising in green and red, as in a photograph of heat,

your body giving up its one treasure. There
is such savagery in this neglect – muscle strain,
fluid failure, the flesh receding

from bone until we are left with the indelible
print and fracture, our cells snapping
in a survivor’s brain like grainy pictures,

the only way we’ll last. I brought you peonies
pink, like a shell, like a heaven, a mouth,
an infant, an infinity, a crisis, an end.

Carlos Drummond de Andrade – Aniversário

Um verso, para te salvar
de esquecimento sobre a terra?
Se é em mim que estás esquecida,
o verso lembraria apenas
esta força de esquecimento,
enquanto a vida, sem memória,
vaga atmosfera, se condensa
na pequena caixa em que moras
como os mortos sabem morar.

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