Louise Glück – Santas

Em nossa família, havia duas santas,minha tia e minha avó.Mas suas vidas foram diferentes. Minha avó era tranquila, mesmo no final.Ela parecia uma pessoa caminhando em águas calmas;por alguma razãoo mar não conseguiu feri-la.Quando minha tia enveredou pelo mesmo caminho,as ondas quebraram sobre ela, atacaram-na,que é como as Fiandeiras do Destino respondema uma verdadeira natureza … Continue lendo Louise Glück – Santas

Mary Oliver – Canção dos construtores

Em uma manhã de verãosentei-meem uma encostapara pensar em Deus— um nobre passatempo.Perto de mim, vium grilo solitário;estava movendo os grãos da encosta de um lado para o outro.Quão grande era sua energia,quão humilde o seu esforço.Esperemos que seja sempre assim,cada um de nós avançandopor nossos inexplicáveis caminhosconstruindo o universo. Trad.: Nelson Santander Conheça outros … Continue lendo Mary Oliver – Canção dos construtores

Adrienne Rich – Fotografias do Hubble: Após Sappho

https://vimeo.com/332596348 Deve ser a visão mais desejada de todasa pessoa com quem você espera viver e morrer entrando numa sala, voltando-se para olhar para você, vis-à-visDeveria haver ainda algo mais desejável: a ex-estase das galáxias,tão afastadas de nós que não há vocabulário mas equações matemáticas e óticasque permitem que a visão atravesse o tempo em … Continue lendo Adrienne Rich – Fotografias do Hubble: Após Sappho

Edward Field – Ícaro

Apenas as penas flutuando ao redor do chapéuMostravam que algo mais espetacular havia ocorridoAlém do afogamento habitual. A polícia preferiu ignorarOs aspectos confusos do casoE as testemunhas correram para uma guerra de gangues.Assim, o relatório arquivado e esquecido nos registros dizia simplesmente“Afogado,” mas estava errado: ÍcaroTinha nadado para longe, chegando finalmente à cidadeOnde alugou uma … Continue lendo Edward Field – Ícaro

Joan Margarit – Separado

A casa se abre para uma calçadaonde não me espera ninguém.Aqui sem ti. Um estranho.Foi aqui que eu me perdi.Caminho sem mim, contigo.Minha sombra é apenas um erro,vem dos lugares mais gélidos:teu coração e tuas mãos.Por isso eu parti.A vida desconhecidaeu a vivi sem ti.A teu lado. Trad.: Nelson Santander Separado La casa se abre … Continue lendo Joan Margarit – Separado

Lynn Ungar – Pandemia

E se pensasses nissoda mesma forma que os judeus consideram o Sabbath —o mais sagrado dos tempos?Cessa com as viagens.Cessa com as compras e as vendas.Desiste, por enquanto,de tentar fazer o mundodiferente do que é.Canta. Reza. Toca apenas aquelesa quem confias tua vida.Alcança o equilíbrio. E quando teu corpo estiver imóvel,expande o teu coração.Compreende que … Continue lendo Lynn Ungar – Pandemia

Carolyn Forché – Dois poemas

Penso em você naquele mar de túmulos além da cidade,onde muitas pedras foram deixadas, entre elas a minha: uma pequena lasca de dolomita para pesar um pedaço de papel.Eu teria colocado suas luvas e o guarda-chuva no caixão, juntamente com uma manhã em Berlin com Tanya, uma horade pombos ascendendo ao seu redor, lilases embrulhados … Continue lendo Carolyn Forché – Dois poemas

Fleur Adcock – Para uma criança de cinco anos

Um caracol escala o peitoril da janelado seu quarto, depois de uma noite dechuva. Você me chama para ver,e eu explico que seria cruel deixa-lo lá: ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar para que ninguém o esmague. Você entende e o carrega para fora, com mão diligente,para comer uma flor amarela.Vejo, então, que … Continue lendo Fleur Adcock – Para uma criança de cinco anos

Mark Wunderlich – Peônias

No pátio, as peônias rebentam em brancos corações,rebordos arredondados que desabrocham apenas para elas.Sua simplicidade, a lâmina disso, fende a manhã. Neste Brooklyn de pátios aureolados por arames farpadose roupas sujas balançando como bandeiras de rendição,vapor de resina flutuando até essas janelas, sombras viajando dos pulmões de um fumante,eu observo o helicóptero da polícia ameaçar … Continue lendo Mark Wunderlich – Peônias

Carlos Drummond de Andrade – Aniversário

Um verso, para te salvarde esquecimento sobre a terra?Se é em mim que estás esquecida,o verso lembraria apenasesta força de esquecimento,enquanto a vida, sem memória,vaga atmosfera, se condensana pequena caixa em que morascomo os mortos sabem morar. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui