Hans Magnus Enzensberger – Anúncio de pedra

Perdem-se o cabelo, os nervos,
vocês entendem, o tempo precioso,
perde-se altura no posto
perdido, brilho, sinto muito,
não faz mal, por pontos,
não me interrompam, perde-se
sangue, pai e mãe,
o coração perdido de Heidelberg,
sem pestanejar
perdem-se, de novo, os encantos
da novidade, passe-se um esponja,
os direitos civis, oh sim,
a cabeça, em nome de Deus, a cabeça,
se for indispensável,
o paraíso perdido, por mim,
o emprego, a ovelha perdida,
a cara e ainda por cima,
um molar, duas guerras mundiais,
perdem-se três quilos de sobrepeso,
perde-se, unicamente se perde, também
as ilusões perdidas há muito,
vá lá nem uma palavrinha perdida
sobre o esforço perdido,
vá, a luz dos olhos
perde-se de vista, uma pena, a chave da casa,
uma pena, a si mesmo, perdido em pensamentos,
perde-se a gente na multidão,
não me interrompam,
o juízo, o último vintém,
seja, mas já estou chegando ao fim,
a linha, o saco e a farinha,
perde-se tudo de vez,
ai, inclusive o fio,
a carteira de motorista, e a vontade.

Trad.: Kurt Scharf e Armindo Trevisan

Hans Magnus Enzensberger – A Visita

Quando levantei os olhos da página em branco
havia um anjo no quarto.

Um anjo bastante comum
presumivelmente de menor hierarquia.

Você não pode imaginar, ele disse,
o tanto que você é dispensável.

Dos quinze mil tons de azul,
ele disse, cada um faz mais diferença

Do que tudo que você possa fazer
ou deixar de fazer.

Sem mencionar o feldspato
ou a Grande Nuvem de Magalhães.

Mesmo a banana-da-terra mais comum, com toda
sua modéstia, deixaria uma lacuna. Você não.

Eu poderia falar de seus olhos brilhantes –
Ele esperava por uma discussão, por uma longa disputa.

Eu não me mexi. Esperei em silêncio
até que ele partisse.

Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução do alemão para o inglês feita por Michael Hamburger, David Constantine e Hans Magnus Enzensberger: https://www.bu.edu/european/files/2014/12/Chapter6_Layout-1.pdf )

Hans Magnus Enzensberger – The Visit

When I looked up from my blank page
there was an angel in the room.

A rather commonplace angel,
presumably of lower rank.

You cannot imagine, he said,
the degree to which you’re dispensable.

Of the fifteen thousand hues of blue,
he said, each one makes more of a difference

Than anything you may do
or refrain from doing,

Not to mention the feldspar
or the Great Magellanic Cloud.

Even the most common Plantain, unassuming
as it is, would leave a gap. Not you.

I could tell from his bright eyes –
he hoped for an argument, for a long fight.

I did not move.I waited in silence
until he had gone away.

Hans Magnus Enzensberger – Discurso pós-jantar em um noivado

Este eu, um invólucro que,
contanto que ninguém o abra,
parece compacto, regular
como um Kinder ovo,
quase apetitoso. Só por dentro
é escuro. Quem sabe
o que estará esperando por você lá.
Obsessões, sem dúvida,
hábitos enferrujados,
medos incompreensíveis,
truques de segunda mão,
desejos infantis.
Que você deseje tê-la,
esta caixa de presente,
beira o milagre.

Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução do alemão para o inglês feita por Martin Chalmers e Esther Kinsky, in A History of Clouds. 99 Meditations by Hans Magnus Enzensberger)

After-Dinner Speech at an Engagement

This self, a container, which,
as long as no one opens it,
appears compact, smooth
as a Kinder egg,
almost appetizing. Only inside,
there it’s dark. Who knows
what’s waiting for you there.
Obsession no doubt,
rusty habits,
incomprehensible fears,
second-hand tricks,
childish desires.
That you want to have it,
this gift box,
borders on a miracle.

Hans Magnus Enzensberger – Hábitos

Quantas vezes Platão assoou o nariz,
e São Tomás de Aquino
tirou os sapatos,
quantas vezes Einstein escovou os dentes,
e Kafka ligou e desligou a luz,
antes de enfim chegarem
ao que lhes cabia fazer?

Semanas sem fim, feitas as contas,
levamos
abotoar e desabotoar camisas,
procurar os óculos
ou, tomada a decisão,
novamente descartá-la.

Como são efêmeras as nossas opiniões
e as nossas obras, em comparação
com aquilo que nos é comum:
cozinhar, lavar a roupa, subir escadas –
repetições de pouco relevo,
pacíficas, corriqueiras
e mais indispensáveis que qualquer chef d’oeuvre.