Maria Lúcia Alvim – Nosferatu

Não era bem isso que eu queria, no entanto, ele veio. Olho de vidro, dente de espada, sopro de guerreiro afeito à noite. - Por que tarda tanto  o teu amanhecer sob a capa? - Porque veio?          perguntei. E ele debruçava, derramava sobre mim       um jeito de morrer.

Luís Felipe Castro Mendes – Estóicos

Deixa-te ficar comigo à beira do rio. Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza nem a sedução da mocidade. Se te falarem dos deuses, finge entender. E se chamarem poeta ao dono do circo, concorda gravemente.

Víctor Botas – “Collige, virgo, rosas”

Não falta quem suponha que em sessenta bilhões de anos voltaremos a ser como agora (aparentemente o Espaço se dilata para logo, elástico, encolher-se e novamente outra vez dilatar-se), repetindo tu, as profundidades desses olhos, eu, este esperar a morte de tua mão agônica nas minhas, aqui mesmo, neste lugar. Mas, caso seja tudo uma … Continue lendo Víctor Botas – “Collige, virgo, rosas”

Luis Alberto de Cuenca – “Collige, virgo, rosas”

Moça, colhe as rosas, não esperes a manhã. Corta-as velozmente, desaforadamente, sem parar para pensar se elas são más ou boas. Que não sobre nenhuma. Poliniza os rosais que encontrares em teu caminho e deixa os espinhos para tuas colegas do colégio. Desfruta da luz e do ouro enquanto podes e consagra tua beleza a … Continue lendo Luis Alberto de Cuenca – “Collige, virgo, rosas”

Felipe Benitez Reyes – “Collige Rosas”

Consumir este dia como se fosse o último.              Queima-lo como o último cigarro que restou ao insone. Retarda-lo nos lábios como a sílaba última de uma fórmula mágica. Que dependa dele - como a moeda que o suicida reticente lança ao ar - o exato sentido da vida                essa confusão de quimeras que morrem nas … Continue lendo Felipe Benitez Reyes – “Collige Rosas”

Francisco Brines – “Collige, virgo, rosas”

Estás já com quem queres. Ri e goza. Ama. E anima-te na noite que agora começa, e entre tantos amigos (e comigo) abre os grandes olhos para a vida com a avidez preciosa de tua idade. A noite, longa, há de acabar ao amanhecer, e virão esquadrões de espiões com a luz, apagar-se-ão as estrelas, … Continue lendo Francisco Brines – “Collige, virgo, rosas”

Garcilaso de la Vega – Soneto XXIII

Enquanto que de rosa e de açucena se mostra toda a cor neste teu rosto, enquanto o teu olhar ardente, honesto, acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjas do ouro se escolheu, com voo presto, sobre o formoso colo branco, ereto, o vento move, espalha e desarranja: colhe … Continue lendo Garcilaso de la Vega – Soneto XXIII

Jorge Luis Borges – Cristo na Cruz

Cristo na cruz. Os pés tocam a terra. Os três madeiros são de igual altura. Cristo não é o do meio. É o terceiro. A negra barba pende sobre o peito. O rosto não é este das gravuras. É áspero e judeu. Mas não o vejo E vou buscá-lo sempre até o dia De meu … Continue lendo Jorge Luis Borges – Cristo na Cruz

Francisco Brines – Os Prazeres Inferiores

Não desdenhes as paixões vulgares Tens os anos necessários para saber que elas se correspondem exatamente com a vida. Não reduzas sua ação, pois se do breve tempo em que consistes as retiras, é ainda o existir mais imperfeito. Descobre sua verdade por trás da aparência, e assim não haverá falsidade, não poderás fingir que … Continue lendo Francisco Brines – Os Prazeres Inferiores

Amalia Bautista – Os Teus Olhos

Quando já se esgotaram os caminhos que a razão poderia aconselhar-nos abrem-se os teus olhos: com eles tudo volta a inundar-se da luz escura que dá sentido ao mundo e à minha vida. Trad.: Inês Dias Tus Ojos Cuando se han agotado los caminos que la razón podría aconsejarnos se abren tus ojos, y con … Continue lendo Amalia Bautista – Os Teus Olhos