Raquel Lanseros – A propósito de Eros

De todas as terrenas servidões
que aprisionam meu afã neste cárcere
confesso-me devedora da carne
e de todos os seus íntimos vaivéns
que me fazem mais feliz
       e menos livre.

Às vezes, porém,
a escravidão se mostra soberana
e me sinto senhora do destino.
  Porque sei amar, porque provei da fruta
  e nunca maldisse o seu sabor agridoce,
  porque posso oferecer meu coração intacto
  se o caminho se digna em requere-lo,
  porque suporto em pé, com humilde firmeza,
  o rigor deste fogo que enlouquece.

Neste fragor mudo em que todos somos
rufiões, vagabundos, despossuídos e presos
não existem vencedores nem vencidos
e a manhã não arrenda a ganância do ontem.

Que não entre na batalha quem sucumba
ante o rancor pequeno das humilhações.
Sabei, são necessárias enormes doses
de grandeza de espírito e coragem
nas silenciosas lides da paixão humana.

A recompensa, em troca, é substancial.
 Ser súdito tão só da natureza,
  não temer a morte nem o esquecimento,
   não aceitar da vida nenhuma esmola,
    não conformar-se com menos que tudo.

Trad.: Nelson Santander

A propósito de Eros

De todas las terrenas servidumbres
que aprisionan mi afán en esta cárcel
me confieso deudora de la carne
y de todos sus íntimos vaivenes
que me hacen más feliz
       y menos libre.

A veces, sin embargo,
la esclavitud se muestra soberana
y me siento señora del destino.
  Porque sé amar, porque probé la fruta
  y no maldije nunca su sabor agridulce,
  porque puedo ofrecer mi corazón intacto
  si el camino se digna requerirlo,
  porque resisto en pie, con humilde firmeza,
  el rigor de este fuego que enloquece.

En este fragor mudo en el que todos somos
rufianes, vagabundos, desposeídos y presos
no existen vencedores ni vencidos
y mañana no arrienda la ganancia de ayer.

Que no entre en la batalla quien sucumba
ante el rencor pequeño de las humillaciones.
Sabed, son necesarias descomunales dosis
de grandeza de espíritu y coraje
en las lides calladas de la pasión humana.

La recompensa, en cambio, es sustanciosa.
 Ser súbdito tan sólo de la naturaleza,
  no temer a la muerte ni al olvido,
   no aceptarle a la vida una limosna,
    no conformarse con menos que todo.

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