Mark Wunderlich – Peônias

No pátio, as peônias rebentam em brancos corações,
rebordos arredondados que desabrocham apenas para elas.
Sua simplicidade, a lâmina disso, fende a manhã.

Neste Brooklyn de pátios aureolados por arames farpados
e roupas sujas balançando como bandeiras de rendição,
vapor de resina flutuando até essas janelas,

sombras viajando dos pulmões de um fumante,
eu observo o helicóptero da polícia ameaçar a vizinhança,
seu motor provocando o casamento de inúmeras fechaduras

e chaves. Mesmo agora, diante dessa doença,
há um movimento para frente, necessidades americanas
forçando minha mão, todo dia uma pérola opaca

pendurada num frágil fio. A última vez que a vi,
mantive minha mão sobre você enquanto você dormia, imaginando o calor
aumentando em verde e vermelho, como em uma imagem térmica,

seu corpo desistindo de seu único tesouro. Há
tanta selvageria nesta negligência – tensão muscular,
falha de fluido, a carne recuando

do osso até ficarmos com a marca
e a fratura indeléveis, nossas células estilhaçando
no cérebro de um sobrevivente como imagens granuladas,

a única maneira de perdurarmos. Eu lhe trouxe peônias
rosa, como uma concha, como um céu, uma boca,
uma criança, um infinito, uma crise, um ponto final.

Trad.: Nelson Santander

Peonies

In the yard, peonies burst their white hearts,
scalloped edges unfolding only for themselves.
Their simplicity, the blade of it, cuts the morning.

In this Brooklyn of yards haloed in razor wire
and laundry flapping like flags of surrender,
resin smoke drifting up to these windows,

traveled shadows from a smoker’s lungs,
I watch the police helicopter menace the neighborhood,
its engine hooking together manifold locks

and keys. Even now, in the face of this sickening,
there is forward movement, American needs
forcing my hand, each day a dull pearl

strung on a weakening line. The last time I saw you,
I held my hand over you while you slept, imagining heat
rising in green and red, as in a photograph of heat,

your body giving up its one treasure. There
is such savagery in this neglect – muscle strain,
fluid failure, the flesh receding

from bone until we are left with the indelible
print and fracture, our cells snapping
in a survivor’s brain like grainy pictures,

the only way we’ll last. I brought you peonies
pink, like a shell, like a heaven, a mouth,
an infant, an infinity, a crisis, an end.

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