Fleur Adcock – Para uma criança de cinco anos

Um caracol escala o peitoril da janela
do seu quarto, depois de uma noite de
chuva. Você me chama para ver,
e eu explico que seria cruel deixa-lo lá:
ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar
para que ninguém o esmague. Você entende
e o carrega para fora, com mão diligente,
para comer uma flor amarela.

Vejo, então, que prepondera uma espécie de certeza:
sua bondade ainda é moldada por palavras que vêm
de mim, que aprisionava ratos e alvejava pássaros também,
de mim, que afoguei os seus gatinhos, que traí
seus parentes mais próximos, e que abasteci
das verdades mais duras muitos outros.
Mas é assim que as coisas são: eu sou sua mãe,
e nós tratamos os caracóis com gentileza.

Trad.: Nelson Santander

For a Five-Year-Old

A snail is climbing up the window-sill
into your room, after a night of rain.
You call me in to see, and I explain
that it would be unkind to leave it there:
it might crawl to the floor; we must take care
that no one squashes it. You understand,
and carry it outside, with careful hand,
to eat a daffodil.

I see, then, that a kind of faith prevails:
your gentleness is moulded still by words
from me, who have trapped mice and shot wild birds,
from me, who drowned your kittens, who betrayed
your closest relatives, and who purveyed
the harshest kind of truth to many another.
But that is how things are: I am your mother,
and we are kind to snails.

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