Porque na noite em que dei à luz meu marido ficou cego.
Histeria, acho que você chamaria assim.
Porque havia gente demais
e depois não havia ninguém. Apenas
esta pequena criatura — seu pequeno choro
não maior do que uma lantejoula.
Porque eu fazia força havia horas demais.
Mesmo com as placas macias do crânio dela se deslocando
o anel dos meus ossos estreitos demais.
Quando estendi a mão para baixo
pude sentir as finas mechas molhadas de cabelo deste ser que vivia
dentro de mim, mas o coração dela estava enfraquecendo.
A parteira me disse para não fazer força
no caminho para o hospital, mas fiz força mesmo assim.
Era a Califórnia dos anos setenta e eu teria feito força até morrer.
O médico pediu permissão para cortar
o meu períneo. Tão polido, como se estivesse pedindo
o prazer da próxima dança. Então ele introduziu o fórceps
habilmente, sem um arranhão nas têmporas dela.
Mas deixamos aquele abrigo na mesma noite porque meu marido
não acreditava em hospitais, a bebê nua,
embrulhada apenas em um cobertor, porque os dois acreditávamos
em pele com pele. Porque a bebê chorava
mas não mamava.
Porque quando comecei a me levantar
comecei a desmaiar, então tive que rastejar
até as fraldas esterilizadas e o macacão amarelo-claro
dobrado dentro do saco de papel pardo que eu preparara na estufa.
Porque eu ainda estou ali apoiada nas mãos e nos joelhos,
barriga murcha e seios maduros, mamilos enormes e escuros,
rasgando o saco grampeado,
atrapalhando-me com os alfinetes de patinhos,
dois dedos enfiados entre a barriga da bebê
e as grossas camadas de algodão, a ponta afiada.
A bebê, uma estranha,
mas tão estranhamente familiar,
manchas de sangue ainda grudadas em seu couro cabeludo.
Porque meu marido dormia
ao meu lado e eu o deixei dormir.
Porque levaria anos antes até que eu o deixasse.
Agora o amor e a dor seriam maiores
do que eu jamais imaginei,
enraizados juntos como o norte e o sul,
por cima e por baixo.
Porque eu também tinha sido empurrada
para um outro mundo
fiquei deitada ali com a bebê choramingando em meus braços,
nós duas bem despertas na escuridão.
Trad.: Nelson Santander
BASS, Ellen. “Because”. In:_____Indigo. EUA: Copper Canyon Press, April 07, 2020.
Miniantologia Poética – 29
Because
Because the night I gave birth my husband went blind.
Hysterical, I guess you’d call it.
Because there’d been too many people
and then there was no one. Only
this small creature—her tiny cry
no bigger than a sequin.
Because I’d been pushing too many hours.
Even with her soft skull plates shifting,
the collar of my bones too slender.
When I reached down
I could feel the wet wisps of hair of this being living
inside me, but her heart was weakening.
The midwife told me not to push
on the way to the hospital, but I pushed anyway.
This was California in the seventies and I’d have pushed until I died.
The doctor asked for permission to cut
my perineum. So polite, as though he were requesting
the pleasure of the next dance. Then he slid in forceps
skillfully, not a scratch on her temples.
But we left that haven the same night because my husband
didn’t believe in hospitals, the baby naked,
wrapped only in a blanket because we both believed
in skin to skin. Because the baby cried,
but wouldn’t suck.
Because when I started to stand
I started to faint so I had to crawl
to the sterile diapers and pale-yellow sleeper
folded inside the brown paper bag I’d baked in the oven.
Because I’m still there on my hands and knees,
deflated belly and ripe breasts, huge dark nipples,
tearing open the stapled bag,
fumbling the ducky pins,
two fingers slipped between the baby’s belly
and the thick layers of cotton, the sharp point.
The baby, a stranger,
yet so strangely familiar,
flecks of blood still stuck to her scalp.
Because my husband slept
beside me and I let him sleep.
Because it would be years before I left him.
Now love and grief would be greater
than I ever imagined,
rooted together like north and south,
over and under.
Because I too had been pushed out
into another world
I lay there with the baby whimpering in my arms,
both of us wide awake in the darkness.

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