Ellen Bass – Fracasso

Eu parecia uma mulher. Tinha começado
a sangrar, algo que eu queria com fervor,
o mesmo fervor com que ardi
ao beijar Earl Freeman, ao cheirar seu suor de homem
e tocar o côncavo em seu esterno
quando nos deitamos na areia quente em Atlantic City,
o céu claro arqueado sobre nós. Eu estava com tanta pressa
de crescer, disse minha mãe. Mas eu era inocente
no sentido de ainda não ser culpada
quando levei a colher de mingau
aos lábios do meu pai
no dia em que ele voltou do hospital.
Minha mãe teve que voltar ao trabalho —
na Hy-Grade Wines and Liquors,
que pagou a mesa de fórmica marrom,
o refrigerador e a lava-louças rosa. Tínhamos nos mudado
do apartamento sobre a loja
para uma casa com uma porta principal.
Eu queria que as pessoas tocassem a campainha
para eu responder como na TV.
Não parecia que seria muito difícil
alimentar meu pai. Posso fazer isso,
assegurei à minha mãe.
Acho que verei essa cena para sempre, meu pai debilitado
de pijamas, eu segurando
a colher de mingau de aveia fina, levando-a
aos lábios dele e os lábios não
pegando, sem realmente querer ou
não querer. Então o mingau
tornou a cair, escorrendo
por seu queixo mal barbeado e ele
não fez nada para impedir. Meu pai.
Eu o deixei lá. Este foi meu primeiro
ingresso no território do fracasso, um país
que eu visitaria com tanta frequência
que começaria a me sentir em casa.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “Failure”. In:_____Indigo. EUA: Copper Canyon Press, April 07, 2020.

Miniantologia Poética – 33

Failure

I looked like a woman. I’d begun
to bleed, something I’d wanted with a fervor,
like the fervor with which I burned
to kiss Earl Freeman, to smell his man sweat
and finger the hollow at his breastbone
when we lay in the hot sand in Atlantic City,
the white sky arched over us. I was in such a hurry
to grow up, my mother said. But I was innocent
in the sense of not yet guilty
as I lifted the spoonful of oatmeal
to my father’s lips
the day he came home from the hospital.
My mother had to go back to work—
Hy-Grade Wines and Liquors,
which paid for the brown Formica table and pink
refrigerator, pink dishwasher. We’d moved
from the apartment over the store
into a house with a front door.
I wanted people to ring the bell
and I’d answer it like on TV.
It didn’t seem like it would be too hard
to feed my father. I can do it,
I assured my mother.
I think I may see us there forever, my weak father
in pajamas, me holding
the spoon of thin oatmeal, lifting it
to his lips and the lips not
taking it, not really willing or
unwilling. So the gruel
slid back out again, dribbling
down his badly shaved chin and he
not doing anything to stop it. My father.
I left him there. This was my first
entrance into the land of failure, a country
I would visit so often
it would begin to feel like home.

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