Ellen Bass – Miniantologia Poética
Seleção e tradução de Nelson Santander
Uma mulher recebe uma notícia que teme. Outra acompanha a mãe durante seus últimos dias. Alguém observa uma borboleta morta, um pássaro contaminado, o corpo envelhecido da pessoa amada. Em cada uma dessas cenas, seria possível recuar. Os poemas fazem o movimento contrário: aproximam-se.
A miniantologia começa com “O importante é”. A dor já está presente, pesada como outro corpo. Ainda assim, a vida é recebida novamente. Os poemas seguintes permanecem perto dessa decisão, sem transformá-la em promessa.
São 36 textos percorrendo quatro livros e mais de duas décadas da poesia de Ellen Bass. Podem ser lidos separadamente. Juntos, porém, deixam perceber um mesmo movimento: aproximar-se cada vez mais daquilo que se ama, justamente quando amar se torna difícil.
Sobre esta miniantologia
Esta é uma seleção cronológica realizada e traduzida por Nelson Santander para o Singularidade Poética. Não se trata de uma obra concebida por Ellen Bass nem de uma reunião completa de seus poemas.
O percurso atravessa Mules of Love, The Human Line, Like a Beggar e Indigo. Alguns textos publicados em revistas entre um livro e outro prolongam esses movimentos e foram mantidos em sua posição original na sequência.
Cada poema possui uma página própria, com a tradução, o texto em inglês e a referência da publicação utilizada. A ordem permite acompanhar mudanças de escala, dicção e experiência sem separar aquilo que, nos poemas, permanece junto.
A leitura pode começar por qualquer página. Mas o percurso foi preparado para ser atravessado desde o início.
Mules of Love
Nos primeiros poemas, amor e sofrimento já aparecem próximos. O corpo deseja, perde, recorda e continua procurando alguma forma de contato. A linguagem é direta. O que ela toca, porém, raramente permanece simples.
The Human Line
O olhar se abre para outras vidas. Uma família, uma mulher desconhecida, espécies ameaçadas, pássaros num pátio. A experiência íntima não desaparece; passa a encontrar o mundo ao redor.
A esse movimento pertencem também “Rendição” e “Tingindo o cabelo dela”, publicados pouco depois do livro. Em ambos, aproximar-se significa aceitar a matéria concreta do cuidado.
- No ar
- O panorama geral
- Portão C22
- A dor de deus
- O canto dos pássaros do meu pátio
- Se você soubesse
- Rendição
- Tingindo o cabelo dela
Like a Beggar
A voz se torna mais móvel. Humor, desejo, medo, memória e envelhecimento podem entrar no mesmo poema. A escala muda depressa: das tarefas domésticas ao sistema solar, da infância a um corpo que começa a desaparecer.
“Borboleta morta”, originalmente publicado em The Human Line, foi preservado na posição que ocupava na sequência da miniantologia. Sua presença aqui aproxima dois momentos da obra sem interromper a leitura.
- Relaxe
- Os anéis de Saturno
- Nudez
- Esperando pela chuva
- Borboleta morta
- Ode à repetição
- A manhã seguinte
- Mais
- O começo do fim
- Pleasantville, New Jersey, 1955
- Manhã
- Ode ao deus dos ateus
- Quando você voltar
- Vamos
Indigo
Nos poemas de Indigo, o tempo se aproxima dos corpos. Pais envelhecem, a doença altera a intimidade, a memória histórica alcança o presente. O desejo não desaparece diante da morte. Torna-se mais consciente do que está em risco.
Os dois últimos poemas foram publicados depois do livro. A música de Coltrane atravessa a pandemia; uma filha acompanha a mãe até o fim. A miniantologia se encerra ali, sem retirar da vida aquilo que não pode ser reparado.
- Índigo
- A longa recuperação
- Pinheiros de Ponary
- Porque
- Experimento de empatia
- Retorno para mamografia e ultrassom
- Matrimônio
- Fracasso
- Foi esta a porta
- Durante a pandemia, ouço a gravação de A Love Supreme no Festival Juan-les-Pins, de 26 de julho de 1965
- O tempo que ela quiser
Começar a leitura
O primeiro poema não resume o que virá. Apenas inicia o movimento que os demais continuarão.

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