Nicholas Christopher – Terminus

Terminus

Eis uma leitura obrigatória
no final do nosso século
o final de um milênio que começou com as cruzadas

A transcrição de uma entrevista
entre um médico da Cruz Vermelha
e uma menina muçulmana de doze anos
na Bósnia
que descreveu os estupros que sofreu nas mãos de homens
que se autodenominavam soldados
diferentes homens todas as noites um após o outro
seis sete oito deles
por uma semana
enquanto ela estava acorrentada pelo pescoço
a uma cama em sua antiga escola
onde ela viu seus pais e seus irmãos
terem suas gargantas cortadas e línguas arrancadas
onde sua cunhada de
dezenove anos de idade e amamentando um bebê
também foi estuprada noite após noite
até que ela ousou implorar por água
porque seu leite havia secado
momento em que um dos homens
arrancou a criança de seus braços
e como se estivesse “debulhando uma espiga de milho”
(palavras da menina)
decepou a cabeça da criança
com uma faca de caça
jogou-a no colo da mãe
e estuprou a menina novamente
estapeando-a no rosto
manchando-a com o sangue do sobrinho
e depois alvejou a mãe
que havia começado a gritar
com a cabeça de olhos arregalados em seu colo
enfiando a arma em sua boca
e atirando duas vezes

Tudo isso relatado ao médico
num tom monótono
quase sussurrado em uma tenda
ao lado de um álgido rio
onde a menina apareceu enregelada
vestindo apenas uma combinação suja
seus cabelos arrancados
seus dentes quebrados

Toda história que você já leu
conta que é isso o que homens fazem
que isso é apenas uma réstia do reflexo
da besta
que é um elemento fixo da história humana
e os lugares de que você ouviu falar quando era garoto
que foram os últimos campos de perseguição
Auschwitz Dachau Treblinka
e os nomes de seus mortos
e seus inúmeros mortos cujos nomes desapareciam
todos os dias agora descobrem suas listas cheias
de almas gêmeas
novos nomes novos números
de cidades e aldeias
que foram queimadas do mapa

1993 pode muito bem ser 1943
e deve estar claro agora
que a besta em seus muitos disfarces
as bandeiras e paramentos
nos quais ela se enrola
e as rebuscadas denominações que ela assume
nunca pode ser superada
….

Como aquela garota com os dentes quebrados
carregada em uma ambulância
amarrada a uma maca
para não arranhar o próprio rosto
nunca conseguirá fugir dela
não importa para onde vá
solitária ou perdida na multidão
a linha que ela segue
por mais reta ou torta que seja
sempre a levará de volta para aquela sala
como a câmara nas profundezas
do inferno no Alcorão
onde cresce a árvore Zakum
regada por chuvas escaldantes
“que dá frutos que são como cabeças de demônios”

Ao não registrar o nome dela
alguém anotou no fim
da transcrição que a própria menina
não poderia ou não se lembraria dele
e então a descreve como uma sobrevivente

Que claro vem do latim
e significa continuar a viver
para além dos outros

Eu não teria usado essa palavra

(1993)

Trad.: Nelson Santander

Terminus

Here is a piece of required reading
at the end of our century
the end of a millennium that began with the crusades

The transcript of an interview
between a Red Cross doctor
and a Muslim girl in Bosnia
twelve years old
who described her rape by men
calling themselves soldiers
different men every night one after the other
six seven eight of them
for a week
while she was chained by the neck
to a bed in her former schoolhouse
where she saw her parents and her brothers
have their throats slit and tongues cut out
where her sister-in-law
nineteen years old and nursing her baby
was also raped night after night
until she dared to beg for water
because her milk had run dry
at which point one of the men
tore the child from her arms
and as if he were “cutting an ear of corn”
(the girl’s words)
lopped off the child’s head
with a hunting knife
tossed it into the mother’s lap
and raped the girl again
slapping her face
smearing it with her nephew’s blood
and then shot the mother
who had begun to shriek
with the head wide-eyed in her lap
shoving his gun into her mouth
and firing twice

All of this recounted to the doctor
in a monotone
a near whisper in a tent
beside an icy river
where the girl had turned up frostbitten
wearing only a soiled slip
her hair yanked out
her teeth broken

All the history you’ve ever read
tells you this is what men do
this is only a sliver of the reflection
of the beast
who is a fixture of human history
and the places you heard of as a boy
that were his latest stalking grounds
Auschwitz Dachau Treblinka
and the names of their dead
and their numberless dead whose names have vanished
each day now find their rolls swelled
with kindred souls
new names new numbers
from towns and villages
that have been scorched from the map

1993 may as well be 1943
and it should be clear now
that the beast in his many guises
the flags and vestments
in which he wraps himself
and the elaborate titles he assumed
can never be outrun
….

As that girl with the broken teeth
loaded into an ambulance
strapped down on a stretcher
so she wouldn’t claw her own face
will never outrun him
no matter where she goes
solitary or lost in a crowd
the line she follows
however straight or crooked
will always lead her back to that room
like the chamber at the bottom
of Hell in the Koran
where the Zaqqum tree grows
watered by scalding rains
“bearing fruit like devils’ heads”

In not giving her name
someone has noted at the end
of the transcript that the girl herself
could not or would not recall it
and then describes her as a survivor

Which of course is from the Latin
meaning to live on
to outlive others

I would not have used that word

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