Denise Levertov – Peregrinações no mundo paralelo

Vivemos nossas vidas de paixões humanas,
crueldades, sonhos, ideias,
crimes e o exercício da virtude
em e ao lado de um mundo privado
de nossas preocupações, isento
de nossas apreensões — embora afetado,
certamente, por nossas ações. Um mundo
paralelo ao nosso, embora a ele sobreposto.
Nós o chamamos de “Natureza”; apenas relutantemente
admitindo que somos “Natureza” também.
Sempre que perdemos o controle de nossas próprias obsessões,
de nosso egocentrismo, porque vagamos por um minuto,
uma hora até, de pura (quase pura)
reação a essa vida despreocupada:
nuvem, pássaro, raposa, o fluxo da luz, a peregrinação
dançante da água, a profunda imobilidade
de uma ephemerae encantada sobre uma vidraça iluminada,
vozes de animais, murmúrio mineral, vento
conversando com chuva, oceano com pedra, gaguejar
de fogo para o carvão — então algo atado
a nós, manco como um burro em seu pedaço
mastigado de cardo e grama, se liberta.
Ninguém sabe
exatamente onde estávamos quando fomos apanhados novamente
em nossa própria esfera (para onde devemos
retornar, de fato, para que nosso destino evolua)
— mas nós mudamos, um pouco.

Trad.: Nelson Santander

Sojourns in the parallel world

We live our lives of human passions,
cruelties, dreams, concepts,
crimes and the exercise of virtue
in and beside a world devoid
of our preoccupations, free
from apprehension—though affected,
certainly, by our actions. A world
parallel to our own though overlapping.
We call it “Nature”; only reluctantly
admitting ourselves to be “Nature” too.
Whenever we lose track of our own obsessions,
our self-concerns, because we drift for a minute,
an hour even, of pure (almost pure)
response to that insouciant life:
cloud, bird, fox, the flow of light, the dancing
pilgrimage of water, vast stillness
of spellbound ephemerae on a lit windowpane,
animal voices, mineral hum, wind
conversing with rain, ocean with rock, stuttering
of fire to coal—then something tethered
in us, hobbled like a donkey on its patch
of gnawed grass and thistles, breaks free.
No one discovers
just where we’ve been, when we’re caught up again
into our own sphere (where we must
return, indeed, to evolve our destinies)
—but we have changed, a little.

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