Mês: abril 2019
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Rafael Montesinos – Vida

Nasceu. Viveu feliz. Sorveu a vida de um só e belo trago adolescente. Buscou a solidão, e se viu frente a uma atroz, inesperada ferida. Em desvario, deu para crer em tudo. “Oh sensatez de não se crer em nada!”, disse, e depois a alma, entusiasmada quis sentir a vida de um outro modo. Farto…
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Philip Roth – Patrimônio (excerto)

“Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério,…
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Manuel António Pina – Sexta-feira Santa

A conversa era sobre Deus, embora o teólogo estivesse inclinado a pensar que fosse sobre outra coisa, pois era hora de jantar. Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar. Tinha devorado o pargo com honesto apetite e elogiava as virtudes do cozinheiro. Só Deus, algures, chorava sobre os despojos da sua pequena…
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Ian Hamilton – Admissão

Os lábios rachados do porteiro noturno uniformizadoMurmuram horrivelmente contra o vidro embaçadoDe nossa ambulância escura.Nossa afliçãoInspira um único olhar marcial de desdémE logo ele nos indica o caminho, para a “Pátria”. Trad.: Nelson Santander Admission The chapped lips of the uniformed night-porterMumble horribly against the misted glassOf our black ambulance.Our plightInspires a single, soldierly, contemptuous…
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Manuel Halpern – Domingo de manhã

Quantos homens se apaixonam por ti ao sábado à tarde enquanto passeiam os filhos no parque e se distraem do balanço do baloiço na adivinhação das partes do corpo que trazes tapadas Mal sabem que a tua solidão não se preenche com a desventura erótica de um corpo que te cubra sem consolo Não há…
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Miguel Martins – Sou eu

são as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral sou eu agora em espasmos, assemelhando-me…
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Ángel González – Aniversário

Eu percebo: como estou me tornandomais incerto, confuso,dissolvendo-me no arcotidiano, brutopedaço de mim, desgastadoe em frangalhos. Eu compreendo: vivimais um ano, e isso é muito duro.Pulsar o coração todos os diasquase cem vezes por minuto! Viver um ano requermorrer muito muitas vezes. Trad.: Nelson Santander Cumpleaños Yo lo noto: cómo me voy volviendomenos cierto, confuso,disolviéndome…
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William Butler Yeats – Um aviador irlandês prevê a morte

Encontrarei meu fim no meio das nuvens de algum céu sobejo; os que combato, eu não odeio, também não amo os que protejo; Kiltartan Cross é meu país, seus pobres são a minha gente, nada a fará mais infeliz do que já era, ou mais contente. Não é por lei ou por dever, turba ou…
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Jaime Gil de Biedma – Pandêmia e Celeste

Quan magnus numerus Libyssae arenae …………………………….. Aut quam sidera multa, cum tacet nox, Furtiuos hominum uident amores. CATULO, VII Imagina agora que tu e eu muito tarde da noite falamos de homem para homem, enfim. Imagina-o, em uma dessas noites memoráveis de rara comunhão, com a garrafa meio vazia, os cinzeiros sujos, depois de esgotado…
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Eugénio de Andrade – Mulheres de preto

Há muito que são velhas, vestidas de preto até a alma. Contra o muro defendem-se do sol de pedra; ao lume furtam-se ao frio do mundo. Ainda têm nome? Ninguém pergunta, ninguém responde. A língua, pedra também.