Tag: Nelson Ascher
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Heinrich Heine – Morfina

É grande a semelhança desses doisjovens e belos vultos, muito emboraum pareça mais pálido e severoou, posso até dizer, bem mais distintodo que o outro, o que, terno, me abraçava.Havia em seu sorriso tanto afeto,carinho e, nos seus olhos,tanta paz!Ornada de papoulas, sua frontetocava a minha, às vezes – e seu raroodor me dissipava a…
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Györy Somlyó – Fábula da dupla-hélice

Filho dos meus paispai do meu filhogeraram-mee procrieicriaram-mee crieiherdeie legueisepultei eserei sepultadoatinjo aos poucoso atingívelna corrente de cristalou nas ligações alcalinasda vida singularfeita de duaso tempocondecora-mecom todas as distinçõesatando-mecom todas as valênciasMas minhas célulasnem suspeitamaté onde podematravés delaschegar as célulaspelos obscurosdegraus restantesda escada de caracolou escada de Jacóna abóboda celesteou cavidade cranianado ácido desoxi—ribonucléico. Trad.:…
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John Ashbery – Medo da morte

Que há comigo agora, é assim que eu fiquei? Não há estado livre dos limites do antes e depois? Hoje a janela está aberta e o ar jorra para dentro com notas de piano nas suas saias, como a dizer, “Olha, John, eu trouxe isso e aquilo” – ou seja, alguns Beethovens, uns Brahms, umas…
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Horácio – Ode 1/11

Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe, os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopo da babilônia e aceita: o que há de ser, será, quer nos dê Jove mais invernos, quer só este que em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebe teu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos. Enquanto…
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Attila József – Dói demais

A morte atenta de dentro e fora te afugenta (ratinho oculto com receio) e, enquanto arderes, vais procurar junto às mulheres refúgio em braço, joelho e seio. Mais que o calor do colo afável, mais que o ardor, precisar muito é que te apressa; assim, quem quer que possa abraça uma mulher até que a…
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Basil Bunting – O que o diretor disse a Tom

Poesia? É um hobby O meu são trens elétricos. O sr. Shaw ali cria pombos. Não é trabalho. Você não sua a camisa. Ninguém paga. Tente anunciar sabão. Ópera é que é arte; ou o teatro. A Canção do Deserto. Nancy era do coro. Mas pedir doze libras por semana – casado, não? – isso…
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William Butler Yeats – Um aviador irlandês prevê a morte

Encontrarei meu fim no meio das nuvens de algum céu sobejo; os que combato, eu não odeio, também não amo os que protejo; Kiltartan Cross é meu país, seus pobres são a minha gente, nada a fará mais infeliz do que já era, ou mais contente. Não é por lei ou por dever, turba ou…
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Paul Verlaine – Chanson D’Automne (em seis traduções)

Canção do Outono (Trad.: Alphonsus de Guimaraens) Os soluços graves Dos violinos suaves Do outono Ferem a minh’alma Num langor de calma E sono. Sufocado, em ânsia, Ai! quando à distância Soa a hora, Meu peito magoado Relembra o passado E chora. Daqui, dali, pelo Vento em atropelo Seguido, Vou de porta em porta, Como…
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Giuseppe Ungaretti – Vigília

Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915 Toda uma noite em claro caído ao lado de um companheiro massacrado com sua boca arreganhada exposta à lua cheia com o hematoma de suas mãos cravado em meu silêncio escrevi cartas cheias de amor Não tinha nunca estado tão aferrado à vida Trad.: Nelson Ascher
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W. H. Auden – Funeral Blues

BLUES FÚNEBRE Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto — um laço no…