Poderiam ter nos tomado por um casal
viajando de trem de Manhattan a Chicago
na última vez que estivemos juntos. Lembro-me de
olhar pela janela e louvar a beleza
do banal: os lugares de passagem, o mundo
de costas para nós, as pequenas estações
esquecidas de nossa história. Dormi sobre seu
peito e sua barriga sem pedir permissão
porque eram as últimas horas. Havia
um aroma no forro de pele de ovelha do seu novo
colete chinês que eu não reconhecia. Senti-o
de propósito. Acordei cedo e pedi-lhe que
viesse tomar café comigo. Você disse, durma mais um pouco,
e eu disse que só tínhamos uma hora, e você veio.
Não dissemos muita coisa depois disso. Na estação,
você pegou suas coisas e me entregou o colete,
depois foi embora, como havíamos planejado. Assim você teria
dez minutos para encontrar sua família e partir.
Fiquei ao lado do assento, aturdida pela exaustão
e pelo absoluto do fim, tão imóvel que percebia
minha própria respiração. Coloquei o colete
e o casaco, peguei minha bolsa e, ao me virar, vi você
através da janela suja, parado do lado de fora, olhando
para cima, para mim. Olhamos um para o outro sem expressão
alguma. Invisíveis, despercebidos, imóveis.
É desse momento que falarei como prova
de que você me amava para sempre. Depois disso, eu era
uma mulher só, carregando minha bolsa, perguntando
a um funcionário em que direção caminhar para encontrar um táxi.
Trad.: Nelson Santander
N. do T.: Optei por traduzir o título Asking for Directions para Perdida visando a preservar o duplo sentido presente no original em inglês. Esta escolha reflete não apenas a busca literal por orientações para encontrar um táxi, conforme os versos finais do poema, mas também evoca a busca por novos rumos do eu lírico diante da separação do amante casado. Além disso, a palavra ‘perdida’ carrega uma conotação social, especialmente no contexto brasileiro, associada à reprovação moral das mulheres envolvidas em relacionamentos extraconjugais, adicionando uma terceira camada de significado à tradução.
Asking for Directions
We could have been mistaken for a married couple
riding on the train from Manhattan to Chicago
that last time we were together. I remember
looking out the window and praising the beauty
of the ordinary: the in-between places, the world
with its back turned to us, the small neglected
stations of our history. I slept across your
chest and stomach without asking permission
because they were the last hours. There was
a smell to the sheepskin lining of your new
Chinese vest that I didn’t recognize. I felt
it deliberately. I woke early and asked you
to come with me for coffee. You said, sleep more,
and I said we only had one hour and you came.
We didn’t say much after that. In the station,
you took your things and handed me the vest,
then left as we had planned. So you would have
ten minutes to meet your family and leave.
I stood by the seat dazed by exhaustion
and the absoluteness of the end, so still I was
aware of myself breathing. I put on the vest
and my coat, got my bag and, turning, saw you
through the dirty window standing outside looking
up at me. We looked at each other without any
expression at all. Invisible, unnoticed, still.
That moment is what I will tell of as proof
that you loved me permanently. After that I was
a woman alone carrying her bag, asking a worker
which direction to walk to find a taxi.

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