Patricia Hampl – É assim que a memória funciona

Você está desembarcando de um trem.
Uma noite úmida e vazia, o cheiro de cinzas.
Uma rajada de vapor vinda da locomotiva rodopia
ao redor da bainha do seu sobretudo, ao redor
da mão que segura a valise de couro marrom,
a mão que, há pouco, penteou para trás
o cabelo e em seguida ajeitou o fedora
defronte a um espelho com as bordas
bisotadas na cabine de cerejeira.

A garota parada na plataforma
em um vestido dos anos quarenta
tem os cabelos ondulados, ela usa
meias de náilon — não, meias de seda ainda.
Seus ombros são comoventemente militares,
moldados por aquelas ombreiras
e uma encantadora fé nos Aliados.
Ela está esperando por você.
Ela pode estar de chapéu, se você quiser.

Você a vê primeiro.
Isso é parte da beleza:
você flagra o semblante puro e ansioso,
o lírico vestido, a surpresa.
Você pode dispor do vapor,
da estação lotada, do casaco de pelo de camelo,
do couro verdadeiro e dos fechos de bronze na valise;
você pode fazer as luzes brilharem com
um estranho significado, e os pretos vagões
que passam por você são antigos, mas comuns.

A garota é sua,
o vestido florido, a caminhada
até o bonde, um sanduíche de ovo frito
e uma piada sobre Mussolini.
Você pode dispor disso tudo:
você está nesse mundo, da única maneira
de lá estar agora, contratado
por seu silencioso martelo, para pregar quadros
nas paredes desta mansão
feita do mais fino ar.

Trad.: Nelson Santander

This is how memory works

You are stepping off a train.
A wet blank night, the smell of cinders.
A gust of steam from the engine swirls
around the hem of your topcoat, around
the hand holding the brown leather valise,
the hand that, a moment ago, slicked back
the hair and then put on the fedora
in front of the mirror with the beveled
edges in the cherrywood compartment.

The girl standing on the platform
in the Forties dress
has curled her hair, she has
nylon stockings—no, silk stockings still.
Her shoulders are touchingly military,
squared by those shoulder pads
and a sweet faith in the Allies.
She is waiting for you.
She can be wearing a hat, if you like.

You see her first.
That’s part of the beauty:
you get the pure, eager face,
the lyrical dress, the surprise.
You can have the steam,
the crowded depot, the camel’s-hair coat,
real leather and brass clasps on the suitcase;
you can make the lights glow with
strange significance, and the black cars
that pass you are historical yet ordinary.

The girl is yours,
the flowery dress, the walk
to the streetcar, a fried egg sandwich
and a joke about Mussolini.
You can have it all:
you’re in that world, the only way
you’ll ever be there now, hired
for your silent hammer, to nail pictures
to the walls of this mansion
made of thinnest air.

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