Mês: outubro 2019
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António Ramos Rosa – O jardim

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. Sequências de convergências e divergências, ordem e dispersões, transparência de estruturas, pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. Geometria que respira errante e ritmada, varandas verdes, direções de primavera, ramos em que se regressa ao espaço azul, curvas vagarosas, pulsações de…
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Hans Magnus Enzensberger – Anúncio de pedra

Perdem-se o cabelo, os nervos, vocês entendem, o tempo precioso, perde-se altura no posto perdido, brilho, sinto muito, não faz mal, por pontos, não me interrompam, perde-se sangue, pai e mãe, o coração perdido de Heidelberg, sem pestanejar perdem-se, de novo, os encantos da novidade, passe-se um esponja, os direitos civis, oh sim, a cabeça,…
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Wislawa Szymborska – Visto do alto

Um besouro morto num caminho campestre. Três pares de perninhas dobradas sobre o ventre. Ao invés da desordem da morte – ordem e limpeza. O horror da cena é moderado, o âmbito estritamente local, da tiririca à menta. A tristeza não se transmite. O céu está azul. Para nosso sossego, os animais não falecem, morrem…
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José Paulo Paes – Dúvida

Não há nada mais triste do que um cão em guarda ao cadáver do seu dono. Eu não tenho cão. Será que ainda estou vivo? data da última gravação: 8/10/98, 17h09 Na “Apresentação” de Socráticas – obra da qual foi extraído o poema acima – Alfredo Bosi esclarece: As Socráticas, publicadas postumamente, soam como um…
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Ferreira Gullar – Lições de um gato siamês

Só agora sei que existe a eternidade: é a duração finita da minha precariedade O tempo fora de mim é relativo mas não o tempo vivo: esse é eterno porque afetivo — dura eternamente enquanto vivo E como não vivo além do que vivo não é tempo relativo: dura em si mesmo eterno (e transitivo)
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Joan Margarit – Piscina

Não temia a água, mas a ti,era teu medo o que eu temia,e o lugar mais profundo,em que não se veem os azulejos do fundo.Arrastaste-me até lá, lembro aindaa força de teus braços obrigando-me,enquanto tentava abraçar-me a ti.Não aprendi a nadar até muito tempo depois,e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.Agora que já nunca voltarás a…
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Manuel António Pina – Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte

Hoje soube-se uma coisa extraordinária, que morreste. Talvez já to tenham dito, embora o caso verdadeiramente não te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo. Algo, de fato, deve ter acontecido porque nada acontece, a não ser o costume, amor e estrume; quanto ao resto tudo prossegue de acordo com o Plano. Há apenas agora…
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Paulo Henriques Britto – O aqualouco

A verdadeira diferençasó se sente depois do frio.Antes é só um salto, um mergulho imprudente,como se eternidade fosse água gelada,como se o nada não fosse mais que um rio. Depois somem as palavras fáceis(“eternidade” etc.; v. acima),fica só o fundamental:o vômito, o medo, o adeus,a vontade de assassinar todos os recém-nascidosdo Egito, como se alguém…
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Chacal – como era bom

o tempo em que marx explicava que tudo era luta de classes como era simples o tempo em que freud explicava que édipo tudo explicava tudo era clarinho limpinho explicadinho tudo muito mais asséptico do que era quando nasci hoje rodado sambado pirado descobri que é preciso aprender a nascer todo dia
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Wislawa Szymborska – Autotomia

Em perigo, a holotúria se divide em duas:com uma metade se entrega à voracidade do mundo,com a outra foge. Desintegra-se violentamente em ruína e salvação,em multa e prêmio, no que foi e no que será. No meio do corpo da holotúria se abre um abismocom duas margens subitamente estranhas. Em uma margem a morte, na…