Mês: junho 2019
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Wislawa Szymborska – Mapa

Plano como a mesa na qual está colocado. Debaixo dele nada se move nem busca vazão. Sobre ele – meu hálito humano não cria vórtices de ar e deixa toda a sua superfície em silêncio. Suas planícies, vales, são sempre verdes, os planaltos, montanhas, amarelos e marrons e os mares, oceanos, de um azul delicado…
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Jorge Sousa Braga – Litania

Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatório e uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparente Com o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãos ainda escorrendo sangue Uma pequena construção toda em pedra com divisões de tijolo e cal hidráulica e janelas abrindo para…
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Nuno Júdice – Nostalgia de setembro

Quando vinham as nuvens de setembro, já os pássaros tinham emigrado para além dos mares, o campo ficava em longos silêncios que só a passagem dos rebanhos, a caminho do matadouro, cortava num tropel que ecoava ainda, depois da paisagem, com os gritos do pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvens quando…
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A. M. Pires Cabral – O Vento

É fácil dizer que o vento tem gatos na voz enfurecidos. Que afaga e despenteia, traz a chuva. Que levanta as telhas, exercita na noite os nossos mais pesados pesadelos. É fácil ser poeta à custa do vento. Fingir que não sabemos que o vento não é senão o vazio que muda de lugar.
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Carlos Bousoño – À distância

Passa a juventude, e passa a vida, passa o amor, a morte também passa, o vento, a amargura que trespassa a pátria espessa, hirta e adormecida. Adormecida, em sonho eterno, olvida. Mortos e vivos na mesma argamassa dormem igual sina e alegria escassa. Pátria, profundeza, pedra perdida. Pedra perdida, imersa, vivos, mortos. Toda Espanha dorme…
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David Teles Pereira – Tractatus de Legibus ac Deo Legislatore (Livro III, Capítulo II)

Ao meu avô Nunca mais me irás interromper ao comentar uma passagem do de Legibus de Francisco Suárez, mas, por agora, a nuvem castanha que te ocupa o peito sufoca-me a voz. As nossas leis não chegam para acalmar todos os vícios e o pior de todos é chorar-te por não te poder dizer, seguindo…
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Maria do Rosário Pedreira – À avó

Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a…
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Helder Moura Pereira – “Eras mesmo a fonte de tudo…”

Eras mesmo a fonte de tudo, pelo menos naquele dia a que chamamos perfeito. Os dias tinham-se entranhado nos dias, a tal ponto que a vida era só dias, dias a seguir uns aos outros. Apenas dias. De olhos vendados e sem bater numa única parede, pegados a isto, ao cheiro reconhecido só quando um…
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Andreia C. Faria – “Espero o dia em que possa…”

Espero o dia em que possa deixar crescer as unhas as meias por cerzir a boca sem propósito de beijar. O dia que misture à noite uma respiração de espelhos, um registro acidental, mortificado, ou o livro que se leu na tarde até perder a luz. Que a natureza avance em mim sem esperança de…
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Juan Vicente Piqueras – Confissão do fugitivo

Só sou feliz partindo. Não entre quatro paredes, à mercê das espadas, mas entre aqui e ali, uma e outra casa, ambas de preferência alheias. Já não posso, nem quero, estar quieto. Nem agora nem depois. Nem aqui nem ali. Em todo caso aí, onde tu estás, seja tu quem fores, põe o teu nome…