Gonçalo M. Tavares – O idiota

Os irmãos com saúde,
os meus pais vivos,
um pouco deprimidos, mas lúcidos e vivos.
Uma mulher que me espera à porta, e sorri,
um bebê com um ano e meio, uma rapariga,
      vem aí outra;
quando regresso a minha mulher recebe-me a sorrir
   com uma barriga grande.
  Um café, outro,
o caderno preto à minha frente, o tempo,
nada para fazer a não ser por dentro,
        os sentimentos tranquilos.
O estômago calmo: tenho mais dinheiro que fome
     (é sempre um equilíbrio entre dois pesos).
Os empregados de um lado para outro,
       a atender à sede dos outros, aos caprichos.
Ao meu lado direito um vidro: vejo os vivos
em passo apressado
    a cumprimentarem-se;
as ações urgentes, obrigatórias (as que eu esqueci).
       Que fazer?
  Como aproveitar o esconderijo?
Esconde-te, que o exterior não te descubra: só sabe dar ordens.
E como aproveita o homem escondido a dádiva do esconderijo?
Escreve, o idiota.

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