Théodore Fraenckel – Meditação do fim de Agosto

Mal as árvores se abatem, o que resta da floresta?
Resistirá a madeira a ser moldada pelo acréscimo
de formas que lhe vem da literatura? E no entanto
a natureza nada tem de humano e dela não se pode
dizer que prescinde de crescer e se aquieta nos limites
de uma forma que a torna definitiva e prematura.
De muito a olharmos, enrugará a pintura? Ou
sairá do quadro para discutir conosco o desgaste
nela perpetrado pela amargura? É sempre
sem ilusões que o olhar cobre o tempo, fartos
que estamos de constatar a resistência dos campos
e pela palavra se tornarem paisagem na literatura.
É outro o nosso segredo, certo de que todas
as ficções se finam num pingo de tinta
de onde partem as aves, de asas incineradas,
à procura de um fim que às salve da literatura.

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