Mês: setembro 2018
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Eugénio de Andrade – As Mãos

Que tristeza tão inútil essas mãos que nem sequer são flores que se dêem: abertas são apenas abandono, fechadas são pálpebras imensas carregadas de sono.
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João Cabral de Melo Neto – de “Os Três Mal Amados”

Trecho de “Os Três Mal Amados”, de João Cabral de Melo Neto, em que o amor surge como força devoradora que corrói identidade, memória e futuro, deixando o sujeito reduzido à própria perda.
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Rui Pires Cabral – «He loved beauty that looked kind of destroyed»

Gostava dessa espécie de beleza que podemos surpreender a cada passo, desvelada pelo acaso numa esquina de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta que foi toda a infância de alguém, com visitas ao domingo e tardes no quintal depois da escola; a beleza crepuscular de alguns rostos num retrato de família a preto e…
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Nuno Júdice – Como Aves, Cuja Passagem

Como sombras passaram entre nós, como sombras. Uma vez perante alguns amigos e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei os seus nomes. Mas o que não correspondia a um acto heroico, nada significava hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos. Só se eu próprio me tornar uma sombra, e também eu passar a uma outra vida. Durante…
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Hilda Hilst : Dez chamamentos ao amigo

I Se te pareço noturna e imperfeita Olha-me de novo. Porque esta noite Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. E era como se a água Desejasse Escapar de sua casa que é o rio E deslizando apenas, nem tocar a margem. Te olhei. E há um tempo Entendo que sou terra. Há tanto…
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Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe

Não posso narrar. Que pretérito me serviria se minha mãe já não se afasta mais de mim? Exúbere então me detenho ante um estado de coisas demasiado presente: ser a descuidada que dela cuida enquanto outros a negligenciam por mim. São as pessoas que me restaram e a gramática se torna um escândalo quando ela…
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Anna Akhmátova – Último Brinde

Bebo ao lar em pedaços,À minha vida feroz,À solidão dos abraçosE a ti, num brinde, ergo a voz… Ao lábio que me traiu,Aos mortos que nada veem,Ao mundo, estúpido e vil,A Deus, por não salvar ninguém. Trad.: Rubens Figueiredo Последний тост Я пью за разоренный дом,За злую жизнь мою,За одиночество вдвоем,И за тебя я…
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Rui Lage – EN 314

Ardidas há muito as velas de ignição que davam centelha ao meu antigo e primeiro coração. Agora sou apenas um ponto morto, sem tração: rolo sem atrito mas também sem aflição. A estrada adormece em bosques propícios a emboscadas, mas já não tenho crenças que mereçam ser cobiçadas. E os meus sonhos, até os meus…
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Albano Martins – Haicais

Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por…
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Manuel António Pina – de “Cuidados Intensivos”

I “A esta hora e neste sítio (miocárdio ventricular esquerdo) é a abstracta vida que me assalta. Eles não sabem que o seu coração pulsa, ferido, no meu coração, que a minha dor alheia vagarosamente mata os seus sonhos, os seus sentidos, os seus dias visíveis e invisíveis, a linha dos telhados ao longe sobre…