Mês: maio 2018
-
Lawrence Ferlinghetti – Café Notre Dame

Uma espécie de trauma sexual prende um casal abismado Ele está segurando as duas mãos dela nas suas Ela está beijando as mãos dele Estão olhando-se nos olhos de muito perto Ela tem um casaco de peles feito duma centena de coelhos correndo Ele tem um casaco clássico sombrio e calças cinza-de-pardo Agora estão a…
-
Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções

Tentativa de ciúme – Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra? Fácil, não é? — Um golpe de remo! — E de pronto a linha da costa Se foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante (No céu, por certo, não no mar)! Almas! Almas! — antes amar Como…
-
Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa

Ela está bem aqui. Ela foi cuidadosamente esculpida para você saída de sua infância saída dentre seus cem colegas de escola preferidos. Ela sempre esteve aqui, meu bem. Ela é de fato extraordinária. Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro e tão real como uma panela de ferro fundido. Vamos ser sinceros, eu…
-
Mario Benedetti – Tempo sem Tempo

Preciso de tempo, necessito desse tempo que os outros deixam de lado porque lhes sobra ou já não sabem o que fazer com ele tempo em branco em rubro em verde mesmo em castanho escuro não me importa a cor cândido tempo que eu não posso abrir e fechar como uma porta tempo para olhar…
-
Manuel António Pina – Luz

Talvez que noutro mundo, noutro livro, tu não tenhas morrido e talvez nesse livro não escrito nem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aqueles que a morte separou e um deles escreva agora isto como se acordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu), e talvez então tu, eu,…
-
Marina Colasanti – Rota de Colisão

De quem é esta pele que cobre a minha mão como uma luva? Que vento é este que sopra sem soprar encrespando a sensível superfície? Por fora a alheia casca dentro a polpa e a distância entre as duas que me atropela. Pensei entrar na velhice por inteiro como um barco ou um cavalo. Mas…
-
Raul de Carvalho – Amiúde

No vale dos afetos ninguém está seguro: Míngua a lembrança, Esquece-se o rosto, Retorna-se ao eu, Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se, a presença ausenta-se, há o lago de que não se vê o fundo – E apenas as pequenas ilusões – um café, o cigarro, a limonada – imitam dois corações…
-
Roger Wolfe – A Última Noite da Terra

O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa E, no entanto, permaneço aqui. Sua melodia não muda, já o escrevi antes. Mas o meu trabalho é constatar o óbvio e é isso que o melro faz-me recordar. O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem por sua própria mão ou com ajuda. As…
-
João Miguel Fernandes Jorge – Presépio Animado da Ribeira Grande

Ainda todos se lembram do dezembro de 96. Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na berma, um gato de pelagem branca. Parecia ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa de pelo curto, tinha uma chaga na orelha alastrava pelo crânio e pela face e olho.…
-
Charles Simic – Na Biblioteca

Para Octavio Há um livro chamado “Um Dicionário dos Anjos”. Não foi aberto por ninguém em cinquenta anos, Eu sei, porque quando o fiz As capas rangeram, as páginas desintegraram-se. Nele descobri Que os anjos já foram tão abundantes Quanto moscas. O céu ao entardecer Costumava ficar repleto deles. Você precisava agitar ambos os braços…