Kerry Hardie – Navio da morte

                    para minha mãe

Observando-a, pela primeira vez,
virar-se para preparar o seu barco, minha mãe;
quando ficou claro que você tinha outros assuntos agora —
os assuntos do seu futuro —
fui inundada pela raiva.

Foi uma primeira sondagem,
um olhar lançado
sobre velas, remos, mastros,
como aquele olhar experiente que muitas vezes vi
perscrutando a mesa farta.

Como pode você planejar partir assim
quando finalmente estamos próximas o suficiente, se o vento está bom,
para ouvir o que a outra está dizendo?
Eu nunca imaginei que você faria isso, afastar-se,
no meio de uma frase, sua mão testando o cordame,

seu ouvido atento
aos pequenos estrondos das encrespadas ondas
na orla do mar da grande noite,
nem arrependida, nem receosa —
ansiosa apenas pela maré.

Trad.: Nelson Santander

Ship of Death

for my mother

Watching you, for the first time,
turn to prepare your boat, my mother;
making it clear you have other business now—
the business of your future—
I was washed-through with anger.

It was a first survey,
an eye thrown
over sails, oars, timbers,
as many a time I’d seen that practised eye
scan a laden table.

How can you plan going off like this
when we stand at last, close enough, if the wind is right,
to hear what the other is saying?
I never thought you’d do this, turning away,
mid-sentence, your hand testing a rope,

your ear tuned
to the small thunder of the curling wave
on the edge of the great-night sea,
neither regretful nor afraid—
anxious only for the tide.

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