Retrospectiva 2025 – No devagar depressa dos tempos

Quem lida com poesia — seja como poeta, leitor, editor ou mero administrador de um recanto qualquer na internet que publica poemas escolhidos a esmo — acaba se deparando, mais cedo ou mais tarde, com a questão da passagem do tempo e seus temas correlatos: nostalgia, saudade, infância, velhice, doença, morte. Os frequentadores assíduos da página sabem que esses são alguns dos assuntos mais recorrentes nos poemas aqui publicados.

Falar da passagem do tempo, para mim, é lidar com o assombro que significa dobrar a página do ano de 2025 para inaugurar um novo capítulo em 2026. Há pouquíssimo tempo, com amigos, discutíamos como seria o ano 2000. Haveria carros voadores? Robôs encarregados das tarefas domésticas? Já teria sido inventada a vacina contra a cárie? Corria então o ano de 1980, e o futuro se apresentava àqueles adolescentes como um éden tecnológico terrestre, no qual doenças incuráveis seriam erradicadas e problemas insolúveis da física — como as viagens intergalácticas — estariam todos equacionados.

Eu disse “há pouquíssimo tempo”? Não, não me enganei. Para nós, humanos, o tempo passa de um jeito estranho. À parte as regras da teoria da relatividade, sentimo-lo basicamente de duas formas: rápido e lento. O detalhe curioso é que, para os nossos sentidos, essas duas velocidades acontecem ao mesmo tempo. Por isso, quando uso a expressão “há pouquíssimo tempo” para me referir a uma conversa banal ocorrida há mais de 45 anos, é porque, para mim, ela se passou ontem — ou, quando muito, na semana passada. E, no entanto, lá se vai quase meio século. Esse paradoxo da passagem a um tempo veloz e pausada do tempo foi descrito de forma magistral por Guimarães Rosa em uma frase curta de “A Terceira Margem do Rio”: Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos.

Nada do que prevíamos eu e meus amigos, diga-se de passagem, se concretizou no ano 2000. Nem carros voadores, nem a cura do câncer. Os anos 2000, lembro bem, eram apenas ligeiramente diferentes dos anos 80 — ao menos no Brasil. Ainda assim, causa espanto constatar que o ano 2000 ficou para trás há 25 anos. Quase 26. “Que horror, que lindo”, diria Caetano.

Mas será que 2025 é, de fato, tão diferente de 1980?

Assim como o tempo, que reúne duas facetas numa só, também os anos de 1980 e 2025 são, ao mesmo tempo, muito semelhantes e muito distintos. A tecnologia, por exemplo, avançou de forma vertiginosa. Hoje temos internet, comunicação instantânea, inteligência artificial, smartphones, tratamentos gênicos — tecnologias inexistentes ou ainda rudimentares nos anos 80. É verdade que, junto com esses avanços, vieram também a vigilância em massa, a perda de privacidade e desigualdades ampliadas pela automação do trabalho.

Em 1980, não havia vacinas de mRNA, telemedicina, streaming ou ferramentas digitais que democratizam a criação e a distribuição de conteúdos. Mas também não havia, como hoje, a obesidade epidêmica associada ao fast food industrializado e ao sedentarismo digital, a crise dos opioides, a saúde mental deteriorada pelo excesso de telas, a cultura do cancelamento sufocando a liberdade artística nas redes sociais, nem a produção de conteúdos rasos, algorítmicos, que empobrecem a profundidade criativa.

Pobreza, desigualdade, racismo, discriminação, violência doméstica, desemprego, analfabetismo funcional e concentração de renda, por sua vez, seguem tão presentes hoje quanto estavam em 1980 — embora, justiça seja feita, tenha havido melhora pontual em alguns desses aspectos (e piora significativa em outros, como a concentração de renda).

Falar do tempo é também lembrar que este blog existe desde fevereiro de 2012 (!). Começou no Tumblr — território então mais instável, mais improvisado — e migrou para o WordPress em fevereiro de 2016, como quem atravessa um rio sem muita certeza da margem oposta. São, portanto, mais de treze anos. Dito assim, parece muito. Vivido, soa pouco. Ou melhor: soa como aquilo que Guimarães Rosa intuiu — o tempo passando no seu modo contraditório, no devagar depressa dos dias. O blog envelheceu como envelhecem as coisas que resistem: sem perceber direito quando começaram a ficar antigas.

Para o ano, talvez — e convém sublinhar esse talvez — este espaço passe a contar também com um podcast. Vamos ver. Não como expansão estratégica nem como adequação a modismos, mas como mais uma tentativa de escuta. Talvez eu encontre tempo para gerenciar essa nova ferramenta. Talvez não. Talvez a voz acrescente algo ao silêncio das páginas. Talvez reste apenas a intenção, que também é uma forma de existir no tempo.

O que me interessa, no entanto, não é a longevidade em si, mas o modo como o tempo se deposita sobre as coisas. Há poemas que envelhecem mal; outros, ao contrário, só começam a dizer algo depois de anos. Há versos que resistem porque aceitam o desgaste, porque não tentam ser eternos. Em alguma medida, este blog sempre foi um arquivo dessa tensão: textos escritos contra o esquecimento, mas conscientes de que nada escapa completamente a ele.

Segue, abaixo, a retrospectiva de 2025: uma seleção dos poemas que, por razões às vezes obscuras, às vezes muito nítidas, me pareceram os mais significativos do período. Não necessariamente os melhores — essa palavra costuma não funcionar —, mas aqueles que, quero crer, permaneceram, que continuaram a reverberar depois da leitura, como certos ruídos que insistem quando o resto já se calou. Não por acaso (ou talvez exatamente por isso), o primeiro deles é Tempo, de Alex Dimitrov — como se o próprio ano quisesse ser lido a partir desse eixo inevitável.

Encerrar um ano é um gesto convencional, quase automático. Ainda assim, há algo de ritual nisso: fechar um ciclo sabendo que ele não se fecha de verdade. O tempo não vira a página, somos nós que tentamos dobrá-la, com cuidado, para que não rasgue. Seguimos, afinal, na água rosiana que não para, de longas beiras, levados pelo curso dos dias, ora rio abaixo, ora rio afora, às vezes rio adentro: o tempo, o texto, o próprio fluxo.

Que 2026 venha, então, com o que tiver de vir. Com seus atrasos, seus excessos, suas pausas. Feliz Ano Novo, não como promessa, mas como desejo atento, desses que sabem que o tempo passa, mas passam com ele, sem a ilusão de vencê-lo.

1. Alex Dimitrov - Tempo

Mais uma vez despreparado
parado sob um toldo
no meio do verão

outono, inverno, primavera —
observando o aguaceiro (...)
2. Jackie Bartley – Lendo mitologia para crianças do jardim da infância

Hoje, li para elas a história de Perséfone e Hades,
uma versão resumida, adaptada para crianças.
Começo a pensar em cada história como um médico
pensa na vacinação; (...)
3. Jeffrey Harrison – Um gole de água

Quando meu filho de dezenove anos abre a torneira da cozinha,
e se inclina sobre a pia, virando a cabeça de lado
para beber diretamente do jato de água fresca,
eu penso no meu irmão mais velho, agora quase dez anos ausente,
que costumava fazer o mesmo nessa idade; (...)
4. Barbara Crooker – O luto

é um rio que atravessamos até chegar à outra margem.
Mas estou aqui, atolada no meio, com água dividindo-se
em torno dos tornozelos, seguindo rio abaixo
sobre pedras planas. Incapaz de levantar um pé,
de seguir em frente. (...)
5. Anna Swir – Eu lavo a camisa

Pela última vez lavo a camisa
de meu pai, que morreu.
A camisa cheira a suor. Conheço
esse cheiro desde a minha infância,
tantos anos
lavei suas camisas e cuecas. (...)
6. Li-Young Lee – Cuidado

Então somos poeira. Enquanto isso, minha esposa e eu
fazemos a cama. Segurando as pontas opostas do lençol,
nós o levantamos, fazendo-o ondular, e depois puxamos com força,
medindo com os olhos enquanto ele cai alinhado
entre nós. (...)
7. Sharon Olds – Ode à terra

Querida terra, peço desculpa por tê-la desprezado,
pensei que você fosse apenas o cenário
para os protagonistas — as plantas,
os animais e os animais humanos. (...)
8. Lucille Clifton – [entardecer e meu falecido ex-marido]

entardecer e meu falecido ex-marido
se ergue do tabuleiro ouija
através do ar trêmulo (...)
9. Franz Wright – Caminhada Noturna

A loja de conveniências aberta 24 horas está vazia
e não tem ninguém atrás do balcão.
Abres e fechas a porta de vidro algumas vezes
fazendo um sino soar,
mas ninguém aparece. Vieste apenas
para comprar um maço de cigarros, e talvez
um exemplar do jornal de ontem —
por fim, escolhes um e partes,
deixando trinta e cinco cents no lugar. (...)
10. Dorianne Laux – A Fada dos Dentes

Eles pincelaram uma moeda com cola
e purpurina, entraram de pés
descalços, e sem me acordar
pintaram fileiras de delicadas pegadas
douradas em meus lençóis com um amor
tão silencioso que ainda não consigo ouvi-lo. (...)
11. Linda Pastan - Uma coletânea

Em 30 de janeiro de 2023, falecia a poeta Linda Pastan, vencedora do Prêmio Dylan Thomas, entre outros, e ex-poeta laureada de Maryland (1991-1995). Ela tinha 90 anos e morreu devido a complicações após uma cirurgia para o tratamento de um câncer. (...)
12. Anne Alexander Bingham – É suficiente

Saber que os átomos
do meu corpo
perdurarão

pensar neles subindo
pelas raízes de um grande carvalho
para viver em
folhas, ramos, galhos
talvez para nutrir a
peônia carmesim
a íris anil
o brócolis (...)
13. Kay Ryan – As coisas não deveriam ser tão difíceis

Uma vida deveria deixar
rastros profundos:
sulcos onde ela
foi e voltou
para pegar a correspondência
ou mover a mangueira
pelo jardim;
onde ela costumava
ficar em frente à pia,
um lugar desgastado; (...)
14. Kim Addonizio – O momento

O jeito como minha mãe se inclinou diante da porta do carro, remexendo as chaves,
demorando uma eternidade
para encontrar a certa, alinhá-la com a fechadura, empurrá-la debilmente
e girar,
o jeito como abriu a porta tão lentamente, curvando-se um pouco mais,
acomodando-se finalmente no assento de couro – ela havia machucado as costelas,
explicou, mas não foi uma lesão
o que eu vi, não o contratempo temporário seguido pela cura,
a obstinada renovação do corpo;
o que vi pela primeira vez foi a velhice, (...)
15. Jack Gilbert – Dali até aqui

De minha colina, avisto a rodovia e uma gaivota
que alça voo, negra contra o cume cinza.
Ela sobe lentamente e se dissolve no céu luminoso.
Certamente, nossa lenta e inexorável extinção nos leva a um estado
de graça. Como nomear tal perplexidade? (...)
16. Linda Gregg – A carta

Não me sinto forte ainda, mas estou
cuidando bem de mim. O clima está perfeito.
Leio e passeio o dia todo e depois caminho até o mar.
Espero nadar em breve. Por enquanto, estou serena. (...)
17. Sharon Olds – A promessa

Depois do segundo drinque no restaurante,
de mãos dadas sobre a mesa vazia,
estamos novamente nessa, renovando nossa promessa
de matar um ao outro. (...)
18. Michael Donaghy – O presente

No presente, há apenas uma lua,
embora outra surja refletida em cada lagoa.

Mas reluzindo no lago escuro, o disco brilhante
percebido pelo astrofísico e pelo amante,

tem milissegundos de idade. E mesmo essa luz
é sete minutos mais antiga que sua fonte. (...)
19. Sharon Olds – Meu filho, o homem

De repente, seus ombros ficam muito mais largos,
como Houdini expandia seu corpo
enquanto o acorrentavam. Parece que foi ontem
que eu o ajudava a vestir o pijama,
guiava suas pernas para o interior dourado,
fechava o zíper e o jogava para cima,
pegando-o no ar. (...)
20. Maria do Rosário Pedreira – [Quem se afasta do mundo deixa a quem fica]

Quem se afasta do mundo deixa a quem fica
um rasto de perguntas. Mas eu vi a morte dançar
tantas vezes no lago dos teus olhos que não pergunto
pelos teus passos à lama dos caminhos nem
pelos teus sonhos ao côncavo da cama. (...)
21. Stephen Dunn – Sob a calçada

Sussurros ali se acumulam, más notícias
do nosso subconsciente,
lágrimas que escorreram
pelo interior das faces,
desculpas que ficaram presas
em nossas gargantas. (...)
22. Lang Leav – Uma pequena consolação

Tudo o que um dia fomos,
é agora um verso triste e solitário.

Se antes eu tinha tanto a dizer,
agora estou desprovida de palavras. (...)
23. Dorianne Laux – A vida das árvores

Os pinheiros esfregam seu alarido
na escuridão estrelada, roçam
seus galhos inquietos contra a casa,
e o mistério dessa queixa se traduz mais ou menos
no trabalho árduo da propriedade: hora
de arrastar a escada do galpão,
subir no telhado com uma serra
entre os dentes, e cortar
aqueles sacanas. (...)
24. Meghan O’Rourke – Autorretrato equivocado como Demeter em Paris

Só se pode sentir falta de alguém quando este alguém está presente em sua vida.

A Ilha dos Mortos é de uma obscura claridade.

Henry Miller disse a Anaïs Nin que a única morte real é estar morto em vida.

Os ausentes só estarão ausentes quando forem esquecidos.

Até lá, a ausência é uma mentira, um oximoro. (...)
25. Sharon Olds – Balada da melhor amiga

Às vezes, do nada, lembro do poder
da casa dela, e do caminho até lá
descendo a rua estreita, a curva acentuada
à direita, abrindo-se para

a agradável rua sem saída, a
casa da minha melhor
amiga — o quê?
Estilo italiano? (...)
26. Sharon Olds – Transformações

O irmão dela se tornou médico, como o pai.
Eu ia à casa dela todos os dias, depois da escola,
e me sentava em sua cama. Ela estava doente, mas não contagiosa.
Eu não sabia de nada. (...)
27. Sharon Olds – O irmão dela

Não acho que eu quisesse “casar com ele
quando eu crescesse”, o irmão mais velho dela,
não acho que eu quisesse casar — eu era como
um arco de Diana, apenas
levemente curvado.
28. Catherine Pond – Chegada

Eu era tão tola. Achei que seu sofrimento fosse algo
que eu pudesse resolver ou pelo menos esconder,
como o falcão morto que encontramos na floresta e levamos
de volta para casa, sob a noite azul-aço, para enterrar. (...)
29. Patricia Fargnoli – A incontornável pressão da existência

Eu vi a raposa correndo à beira da estrada
passando pelas fachadas de tijolos aparentes dos condomínios
passando pelo posto da Citco com sua fila de carros e caminhões
e ela corria, mancando, magra, pelagem opaca e embaraçada,
passando pela pizzaria do Jim, pela Wash-O-Mat, (...)
30. Dorianne Laux – Apenas enquanto o dia durar

Em breve, ela não será mais que um pensamento fugaz,
uma pontada, um rufar de vento nos sinos, colheres tortas
penduradas nos beirais na primeira noite em uma nova casa
numa rua onde nenhum cachorro uiva, nenhum gato visita
um gato vizinho no meio da rua, serpenteando
e esfregando pelo com pelo, lançando faíscas. (...)
31. Ted Kooser - Pais

Meus falecidos pais tentam se manter fora do meu caminho.
Quando entro em um cômodo, eles já o deixaram,
foram procurar o que precisa ser feito
em outra parte da casa, meu pai com o aspirador,
minha mãe com pano de pó e o lustra-móveis. (...)
32. Marie Howe - A Menina

Tão perto do fim de minha vida fértil e
ainda sem filhos

– se eu pudesse lembrar de um dia sequer em que era puramente uma menina
e ainda não uma mulher –

mas não creio que tenha havido um dia assim para mim. (...)
33. Maya C. Popa – Tudo o que foi criado

(...) Em seu trigésimo ano, Juliana estava morrendo. Não há outro jeito
de descrever a sequência de eventos, a crescente lacuna

entre dois tipos de vida: a vivida e a
lembrada. E cristo veio até onde ela estava deitada,

febril e desamparada, sentou-se ao seu lado em vestes de veludo,
e abriu a palma para mostrar-lhe uma avelã

dizendo isso é tudo o que foi criado. (...)
34. Gary Snyder – Parta agora

Você não vai querer ler isso,
leitor,
esteja avisado, afaste-se
da escuridão,
parta agora.

— sobre a morte e a
morte da amada — não é meditação vaga
ou homilia, não se trata de ironia,
de deus ou de uma revelação ou
aceitação do — ou batalha contra o —
fim de nossa vida,
é sobre como os olhos
afundam e os dentes se destacam
depois de alguns dias quentes. (...)
35. John Murillo – Dolores, talvez

Nunca contei isso a ninguém. Até agora, até você.

Dormi uma vez num campo além da ribeira,
um bando de noitibós velando por mim.

Foi no verão em que um fazendeiro encontrou sua filha
pendurada no sótão do celeiro, e desejou, pela primeira vez,
não tê-la tocado daquela maneira. (...)
36. Kathleen Spivack – ele jaz imóvel na cama

ele jaz imóvel na cama
e ela
não está viva
segue respirando, como se desse um sinal
ela sabe o que anseia
mas dizer-lhe
é ainda pior:
sarcófagos,
jazem juntos formalmente,
marido e mulher. (...)
37. Marie Howe – Separação

Ao sair da cidade, vejo-o atravessando
o estacionamento da Brooks Pharmacy, e lembro

como ele se punha de joelhos na cozinha
e pressionava o rosto contra meu vestido, a bochecha achatada

em meu ventre como se escutasse algo.
Alguém podia estar esperando o café na sala de estar,

alguém podia estar pondo a mesa da sala de jantar, ele
enfiava o rosto sob meu vestido, pressionava a bochecha

contra meu ventre e se ajoelhava ali, sem dizer nada. (...)
38. Lucille Clifton – o último dia

nos encontraremos cercados
pelos nossos todos eles agora
com os olhares que haviam
apenas imaginado possíveis
e eles nos reprovarão
com esses olhos (...)
39. John Yau – “E Pluribus Unum”

Salivando, um insano sibilo;
como um Setter Irlandês trancado no porão
e então solto, o amanhecer
tenta estar em todos os lugares ao mesmo tempo. (...)
40. Sharon Olds – Quando dizem que você tem talvez três meses de vida

Em meu sono, sonhei que visitava seu túmulo —
e o que jazia entre nós? A bela grama intocada
e o solo fértil, como a rica
terra em que você enterrou nossos lençóis
depois que o deixei — nosso DNA — perto de onde
mais tarde você enterrou seu golden retriever. (...)
41. Lisel Mueller – Monet recusa a cirurgia

Doutor, você diz que não há halos
ao redor das luzes de rua em Paris
e que o que vejo é uma aberração
causada pela velhice, um distúrbio.
Digo que levei uma vida inteira
para enxergar lampiões a gás como anjos,
para suavizar e desfocar e, por fim, banir
as bordas que você lamenta que eu não veja, (...)
42. Seamus Heaney – Posfácio

E reserve um tempo para ir até o oeste
Rumo a County Clare, pela Flaggy Shore,
Em setembro ou outubro, quando o vento
E a luz interagem entre si,
De modo que o oceano de um lado se torna selvagem,
Com espuma e brilho, e terra adentro, entre as pedras, (...)
43. Ron Koertge – Espaço vazio

Meu pai me ensinou a fazer as malas: colocar tudo à vista. Guardar metade. Enrolar o que pode ser enrolado. As peças que amarrotam vão sobre as de algodão. Depois, calças, da cintura às barras. Cantinhos e frestas para as meias. Cintos nas laterais, como cobras. Plástico por cima. Depois, os sapatos. Usar as roupas pesadas no avião. (...)
44. Nelson Santander – Quatro poemas sobre o tempo

o tempo me fascina
o tempo (os ponteiros fascistas)
de horas assassinas
suas facetas, seus lados

cegos
surdos
mudos me atraem
seus mundos

passados/
presentes/
futuros me traem (...)
45. Sarah Lindsay – Origem

A primeira célula não sentiu o impulso de se dividir.
Nutrida por abundantes sais e sol,
delgada ainda, ela simplesmente se espalhou,
balançando sobre a água, agarrando-se à pedra,
uma película de força complacente. (...)
46. Wendell Berry – A Meta

Mesmo enquanto sonhava, eu rezava para que o que via fosse apenas medo, e não um presságio,
pois o que vi foi a última paisagem conhecida ser destruída em nome
da meta – o solo devastado, a rocha explodida.
Aqueles que queriam voltar para casa jamais chegariam lá agora.
Visitei os escritórios onde, em nome da meta,
os planejadores planejavam em mesas vazias enfileiradas. (...)
47. Ansel Elkins – Autobiografia de Eva

Calçando apenas botas de pele de
serpente, abri uma trilha, a primeira
estrada radical para fora daquele velho reino
em direção a um novo desconhecido. (...)
48. Ida Vitale – Peixe na água

Como peixe na água,
como peixe, porém, pensado por Leibniz:

peixe pleno de lago,
de lago pleno de peixes, (...)
49. W.S. Merwin – Rio

Li Po, já se foi o pequeno bote
que o levou dez mil li rio abaixo
passando pelos gibões que chamavam
das duas margens e eles também se foram (...)
50. Carl Sandburg – O crepúsculo dos búfalos

Os búfalos se foram.
E os que viram os búfalos se foram.
Os que viram os búfalos aos milhares e como eles pisoteavam a relva da pradaria
com seus cascos até reduzi-la a pó, (...)
51. Louis MacNeice – Uma catarata concebida como uma procissão de cadáveres

Cai o rio e por cima do peitoril caixões de funerais frios
Tombam fundo e repousam na tumba selada da piscina,
E a água amarela limpa a campa e o calhau tampa o necrotério
E o rio-corcel salta e mergulha e borbulha em fúria e frenesi,
E os caixões se espalham, tambores se esbarram, águas escorrem. (...)
52. Rigoberto González - Casa

Não sou sua mãe, não me comoverei
com o sofrimento ou a gratidão de homens
que lamentam como órfãos à minha porta.
Não sou uma igreja. Não respondo às
orações, mas nunca as rejeito. (...)
53. Samuel Yellen – Como em uma marca d’água

Como em uma marca d’água, deciframos,
Por baixo do verniz da relva e dos ramos,
A obsoleta planta da fundação,
E onde corriam muros e construção. (...)
54. Seamus Heaney – Recesso escolar

Passei a manhã toda na enfermaria da escola
Contando os sinais que marcavam o fim das aulas.
Às duas horas, os vizinhos me levaram para casa.

Na varanda, encontrei meu pai chorando —
Ele que sempre enfrentara funerais com serenidade —
E Big Jim Evans dizendo que fora um duro golpe. (...)
55. Seamus Heaney – Uma ligação

‘Espere’, ela disse, ‘Vou lá fora chamá-lo.
O clima aqui está tão bom que ele aproveitou
Para capinar um pouco’.
Então eu o vi
Ajoelhado ao lado do canteiro de alho-poró,
Tocando, inspecionando, separando um
Talo do outro, (...)
56. Tadeusz Różewicz – Epístola Apócrifa

Mas Jesus se inclinou
e com o dedo escreveu na terra
depois se inclinou novamente
e escreveu na areia

Mãe, eles são tão obtusos
e simples que preciso lhes mostrar
maravilhas faço tantas coisas
tolas e vãs (...)
57. Peter Davidson – Castelos de Setembro

Os primeiros sinais de nossa condição se manifestam:
Pesar no vento, véu de névoa sobre a lua,
Frio ligeiro, teias de aranha, grama embranquecida,
E dois dias quentes como no sul em nada alteram essa situação.
Uma manhã chega, e você sabe que isso não pode acabar bem. (...)
58. Saskia Hamilton – 1944

Ela fez circular, por toda sala, um frasco
de suco de groselha, que passou ‘de mão em mão
por todas as macas,’ escreveu,
vinte e cinco ou mais, e voltou
‘ainda meio cheio’. Alguém ajudou o vizinho
a beber, pois ele ‘não tinha mãos’ (...)
59. Jack Gilbert – De pouco em pouco: da meia-noite às quatro da manhã

Por onze anos tenho lamentado,
lamentado por não ter feito o que
queria fazer enquanto fiquei ali sentado
aquelas quatro horas, vendo-a morrer. Eu queria (...)
60. Jack Gilbert – Infidelidade

Ela nunca está morta quando ele a encontra.
Eles comem lamen no café da manhã, como de costume.
Por onze anos, ele pensou que fosse o rio
no fundo de sua mente sonhando. (...)
61. Rosemerry Wahtola Trommer – Névoa

E às vezes, quando me vejo
à margem de uma imensidão —
um lago, um mar, uma encosta de montanha —

minha pequenez me extasia
e a maior de minhas tristezas
diminui e fica menor que o espaço

entre grãos de areia, (...)
62. William Stafford – Sim

Pode acontecer a qualquer momento, tornado,
terremoto, Armageddon. Pode acontecer.
Ou luz solar, amor, salvação.

Pode acontecer, você sabe. É por isso que despertamos
e olhamos para fora – não há garantias
nesta vida. (...)
63. Eavan Boland – Anna Liffey

Contava-se que Life
Era filha de Canaã,
E chegou à planície de Kildare.
Amava as planícies e as valas
E o horizonte distante.
Pediu que dessem seu nome ao lugar.
O rio herdou o nome da terra.
A terra herdou o nome de uma mulher. (...)
64. Gwendolyn MacEwen – A Descoberta

não fiques pensando que a exploração
termina, que ela revelou todo seu mistério
ou que o mapa que tens em mãos
inibe novas descobertas

advirto-te que desvendá-la leva anos,
séculos, e quando a vires nua,
olha de novo, (...)
65. Grey Gowrie – Terceiro Dia

Os respiradores soam como trutas se alimentando
à noite em algum criadouro da imaginação –
ninguém ali para ouvir; nosso subaquático mundo de atenção
intensiva é quase azul – inofensivo, brando. (...)
66. Edward Thomas – Foi-se embora, uma vez mais

Foi-se embora, uma vez mais,
Maio, junho e também
Julho, e agosto se esvai,
De novo, como convém,

Banais, salvo pelo fato
De vê-los passar, tal qual
Atravessam os regatos
Um vago cais fluvial. (...)
67. Tony Connor – Na Alameda dos Carvalhos

Velha e sozinha, à noite ela adormece
sentada diante da televisão.
A casa está quieta agora. Ela tece,
ergue-se para ferver a infusão,

assiste a um cowboy ser assassinado,
lê na gazeta quem nasceu ou morreu,
dorme em ‘Mísseis nucleares estocados’.
Um mundo que um mal pior prometeu

some. (...)
68. Ben Rhys Palmer – Eden, o robô jardineiro

Ele foi programado para seguir instruções:
espalhar cobertura morta, despontar as begônias,
manter os querubins da fonte livres dos dejetos dos pássaros.
Mas desde que, certa manhã, encontrou seus senhores
frios e rígidos na cozinha, surpreendeu-se
saindo da própria programação,
dedicando uma hora a contar girinos, outra a erguer
as pedras ao redor do lago para admirar os estranhos seres
por baixo: (...)
69. Eavan Boland – Chegamos sempre tarde demais

A memória
tem duas partes.

Primeiro, a revisitação:

o modo como ainda posso ver
aqueles amantes à mesa do café. Ela chora.

Nova Inglaterra. Hora do café da manhã. Inverno. Atrás dela,
além da janela panorâmica,
um bosque de pinheiros brancos. (...)
70. Shari Wagner – A mulher do fazendeiro muda de canal

O Jesus da minha infância
prefere estar ao ar livre.
Se não está pescando, está colhendo figos
ou nos mostrando sua plantação de mostarda.
(...)
71. Wendy Cope – Nomes

Ela foi Eliza por algumas semanas
Quando ainda bebê —
Eliza Lily. Logo virou Lil.

Mais tarde foi Srta. Steward na padaria,
E depois ‘meu amor’, ‘minha querida’, Mãe. (...)
72. Gösta Ågren – Alguns Poemas

(...) Envelhecer não é
deixar algo para trás, mas
girar sob o pilar de nuvem
do presente e contemplar
a própria vida, um livro
ainda não lido. Tudo
o que ele contém
ainda está por vir! (...)

Clique abaixo e confira também as Retrospectivas dos anos anteriores:

2021

2022

2023

2024

Retrospectiva 2024 – Nostalgia, Números e Novos Horizontes

Sabe, eu queria muito – juro – começar essa retrospectiva com um texto otimista. Imaginei algo leve e espirituoso, cheio de piadas sem graça e trocadilhos embaraçosos, com um quê de Luis Fernando Veríssimo dos anos 80. Pensei em uma introdução com o espírito dos comerciais do Boticário, capaz de transmitir aquele apelo emocional que todos buscamos nos Révellions, enquanto bebemos até vomitar e a Globo mostra os fogos sobre Copacabana, as pessoas gritando descontroladas, pulando ondinhas, fazendo oferendas. Sabe aquele Réveillon em família, com o tio bolsonarista e suas piadas inconvenientes, o filho adolescentes com cara de tédio, a avó surda que precisa que a levem ao banheiro de meia em meia hora? Então, algo assim.

Queria mesmo, mas não deu.

Calma, esse não é um desabafo suicida ou algo parecido. Depois de ler “Último Capítulo“, um dos inúmeros grandes contos de Machado de Assis1, prometi a mim mesmo que se um dia precisar recorrer a uma solução tão extrema, o farei com discrição e sem alarde. Quero evitar que, em um improvável encontro post mortem, me torne alvo da ironia mordaz do Machadinho, ou vítima de suas chufas, remoques e alcunhas zombeteiras… Que os que me sobreviverem tentem decifrar os motivos de minha eventual e súbita partida.

Também não se trata de um desabafo amargurado, ou daquela leve depressão que se abate sobre nós nos finais de ano.

Ou é?

Sim, 2024 foi pesado. No trabalho, na vida privada, no país. Mas não são todos anos assim, depois que nos tornamos adultos? Sim, são. E quanto mais envelhecemos, pior parece ficar. Um nítido cansaço de tudo parece nos afetar a todos nessa época do ano. Uma nostalgia dos natais passados nos assalta – lembranças da infância ou de qualquer outra época da vida em que fomos felizes – levando-nos àqueles inconvenientes balanços de fim de ano que invariavelmente nos põem para baixo. Afinal, o que passou sempre parece melhor do que a vida que levamos hoje. Muitas vezes, é quase impossível competir com passado.

Para a maioria de nós, por mais difícil que tenha sido a infância e a juventude, esses serão sempre lugares em que repousam, como joias em um estojo, nossas memórias afetivas mais intensas e nostálgicas. Os presentes de natal, os dias de vadiagem das férias de fim de ano, as luzes coloridas da cidade

Lembra daquele primeiro Réveillon com a namoradinha? O beijo e as promessas de amor eterno ao som das rolhas de Cidra Cereser estourando. As noites de verão, você tentando criar coragem para se declarar para a menina mais bonita do bairro. Não, da cidade. Quiçá do País. Lembra dela? Qual era mesmo o nome? Luciana? Aldamira? Sônia? Rosemeire?

Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho

(de Poema Sujo, Ferreira Gullar)

Para quem já passou dos cinquenta, a vida atual raramente consegue competir com essas memórias idealizadas. A vida já nos desgastou de tal forma, e acumulamos tantos traumas, recalques, remorsos, mágoas, insatisfações, arrependimentos, frustrações, perdas, que comparar o presente com o passado soa quase como escárnio.

“As crianças e seus presentes, os adultos e seus ausentes”, diria Janio de Freitas.

E nós, entre as ausências e os presentes, tentamos preencher o tempo com aquilo que remanesce – ou, pelo menos, com o que acreditamos que deve permanecer. Talvez sejam nossas memórias, aquelas que revisitamos compulsivamente ao final de cada ano, em busca de algum significado maior. Talvez sejam nossos pequenos projetos – os que nos mantêm ativos, produtivos, vivos –, ainda que, muitas vezes, nos pareçam vãos diante da grandeza do tempo que nos ultrapassa.

É curioso como, em meio a essa maré de balanços e melancolias, encontramos espaço para comemorar o que construímos, mesmo que pareça modesto. Pequenas conquistas, números e estatísticas ganham outra dimensão quando vistos sob o prisma da persistência. Afinal, o que é a vida senão um acúmulo de números e histórias? No meu caso, esse blog tem sido um desses lugares onde o presente tenta dialogar com o passado, e onde, quem sabe, algumas dessas histórias possam deixar marcas, nem que sejam digitais.

Mas chega de divagar – o texto já desliza para o enfadonho. Vamos ao que interessa.

Queria dizer apenas que, apesar do mencionado cansaço, o blog segue firme e crescendo. Pode não ser um fenômeno da internet, mas os números são animadores:

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Em 2024, foram 183 mil visualizações e 117 mil visitantes, 86 curtidas e 42 comentários (ei, pessoal, vamos curtir e comentar mais, até para eu saber se estou no caminho certo). Para um blog de poesia, não é nada mal. Acho. Eu sei que perfis como o ótimo Vila dos Poetas (@viladospoetas) no Instagram atraem milhares de curtidas por post, mas são plataformas com propostas diferentes. Meu blog aposta na palavra escrita, quase sem os recursos audiovisuais que encantam nas redes sociais.

E 2025 promete mais. Continuaremos com publicações diárias, alternando textos inéditos e republicações. Além de trazer a tradução de ótimos poemas de poetas pouco conhecidos no Brasil e que ainda não figuraram na página – como Anna Swir, Jackie Bartley, Christopher Wiseman, Laura Foley, etc. -, de fevereiro a abril, publicarei uma coletânea de Linda Pastan, com 60 poemas traduzidos, a maioria inéditos.

Os temas? Aqueles que vocês já conhecem: angústias existenciais, mortalidade, envelhecimento, perda, amor, meio ambiente e as pequenas epifanias da vida cotidiana. Nada que você que frequenta a página já não tenha visto antes. Pode soar repetitivo, mas cada poema carrega um olhar único, que ressignifica até os temas mais batidos com sua própria marca irredutível.

Então é isso. Agora sim, vamos finalmente ao que interessa: os melhores textos publicados na página em 2024. Arrisque-se neles. Vale a pena.

Faltou algo? Ah, é mesmo: feliz 2025!

  1. Há entre os suicidas um excelente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circunstâncias que os armam contra ela. Os que se vão calados raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excelente: em primeiro lugar, é um ato de cortesia, não sendo este mundo um baile, de onde um homem possa esgueirar-se antes do cotilhão; em segundo lugar, a imprensa recolhe e divulga os bilhetes póstumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, às vezes uma semana mais. ↩︎

1. Allen Hoey - Ano Novo

Neve de novo. Às vezes uma rajada
faz girar os flocos que caem em linha reta.
Uma dúzia de pardais se faz
diminuta nos galhos nus da
Rosa-de-Saron, (...)
2. Linda Pastan - Os Meses

Janeiro

Retorcidas pelo vento,
meras estruturas para gelo ou neve,
as árvores decidem
resistir por enquanto,

elas brotarão em abril. (...)
3. Wendell Berry - Eles se sentam juntos na varanda

Eles se sentam juntos na varanda, a escuridão
Aproximando-se, a casa atrás deles na penumbra.
Terminada a refeição, lavaram e secaram
A louça – apenas dois pratos agora, dois copos,
Duas facas, dois garfos, duas colheres – tarefa pequena para dois. (...)
4. Ursula K. Le Guin - Prece de uma Noite de Janeiro

Sinos badalam, excêntricos ventos
assobiam gelados vindos das terras desérticas
sobre as montanhas. Janus, Senhor
do inverno e dos começos, fendido
e abalado, com duas faces, (...)
5. Terence Winch - Aquele Navio já Partiu

Em nossa antiga vida, comíamos sorvete e pudim
de pão. Bebíamos copo após copo de
Grand Marnier até ficarmos enjoados.
Nossa libido era grande como um outdoor.
Nossa libido era maior do que a tela
de um cinema drive-in no meio do nada,
exibindo intermináveis clássicos pornográficos
adolescentes. (...)
6. Dorianne Laux - Eu te desafio

É outono, e estamos nos livrando
dos livros, nos preparando para aposentar e
mudar para um lugar menor, mais
gerenciável. Vivendo ao contrário,
na nova casa à prova de idade, nada
no chão para tropeçar, nenhum obstáculo
para os vagarosos mecanismos de nossos corpos,
uma mesinha para dois. (...)
7. Dean Young - Ode às Cinzas

Quando a vi mais adiante, corri dois quarteirões
gritando seu nome; depois, percebendo que não era
você, mas uma sósia assustada, continuei
correndo, gritando agora aos céus, perpetuando
sua fama e seu brilho. (...)
8. Julia Hartwig - Assim Será

Tudo retornará
E não será em forma de cinzas ou ruínas
tudo será como antes da extinção

à vista e em flor
Amizades não desfeitas
poços não envenenados
combates ainda repletos de esperança de êxito (...)
9. Tony Harrison - Longa Distância II

Daqueles que se encontravam à mesa do café
onde, no meio-dia de inverno, um jardim de gelo reluzia nas vidraças,
só eu sobrevivi.
Eu poderia entrar ali se quisesse
e, tamborilando meus dedos em um frio vazio,
convocar as sombras. (...)
10. Aleksandr Blok - Cleópatra

O museu triste da rainha
Há um, dois, três anos já se abriu.
Bêbada e louca a turba ainda se apinha…
Ela espera no túmulo sombrio. (...)
11. Anna Akhmátova - Cleópatra

Ela já beijara os lábios de Antônio, sem vida,
E chorava, de joelhos, ante Augusto, vencida…
E os servos a traíram. Sob a águia de Roma
As trombetas ressoam. E o crepúsculo assoma. (...)
12. Sharon Olds - Cemitério de Leningrado, Inverno de 1941

Naquele inverno, os mortos não puderam ser enterrados.
O solo estava congelado, os coveiros fracos de fome,
a madeira dos caixões era usada como combustível. Por isso, eles foram cobertos com algo
e levados em um trenó de criança para o cemitério,
no ar abaixo de zero. (...)
13. Mary Oliver - Quebra

Eu desço até a beira-mar.
Como tudo cintila na luz matutina!
A cúspide da concha,
o búzio quebrado do caracol,
os mexilhões azuis abertos,
lesmas-do-mar rosa-pálidas marcadas por cracas — (...)
14. John Updike - A Morte da Cachorra

Ela deve ter sido chutada ou atropelada por um carro sem que víssemos.
Muito nova para saber muito, ela começava a aprender
A usar os jornais espalhados pelo chão da cozinha
E a ganhar, quando os molhava, as palavras “Boa garota! Boa garota!” (...)
15. Mark Strand – Meu Nome

Certa noite, quando a relva estava verde-dourada
e as marmóreas árvores à luz do luar se erguiam como novos memoriais
no ar perfumado, e toda a paisagem pulsava
com o zumbido e o murmúrio dos insetos, eu me deitei na grama
sentindo a vastidão abrir-se acima de mim, e me perguntei
o que eu me tornaria – (...)
16. Dorianne Laux - Da gentileza de estranhos

Não importa a dor, seu peso,
somos obrigados a carregá-la.
Erguemo-nos e ganhamos impulso, a força monótona
que nos empurra através da multidão.
Mas então um garoto me dá instruções
com tanto entusiasmo. (...)
17. Dan Albergotti - Considere as Flores do Campo

Os grãos
espalhados no chão
buscam um ponto de arrimo
que consigam encontrar no terreno,
abrem-se, estendendo pés embrionários
como luminescentes raios e passos retardatários
para achar o nutrimento mais próximo e sugá-lo. (...)
18. Charles Simic - Minha Contenda com o Infinito

Eu preferia o fugaz,
Como a lembrança de um gole de vinho
De nobre safra
Na língua, de olhos fechados… (...)
19. Emily Montgomery - Algo Bonito

Eu quis reservar algo bonito para você.
As últimas três joias de romãs reluzentes
equilibradas na palma da minha mão antes que eu as comesse.
O canto matinal dos pássaros no limoeiro depois de você ter ido trabalhar,
a lembrança da chuva da noite passada ainda impressa no gramado. (...)
20. Li-Young Lee - O Grande Relógio

Quando o grande relógio da estação parou,
as folhas continuaram a cair,
os trens continuaram a circular,
o cabelo da minha mãe continuou a crescer, ainda mais negro,
e o corpo do meu pai continuou a encher-se de tempo. (...)
21. Thomas Lux - Irreconciliabilidade

Não importa o que você faça,
não é possível retê-lo por muito tempo,
nem trazê-lo de volta.

O céu, o céu vazio,
quase azul, as casas modestas do sono,
cobertas de musgo, irão chamá-lo. (...)
22. Faith Shearin - O que eu Gosto

Não da festa em si — um turbilhão de momentos desconfortáveis e risos
que, na verdade, querem dizer outra coisa. Não do momento logo após o fim
da festa, quando nos jogamos no sofá, pratos espalhados por toda parte,
bitucas de cigarro flutuando no refrigerante, um único pedaço intocado de torta

sobre a mesa de centro. (...)
23. Nuno Júdice - Como Aves, Cuja Passagem

Como sombras passaram entre nós,
como sombras. Uma vez perante alguns amigos
e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei
os seus nomes. Mas o que não correspondia
a um acto heroico, nada significava
hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos. (...)
24. W. S. Merwin - Um Retrato

á é quase o dia do seu aniversário e
enquanto me visto sozinho em casa
um botão se solta e assim que encontro
uma agulha com um buraco suficientemente grande
para eu passar a linha
e finalmente costurar o botão
abro uma velha foto sua
que sempre fazia essas coisas por mágica (...)
25. Chad Frame - Área de Fumantes

Páscoa, e o recinto de vidro está embaçado
como um olho remelento. Os velhos fumam,
ofegantes em seus bonés e cadeiras de rodas.

Trouxemos o cachorro do meu pai. Eu sei que não é
um cachorro de homem, anuncia ele, o chihuahua
repousando na colcha azul cobrindo seu colo. (...)
26. Jan Heller Levi - Nada mal, pai, nada mal

Acho que você é mais você mesmo quando está nadando;
fatiando a água a cada braçada,
a maneira engraçada como respira, a boca arqueada
como se estivesse bocejando. (...)
27. Tomas Tranströmer - Postais Pretos

(...) II

No meio da vida, eis que a morte chega
e tira nossas medidas. Essa visita logo
é esquecida, e seguimos com a vida. Mas a veste
segue sendo silenciosamente cosida.
28. Timothy Liu - Thoreau

Meu pai e eu não temos para onde ir.
Sua esposa não nos deixa entrar em casa —
medo de contrair AIDS. Ela acredita que
dormir com homens é pior do que um pecado,
meu pai diz, enquanto nos sentamos no meio-fio
em frente à casa dos vizinhos. (...)
29. Larry Levis - Estrelas de Inverno

Certa vez, meu pai quebrou a mão de um homem
No escapamento de um trator John Deere. O homem,
Rubén Vásquez, queria matar o próprio pai
Com uma faca de fruta afiada, & segurava
A ponta curva dela, levemente, entre os dois
Primeiros dedos, para cortar
Horizontalmente, & com surpreendente graça,
A garganta. (...)
30. Ada Limón – A Capa de Chuva

Quando o médico sugeriu cirurgia
e uma órtese por toda minha infância,
meus pais se apressaram em me levar
à fisioterapia, massagens intensas,
osteopatia, e logo minha coluna torta
desenrolou-se um pouco, pude respirar novamente,
e me movimentar mais, um corpo livre
da dor. (...)
31. Ted Kooser - Pais

Meus falecidos pais tentam se manter fora do meu caminho.
Quando entro em um cômodo, eles já o deixaram,
foram procurar o que precisa ser feito
em outra parte da casa, meu pai com o aspirador,
minha mãe com pano de pó e o lustra-móveis. (...)
32. Marie Howe - A Menina

Tão perto do fim de minha vida fértil e
ainda sem filhos

– se eu pudesse lembrar de um dia sequer em que era puramente uma menina
e ainda não uma mulher –

mas não creio que tenha havido um dia assim para mim. (...)
33. Tung-Hui Hu - Como Cuidar?

Naquele mês, eu me perguntava onde eles se reuniam,
antes dos hospitais, antes da ala oncológica,
dos cuidados intensivos, das urgências.

Naquele tempo, tudo era urgente, amarrar
mãos e pés, imobilizar o corpo
antes que pudesse se transformar em cadáver. Agora
é mais fácil, olhar fotografias em vez disso, (...)
34. Patrick Philips - Matinê

Após a biópsia,
após a cintilografia óssea,
após a consulta e o choro,

por algumas horas ninguém conseguia encontrá-los,
nem mesmo minha irmã,
porque acontece que

eles tinham ido ao cinema. (...)
35. Rachel McKibbens - Sem Título

(...) E vocês ouvirão a si mesmas dizendo:

Último amor, desejo morrer para poder voltar para ti
nova e nunca provada por nenhuma outra boca além da tua.
E quero ser as mãos que tiram teus filhos
de dentro de ti e os guardam profundamente dentro de mim, até estarem
prontos para serem filhos de um amor tão real e impressionante.
Ou vocês vão dizer: (...)
36. Ada Limón - Antes

Descalça e usando um capacete
vermelho reluzente, eu cavalgava
na garupa da Harley do meu pai
aos sete anos de idade.
Antes do divórcio.
Antes do novo apartamento.
Antes do novo casamento.
Antes da macieira. (...)
37. Adam Zagajewski - Tente Louvar o Mundo Mutilado

Tente louvar o mundo mutilado.
Lembre-se dos longos dias de junho,
dos morangos silvestres e das gotas de vinho rosé.
Das urtigas que metódicas invadem
as propriedades abandonadas dos exilados.
Você deve louvar o mundo mutilado.
Você observou os elegantes iates e navios;
um deles tinha uma longa jornada pela frente,
enquanto o salino esquecimento aguardava os demais. (...)
38. Fleur Adcock - O Hospital Soho para Mulheres

Estou no supermercado, hesitante –
nesta tarde, precisamente nela –
entre os tomates, o queijo e os pães,

coisas que uso como ingredientes
para preparar meu jantar, e elas
comem na cama suas refeições: (...)
39. Ed Madden - Sacrifício

Quando meu pai me amarrou, eu me submeti,
fechei os olhos para a faca em seu punho.
Mesmo agora, as cordas ainda prendem meus pulsos,
rudes amarras do amor. (...)
40. Theodore Roethke - Elegia para Jane

Lembro-me dos cachos no pescoço, úmidos e macios como gavinhas;
E do olhar ligeiro, peixinho sorrindo de soslaio;
E como, ao começar a falar, as sílabas leves fluíam para ela.
Ela se equilibrava no deleite de seus pensamentos,
Uma ave, feliz, cauda ao vento,
Sua canção fazendo tremer os ramos e os pequenos galhos.
A sombra cantava com ela;
Os sussurros das folhas se tornavam beijos;
E o mofo cantava nos vales descoloridos sob a rosa. (...)
41. Sue Boyle - Um Centro de Lazer é Também um Templo do Saber

A garota de cor dourada no vestiário feminino
está empenhada em tornar seu corpo mais belo:
ela flexionou e tonificou cada músculo com um mergulho matinal
e removeu os resíduos químicos de piscina
usando um esfoliante aromático e suave. (...)
42. Colette Bryce - Versão Inicial

Nosso embarcação tardou a alcançar Betsaida; os ventos nos oprimiam,
rápidos e gelados, e nossas mãos estavam cheias de bolhas dos remos.
Tínhamos esgotado nosso estoque de canções e gracejos, com quilômetros
ainda por percorrer, quando Jesus falou: (...)
43. John Burnside - História

Hoje
enquanto empinávamos pipas
– a areia se desfazendo em fitas ao longo da praia
e o cheiro de gasolina de Leuchars1 flutuando sobre
os campos de golfe;
a maré alta distante
cinza-codorna;
pessoas
correndo, ou parando para observar
enquanto os aviões de guerra decolavam e circulavam
na luz matinal –
(...)
44. Malena Mörling - Viajando

Como postes de luz
ainda acesos
após o amanhecer,
os mortos
nos encaram
de fotografias
emolduradas. (...)
45. Linda Pastan - Instruções

Você deve embalar sua dor em seus braços
até que ela adormeça, e depois deixá-la

em um quarto escuro
e sair na ponta dos pés.

Por um momento, você sentirá
o vazio da paz. (...)
46. Paul Guest - Elegia Universal

Pelo sol, que se apagará ou se esgotará
ou dramaticamente implodirá em uma era
futura tão terrível quanto esta. Pelo
cervo com um chifre só que expirou a caminho
de um santuário ao norte
porque sim. Pela sequoia-túnel,
arrancada em uma tempestade
outro dia. Pela minha fantasia de infância
em atravessa-la. Pela Califórnia. (...)
47. Paul Bailey - Noturno

Certa vez, conheci um homem que desejava nunca ter nascido.
Ele falava sério quando dizia isso.
Ele não era um poseur.
Nos poucos e radiantes anos em que o conheci,
Ele nunca falava para causar impacto. (...)
48. Mary Oliver - Rosas no Final do Verão

O que acontece
com as folhas depois
que ficam vermelhas e douradas
e caem? O que ocorre

com as aves canoras
quando não podem mais
cantar? O que acontece
com suas asas ágeis? (...)
49. Seamus Heaney - Tempestade na Ilha

Estamos preparados: construímos baixas nossas casas,
cobrimo-las com boa ardósia e embutimos as paredes na rocha.
Esta terra ressequida nunca nos incomodou
Com feno, logo, como você pode ver, não há pilhas
De palhas que possam ser perdidas. Nem árvores
Que possam estar presentes quando ela atinge toda
Sua potência: você sabe o que eu quero dizer – folhas e galhos
Podem formar um coro trágico em uma tempestade,
De modo que você ouve o que teme,
Esquecendo que aquilo está atingindo também a sua casa. (...)
50. Ronald Wallace - Fora do Registro

No sótão, encontro as anotações
que ele fez na universidade
há mais de quarenta anos: viva
o feriado de Ação de Graças!, ele escreveu
nas margens da Psych 102.
E por um momento posso vê-lo lá,

sentir a exuberância fluindo
naquela estranha célula do seu corpo
onde ainda permaneço
um código secreto incompleto, um fragmento
de DNA, alguma matéria estelar ancestral. (...)
51. Matt W. Miller - Clube Ícaro

Não estamos no ar por mais do que alguns
segundos prateados quando aquele rapaz
alado e arrogante é sugado
por uma das turbinas, iniciando um incêndio
que arranca a asa de estibordo
da fuselagem, arremessando
passageiros, fazendo-nos chover
sobre o norte da Califórnia, dezenas
de nós caindo em direção à baía
e você pode imaginar os gritos, (...)
52. Rigoberto González - Casa

Não sou sua mãe, não me comoverei
com o sofrimento ou a gratidão de homens
que lamentam como órfãos à minha porta.
Não sou uma igreja. Não respondo às
orações, mas nunca as rejeito. (...)
53. Laura Kasischke - A Palma

Vejo que você terá uma vida comum, talvez
tenha filhos, talvez se case com
um homem amável, mas pouco
notável. Aguarda-lhe
uma viagem simples
(Cataratas do Niágara? Parque Yellowstone?). Embarque
nela. Faça
as escolhas que precise fazer: pintar
de azul o banheiro de cima, mudar-se
para o Wisconsin. Não importa.
Mas aqui, aqui nesta linha, esta linha
como uma cicatriz em sua mão — aqui
vejo algo mais. (...)
54. Sarah Freligh - Maravilhoso

Estou voltando da escola quando o rádio
fala de E.B. White, seu aniversário, e eu saio
do aqui e agora da rodovia na hora do rush,

e viajo de volta ao passado, onde minha mãe está lendo
para mim e minha irmã a parte em que Charlotte põe seus ovos
e morre, e embora esta seja a quinta vez que Charlotte

morre, (...)
55. Edward Thomas - Adlestrop

Sim, lembro-me bem de Adlestrop —
Do nome, porque num certo dia
De calor o trem ali parou
Do nada. Junho se consumia. (...)
56. Franny Choi - Pós-morte

Para responder à sua pergunta, sim,
me vejo querendo cada vez menos
transar com o rapaz morto que foi meu
antes de não ser mais nada. (...)
57. Kim Addonizio - Comendo Juntas

Sei que minha amiga está partindo,
embora ela ainda esteja sentada
à minha frente no restaurante
e se incline sobre a mesa para mergulhar
seu pão no azeite do meu prato; sei
como o cabelo dela costumava ser espesso,
e o que custa para ela deixar de lado
seu boné masculino no meio da refeição,
olhar diretamente para o jovem garçom
e sorrir quando ele pergunta
se estamos gostando. (...)
58. Patrick Kavanagh - Raglan Road

Na Raglan Road, em um dia de outono, uma vez a conheci e sabia
Que suas mechas escuras lançariam uma urdidura que me apanharia;
Eu enxerguei o perigo, mas continuei pela viela encantada,
E disse: que a aflição seja uma folha no chão ao despontar da alvorada. (...)
59. William Stafford - Viajando na Escuridão

Viajando na escuridão, encontrei um cervo
morto à margem da estrada junto ao Rio Wilson.
Geralmente é melhor rolá-los para o cânion:
a estrada é estreita; desvios poderiam causar mais mortos. (...)
60. Thomas Ligotti - Memento

Você pretendia cuidar de tudo
e organizar seus assuntos.
Mas o inesperado aconteceu
e não houve tempo.

Mais tarde, os entes queridos vieram,
se desfizeram de algumas coisas
e deixaram outras de lado:
lembranças ou objetos de valor. (...)
61. James Davis May - Lei da Silva

Até na noite em que meu amigo morreu
depois de uma longa doença —
não vou usar a palavra
batalha,
pois o câncer havia desaparecido,
e depois voltou, como algum assassino de filmes de terror —
até naquela noite, a gata selvagem, aquela
branca e fofa e às vezes afável,
ainda cruzava nossa garagem, silenciosamente,
dos pinheiros do vizinho até nossos rododendros,
até naquela noite, ela procurava algum roedor
ou pássaro para aterrorizar e mutilar
e talvez até matar. (...)
62. Maria Popova - Último da Espécie

O chilrear sincopado
do último Moho braccatus –
um pequeno pássaro
havaiano já extinto –
foi extraído de uma bobina
no arquivo de som
da biblioteca britânica. (...)
63. Sharon Olds - Volto a Maio de 1937

Vejo-os parados nos portões solenes de suas faculdades,
vejo meu pai caminhando
sob o ocre arco de arenito, os
azulejos vermelhos brilhando como placas
de sangue atrás de sua cabeça,
vejo minha mãe carregando alguns livros leves
parada ao pé do pilar feito de pequenos tijolos,
o portão de ferro fundido ainda aberto atrás dela, as
pontas afiadas brilhando no ar de maio,
eles estão prestes a se formar, estão prestes a se casar,
eles são crianças, são tolos, tudo o que sabem é que são
inocentes, que nunca machucariam ninguém. (...)
64. Mary Oliver - Robert Schumann

Mal passa um dia sem que eu pense nele
no hospício: mais jovem

do que sou agora, trilhando a longa estrada
da loucura em direção à morte.

Sua música explode pelo
mundo todo, de um modo que ele

nunca imaginou. E agora compreendo
algo tão assustador e maravilhoso –

como a mente se apega ao caminho conhecido, precipitando-se
pelos cruzamentos, agarrando-se

como fiapo ao que lhe é familiar. (...)
65. Theodore Roethke - O Campo Distante

I

Sonho com viagens repetidamente:
Em voar como um morcego por um túnel estreito
Em dirigir sozinho, sem bagagem, por uma longa península
A estrada ladeada por uma vegetação rala carregada de neve,
Uma neve fina e seca atingindo o para-brisas,
Neve e granizo alternados, nenhum tráfego em sentido contrário,
E nenhuma luz atrás, no embaçado espelho lateral,
A estrada mudando de asfalto vitrificado para cascalho de pedras,
Terminando finalmente em um desolado sulco na areia,
Onde o carro se detém,
Preso em um monte de neve
Até os faróis se apagarem. (...)
66. Jen Lambert - Um Grande Cômodo Vazio

Quando recebemos o resultado, meu pai me envia uma mensagem.
Ele diz que deveríamos esperar para contar a ela.
Ele diz: deixe-a ter mais um Natal feliz,
o que significa que ele quer ter mais um Natal feliz,
o que significa que ele está com medo. (...)
67. Kim Addonizio - O que os Mortos Temem

Em noites de inverno, os mortos
veem suas fotografias escorregarem
das abas das carteiras,
e suas cartas serem jogadas numa caixa
junto com as roupas para doação.
Ninguém se lembra de suas piadas,
dos tiques nervosos, do medo
de lugares fechados. (...)
68. Mary Oliver - A Tartaruga

irrompe da pele arroxeada
da água, arrastando sua carapaça
com escamas musgosas
através das águas rasas, entre os juncos
e pelos lodaçais, para a elevação,
até a areia dourada,
para cavar, com suas patas desajeitadas,
um ninho, e ali se abaixar, expelindo
seus ovos brancos
na escuridão, e você pensa (...)
69. Juana Bignozzi - [agora que estou velha]

agora que estou velha
e és um senhor idoso
gostaria que recordasses apenas
das fotos das viagens
dos vestidos leves e floridos (...)
70. Raymond Carver - Luto

Acordei cedo esta manhã e da minha cama
olhei para longe através do Estreito e vi
um pequeno barco movendo-se na água agitada,
com uma única luz acesa. (...)
71. Sharon Olds - Tudo

A maioria de nós jamais foi concebida.
Muitos de nós nunca nascemos —
sobrevivemos em um mar solitário por horas,
semanas, com membros extras ou ausentes,
ou segurando nos braços nossa pobre segunda cabeça,
que brota de nosso peito. (...)
72. Mary Oliver - Hospital Universitário de Boston

As árvores no gramado do hospital
são frondosas e exuberantes. Elas também
recebem os melhores cuidados,
como você e os muitos anônimos,
nos quartos limpos acima desta cidade,
onde dia e noite os médicos continuam
chegando, onde máquinas intrincadas
registram com fria devoção
o sussurro do sangue,
o lento remendar dos ossos,
o desespero da mente. (...)
73. José Infante - Corpo Estranho

Como é lógico e natural que aconteça,
meu corpo vem mudando ao ritmo
implacável dos anos. Rugas, flacidez,
deterioração total por todos os lados, os olhos apagados
e sem brilho. E no olhar opaco nada
que anteveja o futuro. (...)
74. Sharon Olds - Tudo 

A maioria de nós jamais foi concebida.
Muitos de nós nunca nascemos —
sobrevivemos em um mar solitário por horas,
semanas, com membros extras ou ausentes,
ou segurando nos braços nossa pobre segunda cabeça,
que brota de nosso peito. (...)
75. Mary Oliver - Hospital Universitário de Boston

As árvores no gramado do hospital
são frondosas e exuberantes. Elas também
recebem os melhores cuidados,
como você e os muitos anônimos,
nos quartos limpos acima desta cidade,
onde dia e noite os médicos continuam
chegando, onde máquinas intrincadas
registram com fria devoção
o sussurro do sangue,
o lento remendar dos ossos,
o desespero da mente. (...)
76 - Sharon Olds - Depois de 37 anos...

Quando você se inclinou para mim, braços abertos,
como quem tenta atravessar uma fogueira,
quando você cambaleou em minha direção, gritando
que sentia muito pelo que havia feito comigo, seus
olhos se enchendo de um líquido terrível como
bolhas de mercúrio de um termômetro partido
deslizando pelo chão, quando você bradou baixinho
A quem mais eu poderia recorrer? Quem mais eu tinha? (...)
77. Mark Strand - Um fragmento da tempestade

Da sombra dos domos na cidade dos domos,
Um floco de neve, uma nevasca de um único floco, leve, adentrou seu quarto
E flutuou até braço da cadeira onde você, erguendo os olhos
Do livro que lia, o percebeu no instante em que pousou. (...)
78. Susan Browne - Estranha Ode

As árvores no gramado do hospital
são frondosas e exuberantes. Elas também
recebem os melhores cuidados,
como você e os muitos anônimos,
nos quartos limpos acima desta cidade,
onde dia e noite os médicos continuam
chegando, onde máquinas intrincadas
registram com fria devoção
o sussurro do sangue,
o lento remendar dos ossos,
o desespero da mente. (...)

Clique aqui, aqui e aqui e veja também as Retrospectivas dos anos de 2021, 2022 e 2023.

Retrospectiva 2023

E assim, mais um ano se foi. Veloz como um pássaro em voo, impulsionado pela velocidade dos eventos climáticos extremos. Mais um ano marcado pelo terror, destruição e pelas indignidades das guerras e massacres (e nisso a humanidade nunca falha: todo ano, a guerra – esse servidor público do extermínio – bate o ponto em 1º de janeiro e, sem tirar férias ou abonar faltas, segue trabalhando incessantemente). Ano das migrações climáticas e daquelas causadas pelas guerras civis, conflitos armados e pobreza extrema. Ano em que a concentração de riqueza nas mãos de poucos aumentou vertiginosamente, levando ao empobrecimento de nações inteiras.

Foi também o ano em que perdemos Botero, De Masi, Tonny Bennett, Zé Celso, Astrud Gilberto, Rita Lee, Boris Fausto, Juca Chaves, o cartunista Paulo Caruso, Gina Lollobrigida, e, mais perto do universo desta página, a grande Louise Glück.

Em meio a tanta desolação, um alívio: 2023 foi também o ano em que o Brasil se livrou de uma grande catástrofe, para dizer o mínimo. As sombras do recrudescimento do fascismo – que tem varrido o mundo nesses tempos incertos – ainda pairam sobre nós, é verdade, mas, por enquanto, estamos livres delas.

Não, não me permito crer em grandes mudanças para melhor a curto ou médio prazo. Quisera ter o otimismo da sempre perspicaz Dorianne Laux que um dia escreveu:

Se estamos fraturados,
assim o estamos
como estrelas
feitas para brilhar
em todas as direções,
por qualquer dimensão,
bilhões de anos
desde então.

Não lamentarei
o humano, ainda não.
Há algo mais
por vir, nossos corações
são como uma mina de ouro
inexplorada,
um mar desconhecido.

Nada se foi para sempre.
Se viemos do pó
e ao pó voltaremos,
então podemos descobrir o
caminho para qualquer coisa.

Ainda não se sabe
do que somos capazes,
por isso, agora mesmo, eu nos elogio
antecipadamente.

Dorianne Laux – De qualquer forma

Não é o meu caso. Mas, se é assim, sempre podemos nos abrigar no agora, no hoje, que, fundamentalmente, é tudo o que temos de concreto.

Portanto, carpe diem!

Vivamos o efêmero hoje, da melhor maneira possível, que do futuro nada sabemos.

A seguir, apresento a tradicional retrospectiva dos poemas e textos que, a meu critério, foram os mais significativos publicados na página ao longo de 2023. Espero que desfrutem desta seleção.

Desejo a todos um feliz 2024!

1. Juan Vicente Piqueras - Como Estás

Morri na última terça-feira e ninguém notou.

O mundo permaneceu o mesmo, mudando e imutável.
Não houve furacão, anúncio, tempestade
ou nuvens por entre as quais surgisse
aquele raio de luz que aparecia
nas capas dos catecismos. (...)
2. Don Peterson - Compaixão

Ela podia ter meses de sua vida canina,
mas para ser o quê? Ela estava leve como um ninho,
o dia todo sob suas longas orelhas
ouvindo em seu próprio peito um rádio em desalinho. (...)
3. Matthew Olzmann – Carta à pessoa que gravou suas iniciais no mais antigo pinheiro de folha longa da América do Norte

Diga-me como é viver sem
curiosidade, sem sentir admiração. Navegar
em águas cristalinas, desviando os olhos
dos recifes de algas que ondulam
abaixo de você, ignorando o cintilar
das escamas de sereias no nevoeiro,
olhando para o mundo e sentindo
apenas tédio. (...)
4. Judith Hemschemeyer - Naquele Verão

Naquele verão
depois que você se enforcou
sem perguntar
a ninguém que o amava
se eles podiam suportar

dei por mim arrastando mangueiras (...)
5. Dan Albergotti – Coisas para fazer no ventre da baleia

Meça as paredes. Conte as costelas. Registre os longos dias.
Olhe para o céu azul por entre os esguichos. Faça pequenas fogueiras
com os cascos partidos dos barcos de pesca. Pratique sinais de fumaça.
Ligue para os velhos amigos e escute os ecos de vozes distantes. (...)
6. Ursula K. Le Guin – Parentesco

Ardendo muito lentamente, a grande árvore da floresta
se ergue da sutil cavidade de neve
derretida ao seu redor pelo brando e duradouro
calor de seu ser e de sua vontade de ser
raiz, tronco, ramo, folha, (...)
7. Ruth Lepson – No dia da audiência do nosso divórcio

você me convidou para almoçar em uma cantina.
Nunca tínhamos sido tão gentis um com o outro.
Quando você disse que eu ainda era uma desleixada, nós rimos.
Depois do almoço, ficamos no estacionamento. (...)
8. Linda Pastan – A filha

Gostaria de ter tido outra chance
com o meu pai, desempenhado
um papel diferente
no drama da minha infância. (...)
9. Czesław Miłosz – Café

Daqueles que se encontravam à mesa do café
onde, no meio-dia de inverno, um jardim de gelo reluzia nas vidraças,
só eu sobrevivi.
Eu poderia entrar ali se quisesse
e, tamborilando meus dedos em um frio vazio,
convocar as sombras. (...)
10. Mary Oliver – Garças

Onde o caminho
se encerrava,
por entre folhas matizadas,
galhos caídos,
através de nodosas salsaparrilhas,
eu continuei. Por fim,
não pude
salvar meus braços
dos espinhos; (...)
11. Czesław Miłosz – Uma vida afortunada

Sua velhice coincidiu com os anos de colheita abundante.
Não houve terremotos, secas ou inundações.
Dir-se-ia que a mudança das estações ganhava em regularidade,
As estrelas se fortaleciam e o sol aumentava seu poder.
Mesmo em províncias remotas nenhuma guerra foi travada. (...)
12. Adam Zagajewski – Um breve poema

Eu ouvia cânticos gregorianos
num carro em alta velocidade
em uma rodovia na França.
As árvores passavam velozes. As vozes dos monges
entoavam preces a um deus invisível
(ao amanhecer de uma capela tremendo de frio). (...)
13. Thom Gunn – Natureza morta

Não esquecerei tão cedo
A pele amarelo-acinzentada
À qual o rosto se havia fixado:
Pálpebras apertadas: nada dele,
Nenhum tremor interior,
Brincava na superfície.
Ele ainda respirava, e contudo
Esta era uma obscura habilidade. (...)
14. David Wagoner – Perdido

Permanece imóvel. As árvores à frente e os arbustos ao teu lado
Não estão perdidos. Onde quer que estejas é chamado de Aqui,
E deves tratá-lo como um poderoso estranho,
Pedir permissão para conhece-lo e ser conhecido. (...)
15. Brad Aaron Modlin – O que você perdeu no dia em que não foi à aula

A Sra. Nelson explicou como ficar imóvel e ouvir
o vento, como encontrar sentido em encher o tanque,

como descascar batatas pode ser uma forma de oração. Ela respondeu
a perguntas sobre como não se sentir perdido no escuro. (...)
16. Danusha Laméris – Nada quer sofrer

Nada quer sofrer. Nem o vento
que arranha contra a encosta. Nem o penhasco

sendo devorado, lentamente, pelo mar. A terra não quer
sofrer o pisoteio bruto de quem a ignora.

As árvores não querem sofrer o machado, nem ver
suas irmãs derrubadas pela podridão, pelo mofo e oxidação de suas raízes. (...)
17. Eugenio Montale – O lago de Annecy

Não sei por que minhas memórias te relacionam
ao lago de Annecy
que visitei alguns anos antes de tua morte.
Mas na época eu não pensava em ti, era jovem
e julgava ser o senhor do meu destino. (...)
18. Alex Dimitrov – Os anos

Todas as festas que você frequentou
observando o salão
de uma sacada
onde alguém se juntou a você
para fumar e depois voltou. (...)
19. Rosanna Warren – Lago

Você estava com água até as coxas e a luz verde refletia
nas cavidades dos seus quadris e no estômago, que é onde a chama piloto
ardia nas antigas estátuas de Dionísio,
e por um momento, enquanto você caminhava mais em direção ao fundo, parecia que
aquela água poderia lavar o peso
de suas próprias estações e de doenças que não eram as suas: (...)
20. Paulo Henriques Britto – de “Oito sonetos entrópicos”

Deixar de ser é coisa natural,
como é natural ser. Pensando bem
(ou só pensando, seja bem ou mal),
o que haverá de natural, porém,
em ser o que se é, e não ser, apenas? (...)
21. Peter Sirr – Uma cartilha saxônica

Penso então em Borges ficando cego,
e no que ele disse sobre a alma.
Ele tentava entender por que
um homem que perde o mundo
busca espadas e monstros
e saxões com vozes rudes no Salão de Hidromel. (...)
22. Ted Kooser – Fazenda Abandonada

Ele era um homem grande, diz o tamanho
dos seus sapatos sobre uma pilha de pratos quebrados junto à casa;
um homem alto também, diz o comprimento da cama
no quarto do andar de cima; e um homem bom e temente a Deus,
diz a Bíblia com a contracapa arruinada
no chão abaixo da janela, empoeirada de sol;
mas não um fazendeiro, dizem os campos
cobertos por pedregulhos e o celeiro com goteiras. (...)
23. Charlotte Mew – Quartos

Lembro-me de quartos que tiveram relação
Com o constante esgotamento do coração.
O quarto em Paris, o quarto em Genebra,
O quarto pequeno e úmido com cheiro de algas
E aquele som da maré, enlouquecedor e perenal —
Quartos onde as coisas morriam — para o bem ou para o mal. (...)
24. Ada Limón – A rebitadora

O que eu não disse
quando ela me perguntou
por que eu sabia tanto
sobre morrer foi que,
para mim, aquilo era uma tarefa.
Quando papai ligou para dizer
que tínhamos um mês, eu fiz uma lista. (...)
25. Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami

As traduções que fiz da série de poemas e elegias que Jack Gilbert escreveu em homenagem à sua falecida esposa, Michiko Nogami. Uma nota introdutória sobre o poeta, sua esposa e os poemas/elegias acompanha o primeiro poema da série - "I - Noites e manhãs sem fim"
26. Zbigniew Herbert – Uma vida

Eu era um rapaz sossegado, um tanto sonolento e — surpreendentemente —
ao contrário dos meus colegas — que ansiavam por aventuras —
não nutria grandes expectativas — não costumava olhar pela janela
Na escola, era mais diligente do que competente — dócil e estável (...)
27. Gwen Harwood – No parque

Ela se senta no parque. São antiquados os seus trajes.
Duas crianças choram e brigam, puxam-lhe o babado.
Uma outra traça padrões ao acaso no gramado
Alguém que há muito tempo ela amou passa – tarde (...)
28. W. S. Merwin – Para o aniversário da minha morte

Todo ano, sem perceber, passo pelo dia
Em que as últimas chamas acenarão para mim
E o silêncio colocar-se-á a caminho
Infatigável viajante
Como os feixes de uma estrela sem luz (...)
29. Hayden Carruth – Ensaio

(...) Eles estão partindo – seus pelos e seus olhos selvagens,
suas vozes. Cervos saltam e saltam na frente
de estridentes snowmobiles até saltarem para
fora da existência. Falcões circulam uma ou duas vezes
acima de seus ninhos destruídos e depois sobem
até as estrelas. (...)
30. Ada Limón – O real motivo

Eu não tenho nenhuma tatuagem, elas não fazem parte da minha história, e sim da história
de minha mãe. Certa vez, caminhando pela Bedford Avenue quando tinha vinte e poucos anos,

liguei para ela como costumava fazer, como faço. E disse-lhe que queria uma
tatuagem na nuca. Algo discreto, mas permanente,

e como ela é uma artista, eu queria que ela fizesse a arte, um símbolo —
um peixe com o qual eu sonhava todas as noites. (...)
31. Patrizia Cavalli – Agora que

Agora que o tempo parece ser todo meu
e ninguém me chama para almoçar ou jantar,
agora que posso ficar observando
como uma nuvem desbota e se desfaz,
como um gato atravessa o telhado
no imenso luxo de uma aventura, (...)
32. Yusef Komunyakaa – Ode à Larva

Irmã da mosca-varejeira
& da divindade, você faz mágica
Nos campos de batalha,
Em pedaços de carne suína estragada

& em lugares sujos. Sim, você
Chega à raiz de todas as coisas.
Você é sólida & matemática. (...)
33. Filodemo de Gádara – Estação da Rosa Silvestre

É a estação da rosa silvestre e da hortelã, Sosylos,
a estação do grão-de-bico e dos primeiros cortes dos brotos,
dos lambaris e dos queijos salgados, da alface-crespa
em cujas novas folhas a luz transfunde
um brilho quase esquecido. Ainda assim,
reparaste como neste ano algo mudou? (...)
34. James Tate – A promoção

Eu já fui um cachorro em minha vida passada, um cachorro
muito bom, e, por isso, fui promovido a ser humano.
Eu gostava de ser um cachorro. Trabalhava para um fazendeiro pobre,
protegendo e pastoreando suas ovelhas. Lobos e coiotes
tentavam passar por mim todas as noites, mas eu
nunca perdia uma ovelha. (...)
35. Thom Gunn – O atiçador

Quarenta e oito anos atrás —
Já se passaram mesmo quarenta e oito anos
Desde então?— eles forçaram a porta
Que ela havia barricado
Com o peso de uma escrivaninha inteira
Para que ninguém descobrisse, como eles descobriram,
o que ela havia bloqueado. (...)
36. David Wagoner – O silêncio das estrelas

Certa noite, no deserto de Kalahari, quando
Laurens van der Post1 disse aos bosquímanos
Que não conseguia ouvir as estrelas
Cantando, eles não acreditaram. Eles o olharam,
Meio sorridentes. Examinaram seu rosto
Para ver se ele não estava brincando
Ou enganando-os. (...)
37. Hala Alyan – Spoiler

(...) A água devora seu trabalho como uma revoada de pássaros selvagens. Há destroços.
Um farrapo de algas marinhas e sangue onde você arranhou seu braço
tentando resistir à correnteza. Pode demorar muito tempo para acontecer,
mas um dia enfim você deslizará novamente os dedos pela areia, colherá um punhado dela
e espalhará sobre um novo chão. (...)
38. Galway Kinnell – Shelley

Quando eu tinha vinte anos, o único espírito
verdadeiramente livre de quem tinha ouvido falar era Shelley,
Shelley, que escreveu tratados defendendo
o ateísmo, o amor livre, a emancipação
feminina, a abolição da riqueza e das classes sociais,
e poemas sobre a felicidade do amor romântico, (...)
39. Li-Young Lee – Comendo sozinho

Colhi as últimas cebolas frescas do ano.
O jardim está limpo agora. O solo está frio,
gasto e pardacento. O que resta do dia
arde nos bordos, nas bordas dos meus
olhos. Eu me viro, um cardeal desaparece.
Junto à porta da adega, lavo as cebolas,
depois bebo da gelada torneira de metal. (...)
40. Sharon Olds – Minha mão

Quando olho para a minha mão, e para o dorso do meu pulso,
brilhando com o petrolato que
esfreguei em suas fissuras — óleo mineral,
ceresina, lanolina, pantenol, glicerina,
bisabolol, vejo as rugas
finas, muitas formando losangos,
algumas delas longas cicatrizes vacilantes —
isso me parece comovente e afortunado. (...)
41. Lucille Clifton – Dois poemas

adão pensando

ela
roubou meu osso
não é de admirar
que eu anseie cavar de volta
para dentro desesperado
para reconectar costela e argila
e ser inteiro outra vez (...)
42. Philip Schultz – Fracasso

Para pagar o funeral do meu pai,
pedi dinheiro emprestado a pessoas
a quem ele já devia dinheiro.
Um deles o chamou de zé-ninguém.
Não, eu disse, ele era um fracassado.
Ninguém se lembra o nome
de um zé-ninguém, é por isso que
eles são chamados de zés-ninguém. (...)
43. Otto D’Sola – Plenitude

Da formiga à estrela mais alta, fomos capazes de tecer uma longa história que nunca acabará;
da rocha aos pinhais,
dos pântanos ao berço de um tênue vento recém-nascido, fomos capazes de dar ao solo duro e seco a alegria de contemplar uma estrela e uma flor aberta. (...)
44. Ann Fischer-Wirth – Milagre de um coração sagrado e três folhas de faia, cada uma machada de verde e carmesim

Agora, as traças comeram seu triste dicionário.
Uma vez, você esteve atrás do balcão,

laços em seus cabelos, medindo e cortando tecidos
para as damas rechonchudas. E agora uma pilha de Kleenex

sobe pelo seu cotovelo enquanto você lida com sua rinite.
Você se tornou uma caixa de sobras, cabelos ralos

e sem viço, unhas azuis de cianose. (...)
45. Stanley Kunitz – Cometa de Halley

A srta. Murphy, da primeira série,
escreveu o nome dele no quadro negro
com giz e nos contou que ele
viajava rugindo pelas trajetórias de tempestades
da Via Láctea a uma velocidade aterrorizante,
e que se ele desviasse do seu curso
e colidisse com a terra
não haveria aula no dia seguinte. (...)
46. Matthew Rohrer – Não há absolutamente nada mais solitário

Não há absolutamente nada mais solitário
do que o pequeno Mars Rover,
sempre em funcionamento, escavando
rochas, tão longe da Bond street
sob a chuva suave. (...)
47. Ada Limón – Notas sobre o Subterrâneo

Colossal caverna, diga-me, úmido calcário, rocha de arenito,
asa de morcego, cego e translúcido camarão-das-cavernas,

esta queda livre para além do desconhecido,
como se guardam segredos por tanto tempo? (...)
48. Diane Seuss – [Todas as coisas agora me lembram]

Todas as coisas agora me lembram de como o amor costumava ser. Taboas dilatadas em lugares
solitários. Condicionador viscoso em meus cabelos. Sólidos livros. Suas variegadas lombadas. (...)
49. James Tate – A volta para casa

Eu disse ao médico que nunca mais o veria. “Não, acho
que não”, ele disse. Saí pela porta me sentindo realmente bem.
Claro, eu sabia que ia morrer, mas ainda assim o dia parecia claro
para mim. Caminhei até o lago. Patos circulavam ao redor por ali. (...)
50. A. E. Stallings – Lógica de conto de fadas

Os contos de fadas estão repletos de tarefas irreais:
Juntar os pelos do queixo de uma cabra que os homens devora,
Ou cruzar um lago sulfúrico em uma danificada igara,
Escolher o príncipe de uma fila de máscaras iguais, (...)
51. Dennis Trudell – Conto de Feriado

Uma mulher nunca contou ao marido
ou a qualquer pessoa sobre o bilhete de amor
que recebera há trinta anos. Não havia
assinatura, e depois de tentar adivinhar inúmeras
vezes quem na cidade o enviara, ela
há muito aceitara que nunca o saberia. (...)
52. Jeffrey McDaniel – O mundo silencioso

Na tentativa de fazer as pessoas olharem
mais nos olhos umas das outras,
e também para apaziguar os mudos,
o governo decidiu atribuir
a cada pessoa exatamente cento
e sessenta e sete palavras por dia. (...)
53. Emily Bryant Voigt – A cúspide

Tão poucos pássaros — os que passam o inverno
e os gansos migrando pelos campos vazios,
atravessando as hastes retorcidas de milho cortado:
ao nosso redor, tudo o que é verde é suprimido,
e na melancólica floresta, as árvores nuas,
despidas de folhas ou quase sem elas,
formam uma morada sombria entre nuvens baixas
que têm o aspecto de neve obstinada. (...)
54. Sharon Olds – Destino

Finalmente desisti e me tornei meu pai,
sua face oleosa e abatida, brilhando para
qualquer pessoa que eu olhasse, seus olhos castanhos-lodo
em meu rosto, cintilando como chão molhado em que
as coisas que amamos caíram,
e se perderam para sempre. (...)
55. Lisel Mueller – Isso é o que você fará

O que você fez quando a geleira
cobriu sua boca com gelo
     quando suas escamas se desprenderam
e foram deixadas no chão para se deteriorar
     quando você parou de trilhar as águas
e começou a respirar o ar? (...)
56. Bob Hicok – Alzheimer

As cadeiras se movem sozinhas, assim como os livros.
Os netos vêm visitá-la, são
jovens e sem nomes, peças ausentes nos quebra-cabeças
de seus rostos. Ela é como um peixe

no oceano profundo, seu corpo é feito de luz. (...)
57. Ada Limón - Em um poste de luz, há muito tempo

Não sei por onde começar
na lista
de todas as coisas que estão desaparecendo: peixes, pássaros, árvores,
flores, abelhas,
e também idiomas. Dizem que, se as taxas históricas forem
calculadas,
um idioma morrerá a cada quatro meses. (...)
58. Jaime Manrique – O céu sobre a casa de minha mãe

É uma noite de julho
perfumada com gardênias.
Brilham a lua e as estrelas
sem revelar a essência da noite.
Ao longo do crepúsculo
— com suas gradações cada vez mais intensas de ônix,
e o resplendor dourado das estrelas e das sombras —
minha mãe arrumou a casa, o jardim, a cozinha. (...)
59. Philip Larkin – A casa está tão triste

A casa está tão triste. Ficou como foi deixada,
Moldada para o conforto dos últimos saintes
Querendo reconquista-los. Ao invés, despojada
De alguém para agradar, ela definha assim, carente
De um coração para esquecer que foi roubada (...)
60. Eavan Boland – Atlântida – Um soneto perdido

Como diabos aconteceu, eu costumava me perguntar,
de uma cidade inteira – arcos, pilares, colunatas,
isso sem falar nos veículos e animais – ter-se,
um belo dia, afundado? (...)

Clique aqui e aqui e veja também as Retrospectivas dos anos de 2021 e 2022.

Retrospectiva 2022

Segue abaixo uma relação dos melhores poemas publicados no blog no ano de 2022, em ordem cronológica pelo mês de postagem. Eu pretendia limitar a retrospectiva a um total de 50 textos, mas isso não foi possível. O ano foi fértil e tive a felicidade de traduzir e publicar muita coisa boa este ano, em número que supera o limite autoimposto. Paciência.

Dos internautas, espero, resignado, que apreciem a seleção. De mim mesmo, pretendo continuar com o blog no ano que vem. Minha motivação é que este é um hobby que pratico com enorme prazer e, por ora, não pretendo abandona-lo. Mas não só.

O constante aumento do número de internautas que visitam a página – o que vem ocorrendo ano após ano – é um estímulo a mais. E se tudo isso vier acompanhado de feedbacks sinceros dos internautas, melhor ainda. Portanto, amigos, sempre que puderem, comentem. Prometo não deixar ninguém sem resposta.

Feliz 2023 a todos!

1. William Ernest Henley - Invictus

No meio da noite que me abraça,
Negra como um Poço em sua inteireza,
Agradeço a cada Deus pela graça
De minha invencível natureza. (...)
2. Robyn Sarah – Ao fechar o apartamento dos meus avós de abençoada memória

E então eu me vi naquela sala pela vez final.
Mantive-me firme, com a chave em minha mão,
e ouvi o silêncio que era como um som,
e percebi como o longo sol da tarde invernal
baixava de maneira oblíqua ao chão
fazendo florir os veios do assoalho. (Tudo o que eles um dia
possuíram estava guardado aqui.) Na janela gemia
um estilhaço de vento. Em breve eu partiria. (...)
3. Agi Mishol – A mártir

Você tem apenas vinte anos
e sua primeira gravidez é uma bomba.
Sob sua folgada saia você está grávida de dinamite
e fragmentos de metal. É assim que você entra no mercado
tiquetaqueando entre as pessoas, você, Andalleb Takatka. (...)
4. Heather McHugh – O que ele pensou

Teríamos que fazer um trabalho na Itália
e, repletos dos nossos sentimentos por
nós mesmos (nossa sensação de sermos
Poetas da América) fomos
de Roma a Fano, conhecemos
o prefeito, refletimos
sobre alguns assuntos (o que é
uma piriguete, eles nos perguntaram; o que é
cerveja sem colarinho). (...)
5. Óssip Mandelstam – O ar foi todo bebido e o pão, corrompido…

O ar foi todo bebido e o pão, corrompido.
Cicatrizar as feridas é tão custoso!
O jovem José, ao Egito vendido,
Não poderia estar mais desgostoso! (...)
6. Reginald Gibbons – O que remanesce

Sim, o pão está envenenado. E não há sequer um gole de ar.
Como é difícil curar a ferida da vida.
O próprio José, vendido ao Egito como escravo,
não poderia ter ficado mais profundamente magoado. (...)
7. Jorge Valdés Díaz-Vélez – Polaroide

São sete contra a parede, em pé, e um sentado.
Mal conservam os traços desbotados
pelos anos. Os rostos resistem ao desgaste,
embora já não possuam as cores vivas
que ontem os distinguiram. (...)
8. Nicholas Christopher – Terminus

Eis uma leitura obrigatória
no final do nosso século
o final de um milênio que começou com as cruzadas

A transcrição de uma entrevista
entre um médico da Cruz Vermelha
e uma menina muçulmana de doze anos
na Bósnia
que descreveu os estupros que sofreu nas mãos de homens
que se autodenominavam soldados (...)
9. Ada Limón – Estrelas mortas

Aqui fora, até as árvores se curvam.
A mão gelada do inverno nas costas de todos nós.
Casca escura, folhas amarelas escorregadias, uma espécie de quietude
tão silenciosa que é quase de outra era. (...)
10. Robert Frost – Nada que é de ouro pode permanecer

No mundo, o ouro é o verde elementar,
Sua matiz mais difícil de conservar.
A flor é a sua inaugural semente;
Não obstante por um instante somente. (...)
11. Mary Oliver – A serpente negra

Foi quando a serpente negra
apareceu na estrada de manhã,
e o caminhão não conseguiu desviar –
morte, é assim que acontece. (...)
12. Wendell Berry – A cobra

No final de outubro
encontrei no chão da floresta
uma pequena cobra cujas costas
tinham o padrão da escuridão
das folhas mortas em que ela estava deitada. (...)
13. Marie Howe – O que os vivos fazem

Johnny, a pia da cozinha está entupida há dias, algum utensílio provavelmente caiu lá embaixo. E o Drano não está resolvendo mas cheira perigosamente, e a louça incrustada se amontoou

esperando pelo encanador que eu ainda não chamei. Este é o dia a dia de que falávamos. (...)
14. Ted Kooser – Voo noturno

Sobre nós, estrelas. Sob nós, constelações.
A cinco bilhões de milhas de distância, uma galáxia morre
como um floco de neve desfazendo-se na água. (...)
15. Juan Vicente Piqueras – Sai de ti

Não fujas do que sentes. Não te escondas
no que dizes. Não digas mentiras.
Sê tua voz. Faz. Trabalha. Não te queixes.
Não sofras por medo de sofrer mais. (...)
16. Linda Pastan – Considere o espaço entre as estrelas

Considere o espaço branco
entre as palavras em uma página, não só
as margens em torno delas.
Ou o espaço entre pensamentos:
os instantes em que a mente está inventando
exatamente o que pensa
e a boca espera
para ser preenchida com linguagem. (...)
17. Nickole Brown – Susto

Deixe-me dizer-lhe — nenhum animal de longe é o mesmo
que de perto. Ou seja, uma baleia em uma revista pode
parecer majestosa e livre, mas o que você não vê é
quão perto da superfície ela adormece,
como a luz a empola deixando-a em carne viva e como
as gaivotas rasgam sua pele queimada pelo sol, alçando ao ar
os bicos repletos de sua carne orgulhosa. (...)
18. David Whyte – O verdadeiro amor

Há fé em amar ferozmente
aquele que é seu por direito,
especialmente se você
esperou por anos e especialmente
se parte de você nunca acreditou
que poderia merecer esta
amada mão acenando
estendida para você desta forma. (...)
19. Linda Pastan – Estou aprendendo a abandonar o mundo

Estou aprendendo a abandonar o mundo
antes que ele acabe me abandonando.
Já desisti da lua
e da neve, fechando minhas cortinas
contra as reivindicações do branco.
E o mundo levou
meu pai, meus amigos. (...)
20. Billy Collins – O desfile

Que emocionante foi marchar
ao longo das grandes avenidas
debaixo do clarão das trombetas
e sob todas as bandeiras tremulantes —
a bandeira da ambição, a bandeira do amor. (...)
21. Anne Sexton – Para um amigo que alcançou o sucesso no trabalho

Considere Ícaro, colando aquelas asas viscosas,
experimentando aquele estranho puxão em suas omoplatas,
e pense naquele primeiro impecável momento sobre o gramado
do labirinto. Pense em como isso fez diferença! (...)
22. Sharon Olds – A corrida

Quando cheguei no aeroporto, corri até o guichê,
comprei uma passagem, dez minutos depois
me disseram que o voo tinha sido cancelado, os médicos
tinham dito que meu pai não sobreviveria àquela noite
e o voo fora cancelado. (...)
23. Ada Limón – Instruções para não desistir

Mais do que os funis fúcsia rompendo
da macieira, mais do que a exibição quase
obscena dos galhos da cerejeira do vizinho enfiando
suas flores cor de algodão doce no céu ardósia
das chuvas de primavera, é o verdejar das árvores
que realmente me comove. (...)
24. Cynthia Huntington – O arrebatamento

Lembro-me de estar na cozinha, misturando ossos para a sopa,
e de que, naquele momento, me tornei outra pessoa.

Era uma noite de início de primavera, o ar da Califórnia estava ameno.
Lá fora, o eucalipto se curvava compulsivamente

sobre o trailer do vizinho, estacionado na entrada da garagem.
A rua estava tranquila, pra variar, e todas as janelas estavam abertas.

Então, meu braço direito formigou, uma palpitação começou sob a pele. (...)
25. Henry Wadsworth Longfellow – Casas assombradas

Todas as casas onde homens viveram e morreram
São casas mal-assombradas. Pelo aberto portão
As inofensivas almas, em suas tarefas, pairam,
Com pés que quase nenhum ruído produzem no chão. (...)
26. Victoria Kennefick – Monte submarino

Da areia, você aponta onde ficava a loja,
os correios, o bar;
você me conta que caminhou até o vilarejo quando menino
para ficar nas esquinas, farejar o ar salgado. (...)
27. Laura Gilpin – O bezerro de duas cabeças

Amanhã, quando os garotos da fazenda encontrarem esta
aberração da natureza, eles embrulharão seu corpo
em jornal e o levarão para o museu. (...)
28. Gabrielle Calvocoressi – Sinto a sua falta. Gostaria de dar um passeio com você.

Não importa se você acabou de chegar em seu esqueleto.
Adoraria dar um passeio com você. Sinto a sua falta.
Adoraria preparar um camarão saganaki para você.
Como você costumava me fazer quando estava viva. (...)
29. Sahar Romani – Tarde na Andaluzia

E por que a geometria não seria igual à divindade

1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé

senão a confiança no uno & infinito (...)
30. Sean Thomas Dougherty – Por que se importar?

Porque agora há alguém

lá fora (...)
31. Ada Limón – Viaduto

A estrada não era tão perigosa na época,
quando eu caminhava até a mureta de aço,
inclinava meu corpo flexível de menina, e contemplava
a água fria do riacho. (...)
32. Robert Hayden – A nevasca

Incapaz de dormir ou rezar, permaneço
ao lado da janela olhando para
as aluadas árvores envergadas pelo gelo
de uma tempestade de dezembro. (...)
33. Alan Jenkins – Pertences

Segurei a mão dela, que estava sempre marcada
Por cortar, fatiar, pelas facas que estavam à espreita
No lavatório, mão mal-acabada,
Os nós avermelhados dos dedos, ásperos de esfregar com força
panelas, frigideiras, xícaras e pratos,
Dando amor do único jeito que ela sabia, (...)
34. Stanley Plumly – Rinoceronte branco

O último da minha espécie, um dos últimos apreciadores das flores
e da grama das pastagens do norte, e certamente
um dos poucos habilitados a esfregar as costas no baobá
e no carvalho centenário que ainda sobrevive no quintal. (...)
35. Ada Limón – O que eu não sabia antes

era como os cavalos simplesmente davam à luz outros
cavalos. Não um bebê de qualquer jeito, não
uma criatura de espaços limiares, mas um animal
de quatro patas decidido a andar, correndo atrás
da mãe. (...)
36. Anne Sexton – Coragem

É nas pequenas coisas que a vemos.
O primeiro passo da criança,
tão espantoso quanto um terremoto.
A primeira vez que você andou de bicicleta,
chafurdando na calçada. (...)
37. Rosanna Warren – Comparação

Como quando seu amigo, excelente esquiador austríaco, na história
que ela sempre nos contava, teve que encarar
seu primeiro salto olímpico de esqui (...)
38. Annie Dillard – Como consumimos nossos dias

Como consumimos nossos dias
é, evidentemente,
como consumimos nossas vidas. (...)
39. Mary Oliver – Pesado

Naquela época
Eu pensei que não poderia
me aproximar mais da dor
sem morrer

eu me aproximei
e não morri. (...)
40. Alberto Ríos – Coelhos e fogo

Tudo já foi dito
Menos uma última coisa – terrível – sobre o
Deserto: (...)
41. Lynn Emanuel – Minha vida

Como Jonas pelo peixe, eu fui por ela recebida,
revirada e varrida por suas águas escuras,
por ela conduzida para as profundezas e para além de incontáveis rochas. (...)
42. Billy Collins – A vida após a morte

Enquanto você se prepara para dormir, escovando os dentes,
ou folheando uma revista na cama,
os defuntos do dia estão iniciando sua jornada. (...)
43. Andrea Cohen – O comitê avalia

Digo à minha mãe que
ganhei o Prêmio Nobel.

De novo? ela diz. Em qual
categoria desta vez? (...)
44. Sylvia Plath – Estrelas sobre a Dordonha

Estrelas caem densas como rochas na linha
Enfolhada de árvores cuja silhueta é mais escura
Do que o breu do céu porque não tem estrelas. (...)
45. Roderick Ford – Giuseppe

Meu tio Giuseppe me contou
que na Sicília, durante a 2ª Guerra Mundial,
no pátio atrás do aquário,
onde a buganvília crescia tão bem,
a única sereia cativa do mundo
foi esquartejada no solo seco e empoeirado
por um médico e um peixeiro, dentre outros. (...)
46. Brigit Pegeen Kelly – Canção

Ouça: havia uma cabeça de cabra suspensa por cordas em uma árvore.
Por toda noite ela ficou lá pendurada e cantou. E aqueles que a ouviram
Sentiram um aperto em seus corações e pensaram que estavam ouvindo
O canto de uma ave noturna. Eles se sentaram em suas camas e depois
Se deitaram novamente. (...)
47. Garrett Hongo – Mendocino Rose

Na Califórnia, ao norte da Golden Gate,
a vinha cresce por quase todos os cantos,
brotando de pastagens,
de baixo das sombras dos eucaliptos
à beira da estrada,
ultrapassando todos os casebres fantasmas e cercas quebradas
que se desintegram de podres,
encharcadas pelas chuvas frescas. (...)
48. Alison C. Rollins – Para quem me lê agora

Você é invulnerável.
A única constante é a mudança.
Tal repetição leva à nostalgia
do presente. Tenso e tímido
você recita este livro de cor. Às
cegas, você me confia à memória. (...)
49. Tyree Daye – Rio Neuse

Diga-lhes para não irem
à orla sozinhos.

Diga-lhes onde
podem beber

sem precisar olhar
por cima dos ombros. (...)
50. John Murillo – Variações sobre um tema de Elizabeth Bishop

Comece com a perda. Perca tudo. Então perca tudo outra vez.
Perca uma boa mulher em um dia ruim. Encontre uma mulher melhor,
e depois perca cinco amigos correndo atrás dela. Aprenda a perder como se
sua vida dependesse disso. Aprenda que sua vida depende disso. (...)
51. Timothy Liu – Os restos

Saindo do novo cemitério, meu pai
pegou a minha mão, tendo acabado de reenterrar os restos
mortais de seu próprio pai e suas duas esposas —
sua mãe morrera de tuberculose quando ele tinha dez anos. (...)
52. Linda Pastan – Chegamos ao silêncio

Chegamos ao silêncio lentamente. Trazidos ao mundo
em uma onda de som
deixamo-lo mais tarde de bocas fechadas,
nossas grandes línguas pesadas
como pedras para nos ancorar
na terra. (...)
53. Faith Shearin – Cinzas, cinzas

O inverno é a morte pela qual todos temos esperado.
Mesmo nas Festas, em que o ano novo é louvado,
os galhos se quebram sob o peso da neve. (...)
54. Juan Vicente Piqueras – O barbeiro

Nos últimos meses, olhava-se no espelho
e via um intruso. Irritava-se com ele.

Já estás aqui outra vez? Será possível?
Sai daqui agora mesmo.
Para a rua, vagabundo, dizia-lhe. (...)
55. Javier Salvago – Canção para esse dia

Agora sim
já se vê
o porvir.
Agora sim
é o fim
que está aqui. (...)
56. Matthew Sweeney – Crucificação

Eu cozinhava uma beterraba quando a campainha tocou.
‘Quem será a essa hora?’, murmurei, marchando
para a porta. Quando a abri, o sol brilhava
tanto que só vi silhuetas, mas discerni
que pairava sobre tudo uma grande cruz preta. (...)
57. Jack Gilbert – Fracasso e voo

Todo mundo esquece que Ícaro também voou.
É a mesma coisa quando o amor chega ao fim,
ou o casamento fracassa e as pessoas falam
que sabiam que aquilo era um erro, que 
nunca daria certo. Que ela tinha
idade suficiente para sabê-lo. Mas qualquer coisa
que valha a pena fazer, deve ser feita com seriedade. (...)
58. Jaime Manrique – O céu sobre a casa de minha mãe

É uma noite de julho
perfumada com gardênias.
Brilham a lua e as estrelas
sem revelar a essência da noite.
Ao longo do crepúsculo
— com suas gradações cada vez mais intensas de ônix,
e o resplendor dourado das estrelas e das sombras —
minha mãe arrumou a casa, o jardim, a cozinha. (...)
59. Philip Larkin – A casa está tão triste

A casa está tão triste. Ficou como foi deixada,
Moldada para o conforto dos últimos saintes
Querendo reconquista-los. Ao invés, despojada
De alguém para agradar, ela definha assim, carente
De um coração para esquecer que foi roubada (...)
60. Eavan Boland – Atlântida – Um soneto perdido

Como diabos aconteceu, eu costumava me perguntar,
de uma cidade inteira – arcos, pilares, colunatas,
isso sem falar nos veículos e animais – ter-se,
um belo dia, afundado? (...)
61. Eiléan Ni Chuilleanéin – A serenata de Hofstetter

Senti a corrente de ar há pouco, enquanto digitava os números –
a data de sua morte, ocorrida há vinte e cinco anos;
estamos em maio, mas a noite clara está ficando mais fria,
o denso fardo se abriu e a dor se disseminou
ao longo desses anos desconhecidos para ela (...)
62. Kerry Hardie – Navio da morte

Observando-a, pela primeira vez,
virar-se para preparar o seu barco, minha mãe;
quando ficou claro que você tinha outros assuntos agora —
os assuntos do seu futuro —
fui inundada pela raiva. (...)
63. Ellen Bass – Miniantologia Poética – Sumário

Uma pequena antologia dos incríveis poemas de Ellen Bass que traduzi para o blog, organizada em ordem (mais ou menos) cronológica.
64. Matt Rasmussen – Suicídio reverso

O cara para quem papai vendeu o carro
volta para buscar o dinheiro dele,

sai do veículo. Com trapos imundos
nós o esfregamos até que deixe de brilhar

e limpamos o seu sangue das
costuras do assento. (...)
65. Louis Macneice – O observador de estrelas

(...) E a esta lembrança agora eu acrescento que a
Luz que então deixou alguns deles pelo menos,
Quarenta e dois anos atrás, nunca chegará
A tempo de eu captura-la, que a luz quando
Aqui chegar pode descobrir que não resta
Mais ninguém vivo (...)
66. Billy Collins – Pardal de Natal

A primeira coisa que ouvi esta manhã
foi um rápido bater de asas, suave, insistente —

asas contra o vidro, como pude descobrir
lá embaixo, quando vi o pequeno pássaro
amotinando-se contra a esquadria de uma
janela alta, tentando lançar-se através
do enigma do vidro para a vasta luminosidade (...)
67. Kenneth Rexroth – Música de Alaúde

A Terra vai durar por muito tempo
Antes de finalmente congelar;
Os homens nela estarão; receberão nomes,
Justificarão seus atos.
Já nós estaremos aqui somente
Como componentes químicos —
Na verdade, uma pequena franquia (...)
68. Wanda Coleman – Uma conversa com meu neto de seis anos de idade

há uma tempestade cósmica sempre que ele está em minha órbita
cinco raças em guerra fora do tempo, aprisionadas

em um corpo alto e petulante, joelhos e cotovelos ossudos

os ensinamentos rigorosamente amorosos da mãe e do pai criam
raízes a despeito da engenharia de mídia e da pressão dos amigos (...)

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