há uma tempestade cósmica sempre que ele entra em minha órbita
cinco raças em guerra fora do tempo, presas
num único corpo espigado e nervoso, joelhos e cotovelos ossudos
os ensinamentos rigorosamente amorosos de mamãe e papai criam
raízes apesar da engenharia de mídia e da pressão dos colegas.
as tiradas cortantes, as respostas farpadas e o humor atrevido
que em breve acompanharão suas defesas adolescentes ainda não
se materializaram. por enquanto, ele sabe que não deve mentir e
assim, naquela manhã de outono, quando o chamo
para perto, para uma conversa ancestral, para pô-lo no colo
ele hesita.
não tenha medo, digo. ele dá alguns pulinhos animados
que se transformam em contorções quando o agarro e aperto contra mim
aninhado em minha maciez, ele relaxa um pouco
mas encara minhas mãos, consternado
é isso o que acontece, penso, quando os olhos se voltam contra o coração
Você está todo confuso1, não está?
Sim.
Sua mãe é minha. Qual é o meu nome?
Como você me chama?
Vovó.
Você não quer gostar de mim,
quer?
Sim.
Porque eu sou marrom.
Ele fica em silêncio.
É por que eu sou marrom?
Sim.
Bem, tudo bem. Eu vou
ser marrom para sempre. Tudo
bem se eu gostar de você?
Sim.
então eu o abraço e o solto, perguntando-me
se isso basta para libertá-lo.
Trad.: Nelson Santander
- N. do T.: A expressão mixed up possui aqui um duplo sentido: indica que o menino está confuso, dividido entre o afeto que sente pela avó e a resistência provocada pela cor da pele dela, mas também remete à sua ascendência racial mista, anunciada no início do poema pela imagem das “cinco raças em guerra”. Como não encontrei em português uma expressão natural que preservasse simultaneamente os dois sentidos, optei por “confuso”, que transmite com maior precisão o sentido imediato da fala. Quanto a brown, preferi “marrom” a “morena” ou “negra”, a fim de conservar a palavra cromática, concreta e deliberadamente simples empregada por Coleman, bem como sua repetição decisiva: “Eu vou / ser marrom para sempre”. A avó não procura evitar a questão racial: ela nomeia diretamente sua cor e, por meio de um gesto de amor, tenta libertar o neto do conflito entre aquilo que seus olhos aprenderam e o que seu coração sente.
A Talk with My Grandson, Age Six
there’s a cosmic storm whenever he’s in my orbit
five races at war outside time, trapped
in one spindly high-toned body, knobby elbows and knees
the rigorously loving teachings of mom and dad take
root despite media engineering and peer pressures.
the snippy cuttings, mouthy snipings, and cheeky wit
that will soon attend his adolescent defenses have yet
to materialize. right now he knows not to prevaricate
and so, that fall morning when i call him
to me for an ancestral chat, to take him into my lap
he hesitates.
don’t be afraid, i say. he takes a few eager skips
that turn into squirms when i grab him and hold him tight
situated in my softness, he relaxes some
but stares at my hands in consternation
this is what happens, i think, when the eyes go against the heart
You’re all mixed up, aren’t you?
Yes.
Your mother belongs to me. What’s my name?
What do you call me?
Grandma.
You don’t want to like me,
do you?
Yes.
Because I’m brown.
He’s silent.
Is it because I’m brown?
Yes.
Well, that’s okay. I’m going
to be brown forever. Is it
okay if I like you?
Yes.
then I hug him and let go, wondering
if that’s enough to set him free.
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