Juan Vicente Piqueras – O barbeiro

Nos últimos meses, olhava-se no espelho
e via um intruso. Irritava-se com ele.

Já estás aqui outra vez? Será possível?
Sai daqui agora mesmo.
Para a rua, vagabundo,
dizia-lhe.

Era-lhe doloroso, era-nos doloroso,
toda vez que ele tinha que ir ao banheiro.
Tínhamos que conduzi-lo pelo braço, convence-lo
do porquê.

Ele se tornou o dono desse lugar, dizia,
quem lhe deu as chaves?

Pouco a pouco o do espelho tornou-se mais um em casa.
Chamava-lhe o barbeiro.

Em vão, diziam-lhe que aquele homem era ele.
Eu nunca tentei porque sabia
que aquele homem era outra pessoa,
que em seu delírio ele tinha razão.

Pouco a pouco fomo-nos resignando
à invasão do barbeiro.

Uma noite, ao sair do banheiro, deixou a luz acesa.
Quando minha mãe lhe disse: Deixaste a luz acesa, ele respondeu:
Deixa-o, ele está lá dentro, o que podemos fazer?

Meu pai compreendeu que o barbeiro, o intruso,
tinha vindo busca-lo.

Agora o está barbeando naquela barbearia
que há sempre do outro lado do espelho.

E de lá me olham, sorriem para mim,
me esperam.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: este poema pode ser lido em conjunto com Nomes apagados, o primeiro de Juan Vicente Piqueras que traduzi para o blog.

El Barbero

En los últimos meses se miraba al espejo
y veía a un intruso. Se enfadaba con él.

¿Ya estás aquí otra vez? ¿Será posible?
Largo de aquí ahora mismo.
A la calle, granuja,
 le decía.

Le costaba un disgusto, nos costaba,
cada vez que tenía que entrar en el cuarto de aseo.
Había que sacarlo del brazo, convencerlo,
de qué.

Se ha hecho el amo, decía,
¿quíen le habrá dao las llaves?

Poco a poco el del espejo fue uno más en la casa.
Le llamava el barbero.

En vano le decían que ese hombre era él.
Yo nunca lo intenté porque sabía
que ese hombre era otro,
que en su delirio tenía razón.

Poco a poco nos fuimos resignando
a la invasión del barbero.

Una noche al salir del aseo dejó la luz encendida.
Cuando mi madre le dijo: Que te dejas la luz, él replicó:
Déjalo, está él ahí dentro, qué le vamos a hacer.

Mi padre comprendió que el barbero, el intruso,
había venido a llevárselo.

Ahora lo está afeitando en esa barbería
que hay siempre al otro lado del espejo.

Y desde alli me miran, me sonríen,
me esperam.

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