Stanley Plumly – Rinoceronte branco

O último da minha espécie, um dos últimos apreciadores das flores
e da grama das pastagens do norte, e certamente
um dos poucos habilitados a esfregar as costas no baobá
e no carvalho centenário que ainda sobrevive no quintal.

O truque está na pedra, parecer algo que se soltou
de uma montanha, algo tão sobrante a ponto de não
estar vivo, ainda que se assemelhe, no comportamento, a um sonho raivoso,
do tipo que faz você despertar ofegante falando pra si mesmo

naquele idioma que começa no estômago e no intestino.
A velhice é um disfarce, rija por fora, suave por dentro.
Até minha armadura está virando pó, logo uma pata,
depois a outra, a neuropatia, minha circunspecção, a pegada

ficando maior, mais profunda. Eu mal me reconheço, exceto na
minha memória, exceto quando a mente se sobrepõe ao corpo
solitário. Então eu me arrasto, em parte vazio, em parte
cheio de saudade — Estou meio cego, mas vejo o que vejo,

o meio sol na colina. O tempo de uma vida é longo demais,
então carrego meu tempo daqui para lá, pelos únicos
percursos secos do mundo, o nariz, o chifre, minha grande cabeça pendida,
a tonelagem do meu coração quase mais do que posso carregar.

Trad.: Nelson Santander

White Rhino

The last of my kind, one of the last lovers of flowers
and the lawns of the northern grasses, and certainly
one of the few able to rub backsides with the baobab
and the century-nearing oak still surviving in the yard.

The trick is stone, to look like something broken
from a mountain, something so leftover so as not
to be alive, yet resemble in demeanor dream anger,
the kind that wakes you out of breath talking to yourself

in that language that starts in the belly and the bowel.
Old age is a disguise, the hard outside, the soft inside.
Even the plated armor is turning dust, then one foot
after the other, neuropathy my gravity, the footprint

larger, deeper. I hardly recognize myself except in
memory, except when the mind overwhelms the lonely
body. So I lumber on, part of me empty, part of me
filled with longing—I’m half-blind but see what I see,

the half sun on the hill. How long a life is too long,
as I take my time from here to there, the one world
dried-out distances, nose, horn, my great head lifted down,
the tonnage of my heart almost more than I can carry.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s