Louise Glück – Nostos

Louise Glück – Nostos

Havia uma macieira no quintal —
isso deve ter sido
há quarenta anos — ao fundo,
apenas prados. Manchas
de crocus na relva úmida
Eu estava àquela janela:
fim de abril. Flores
da primavera no quintal do vizinho.
Quantas vezes, de fato, a árvore
floresceu no meu aniversário,
no dia exato, não antes,
não depois? Substituição
do cambiante,
do que evolui.
Substituição terra
inexorável pela imagem. O que
sei eu deste lugar,
o papel que por décadas foi da árvore
agora assumido por um bonsai, vozes
que se elevam das quadras de tênis —
Campos. Cheiro de relva alta, recém-
cortada.
Como se espera de um poeta lírico.
Vemos o mundo uma única vez, na infância.
O resto é memória.

Trad.: Nelson Santander

Nostos

There was an apple tree in the yard —
this would have been
forty years ago — behind,
only meadows. Drifts
of crocus in the damp grass.
I stood at that window:
late April. Spring
flowers in the neighbor’s yard.
How many times, really, did the tree
flower on my birthday,
the exact day, not
before, not after? Substitution
of the immutable
for the shifting, the evolving.
Substitution of the image
for relentless earth. What
do I know of this place,
the role of the tree for decades
taken by a bonsai, voices
rising from the tennis courts —
Fields. Smell of the tall grass, new cut.
As one expects of a lyric poet.
We look at the world once, in childhood.
The rest is memory.

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Uma resposta para “Louise Glück – Nostos”

  1. […] que remanesce – ou, pelo menos, com o que acreditamos que deve permanecer. Talvez sejam nossas memórias, aquelas que revisitamos compulsivamente ao final de cada ano, em busca de algum significado maior. […]

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