Deixe-me dizer — nenhum animal de longe é o mesmo
que de perto. Quero dizer, uma baleia numa revista pode
parecer majestosa e livre, mas o que você não vê é
como ela adormece perto demais da superfície,
como a luz lhe empola a pele até deixá-la tão em carne viva
que as gaivotas rasgam sua pele queimada de sol, levantando voo
com os bicos cheios de sua carne orgulhosa.
Ou você pode acreditar que o rinoceronte é uma fera
de visão tão fraca e falha que nem se dá ao trabalho
de distinguir uma forma à frente antes de
irromper do mato, investindo
com o chifre pré-histórico à frente, mas venha comigo — conheça Jo,
o único rinoceronte-negro do zoológico. Seu tratador disse:
Não se preocupe, ele não vai morder, e, de fato,
pus a mão na intimidante cavidade
de sua boca, e lá dentro era
docemente rosado e quente. Ele recebeu com delicadeza
a guloseima que deixei cair ali e fechou as macias almofadas dos olhos
enquanto mastigava. Depois, veio feito um cachorrinho até a cerca
para ganhar uma coçada, e, trêmula, estendi a mão para tocar
o concreto vivo de suas costas.
Ou tome o pardal — inofensivo chilreador
suburbano, comum como uma batata frita — já os vi
depenando uns aos outros até fazê-los sangrar, arrancando penas para forrar
seus próprios ninhos, e não é segredo que costumam atacar em bando
os próprios parentes, dando cabo, com facilidade dos filhotes da irmã.
Veja, certa vez, quando tive câncer,
ou pelo menos novamente pensei que tinha, um desses pássaros eletrizados
guerreou contra o próprio reflexo em minha janela e, diante de um adversário
igual a si mesmo, quebrou o próprio pescoço.
Então não se deixe enganar pela palavra:
É só um susto. Foi apenas um susto.
Rainha da minimização, a palavra logo exala
OhGraçasaDeus, para suspirar: foi por pouco. Mas ouça: a palavra é
uma película, uma pele amniótica arrancada a uma recém-nascida para que ela possa
respirar, mas também uma membrana de presságio e clarividência.
O susto é a ameaça de morte que passou, mas ameaça
tornada real; o susto é sua vida devolvida, mas, pior,
sua vida devolvida ao que era — você vai brigar
de novo e dá-la por garantida de novo,
e todas aquelas promessas
que fez a Deus e aos céus
se o resultado da patologia viesse limpo você
vai quebrar. Isso mesmo: deixei passar
todas as chances — seis vezes já vi como a morte
poderia me encontrar, cada tumor biopsiado por agulha grossa e excisado,
cauterizado e removido, e entre a detecção
e o diagnóstico pensei que ao menos faria direito
o pouco que restava dos meus dias, com tão pouco ainda
pela frente. Agora estou livre de novo, mas o prognóstico
ainda faz cócegas no fundo da minha garganta — não é e se
mas quando. O que quero dizer é
que fui levada até a beira
da mata, perto o bastante para encontrar uma manada de bisões
que um amigo criava, e quando o touro veio sem pressa até nosso caminhão
vi primeiro uma criatura sublime, um soberano do passado,
mas quando chegou perto o bastante para farejar a estranha que eu era
em seu campo, vi uma fileira perfeita de moscas bebendo
da borda úmida de seus olhos perfeitos, e como o anel alado
que elas formavam persistia mesmo quando ele piscava, como se ainda pudesse ver
os incontáveis de sua espécie um dia assassinados naquele lugar. Ouça.
Não sou ingrata: sobrevivi
a mais um verão para ver uma coisa assim.
E não tenho mais pena de mim mesma
do que tenho de todos nós que temos de
partir. Só quero dizer que, quando tive certeza de que
minha medula havia azedado e estava me matando
de dentro para fora, sonhei que cada animal
era uma jaula e dentro de cada animal havia outro
animal, outra jaula. Quando acordei, pretendia
anotar o sonho, mas em vez disso escrevi
duas palavras: estou assustada.
Agora, sarei. Fui abençoada com
mais um atestado de boa saúde. Mas o susto criou
dentes. Agora volto atrás. Reviso minha anotação
original. Risco assustada e escrevo apavorada,
depois mudo para aterrorizada. Não. Tente de novo.
Escrevo: Sinto muito. Estou petrificada, Senhor. Tenho
um medo profundo. Está me ouvindo? Sou um animal
que sabe que vai morrer. Não pode me deixar ficar
na minha jaula?
Nota da autora:
Tenho um corpo propenso a formar inchaços, caroços e miomas, tumores que — desde os meus dezesseis anos — vêm me aterrorizando toda vez que descubro um. Felizmente, até agora, todos foram benignos, mas, depois de tantas surpresas assustadoras à espreita dentro de mim, passei a ter uma relação difícil com meu corpo. Uma solução que encontrei foi entregar-me ao estudo e à observação dos animais. Nada me reconforta tanto quanto vestir meu macacão e limpar as baias de um celeiro; nada me nutre tanto quanto estar na presença de animais e escutar o que talvez tenham a ensinar.
Quando eu lutava com a incerteza provocada por um nódulo profundo na perna, passei dias e dias no Zoológico de Little Rock, e foi lá que encontrei aquele rinoceronte — uma experiência profunda durante aquele tempo infernal. Muitos anos depois, não muito tempo após a remoção de uma grande massa abdominal, dois queridos amigos no Tennessee me levaram de carro para conhecer uma manada de bisões que criam, e nunca esquecerei a força daquele touro saindo da floresta, aproximando-se para farejar minha presença, que lhe era estranha.
Então, sim, o modo profundamente corporal dos animais me ajudou a sarar, mas é igualmente importante que não os romantizemos nem os transformemos em metáforas para nosso próprio uso — suas realidades são muito mais complexas que as ideias que fazemos deles, e eles muitas vezes sofrem, assim como nós. Esse é o foco deste poema.
Suponho que tudo isso tenha me ensinado o quanto estamos profundamente ligados a nossos parentes não humanos. Conhecer mais profundamente a realidade dos animais não produz uma história fácil, mas significa que eu, você e todo ser vivo pertencemos — todos nós, juntos — aqui, a esta terra. Nenhum de nós, entre os vivos — humano ou não — está sozinho em seu sofrimento ou em sua vontade de sobreviver.
Trad.: Nelson Santander
Scare
Let me tell you — no animal far away is the same
up close. I mean, a whale in a magazine might
seem majestic and free, but what you don’t see is
how too near the surface she falls
asleep, how the light blisters her so raw
gulls tear into her sunburnt skin, lifting into the air
beaks full of her proud flesh.
Or you might believe the rhinoceros a beast
with sight so poor and mean he doesn’t bother
to make out a shape ahead before
rushing from the bush, charging
prehistoric horn first, but come with me — meet Jo,
the lone black rhino at the zoo. His caretaker said,
No worries, he won’t bite down, and sure enough,
I placed my hand in the daunting socket
of his mouth, and inside it was
sweetly pink and warm. He gently received
the treat dropped there, closed the soft pads of his eyes
while he chewed. After, he puppied up to the fence
for a scratch, and trembling I reached to touch
the living concrete of his back.
Or take the house sparrow — harmless suburban
chirper, common as a potato chip — I’ve seen them
pluck each other bloody, snatching feathers to line
their own nests, and it’s no secret they’ll mob
their kin, dispatch their sister’s hatchlings with ease.
You see, once, when I had cancer
or at least again thought I did, one of those hot-wired birds
fought his reflection in my window, and facing an adversary
equal to his own, he broke his own neck.
So don’t let the word fool you:
It’s just a scare. It was only a scare.
Queen of dismissal, the word is quick to exhale,
OhthankGod, to sigh, that was close. But listen: the word is
a caul, an amniotic skin peeled off a newborn so she can
breathe but also a membrane of omen and second sight.
Scare is the threat of death gone but the threat
made real; scare is your life returned but worse
your life returned to how it was — you will bicker
again and take it for granted again,
and all those promises
made to God and heaven above
if your pathology was clean you
will break. That’s right: I’ve missed
every chance — six times already, I’ve seen how death
might find me, each tumor core-needled and excised,
cauterized and cut away, and between detection
and diagnosis I thought at least I’d get
the last bit of my days right with so little left
to go. Now, I’m again set free, but the forecast
still tickles the back of my throat — not what if
but when. What I mean to say is
I’ve been brought to the edge
of the woods, close enough to meet a herd of bison
a friend kept, and when the bull ambled to our truck
I saw at first a sublime beast, a sovereign of the past,
but once he was close enough to smell the stranger I was
in his field, I saw a perfect row of flies drinking
from the wet rim his perfect eyes, how the winged ring
of them persisted even when he blinked as if he could still see
the countless of his kind once murdered in this place. Listen.
I’m not ungrateful: I survived
another summer to see such a thing.
And I don’t pity myself more
than I pity all of us who have to
go. I only mean to say when I felt for sure
my marrow had soured and was killing me
from the inside out, I dreamt every animal
was a cage and inside each animal was another
animal, another cage. When I woke, I meant to
write down the dream but instead wrote
two words: I’m scared.
Now, I’ve healed. I’ve been blessed
another clean bill of health. But the scare has grown
teeth. Now, I go back. I revise my original
entry. I cross out scared and write terrified,
then change it to terrorized. No. Try again.
I write: I am sorry. I am petrified, Lord. I am
deeply afraid. Can you hear me? I am an animal
who knows she will die. Can you not let me stay
in my cage?
Author’s Note
I have a body prone to making bumps and lumps and fibroids, tumors that have—ever since I was sixteen — terrorized me every time I’ve discovered one. Gratefully, thus far, they’ve all been benign, but after so many frightening surprises lurking within, I’ve had a difficult relationship with my body. One solution I’ve found is giving myself over to the study and observation of animals. Nothing is quite as comforting to me as putting on my overalls and mucking out a barn; nothing is as nurturing to me as being in the presence of animals and listening for what they might have to teach. When I was struggling with the uncertainty of a growth deep within my leg, I spent days and days at the Little Rock Zoo, and it was there I encountered that rhinoceros—a profound experience during that hellfire time. Many years later, not too long after the removal of a large abdominal mass, two dear friends in Tennessee drove me out to meet a herd of bison they keep, and I’ll never forget the power of that bull stepping out of the forest, approaching to smell my unfamiliar presence. So, yes, the deeply embodied way of animals has helped me heal, but it’s equally as important that we not romanticize them or make them into metaphors for our own uses—their realities are far more complex than the ideas we have of them, and they often suffer, just as we do. That’s the focus of this poem. I suppose what all of it has taught me is how deeply interconnected we are to our non-human kin. Knowing the deeper reality of animals doesn’t make for an easy story, it does mean that I and you and every living being belong — all of us, together — here on this earth. None of us alive — human or not— are alone in our suffering or our will to survive.
Aqui: https://www.missourireview.com/scare-nickole-brown/?fbclid=IwAR311atAUUi1LdO_IOhQFx61M89aA67NWyFgRNia5uYbnR3jZ-B5vFP2W94

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