Nickole Brown – Susto

Deixe-me dizer-lhe — nenhum animal de longe é o mesmo
que de perto. Ou seja, uma baleia em uma revista pode
parecer majestosa e livre, mas o que você não vê é
quão perto da superfície ela adormece,
como a luz a empola deixando-a em carne viva e como
as gaivotas rasgam sua pele queimada pelo sol, alçando ao ar
os bicos repletos de sua carne orgulhosa.
Ou você pode acreditar que o rinoceronte é uma fera

com visão tão pobre que não se preocupa em
distinguir uma forma à sua frente antes de
sair correndo do mato, carregando
seu pré-histórico chifre primordial, mas venha comigo — conheça Jo,
o solitário rinoceronte-negro no zoológico. Seu zelador disse,
Não se preocupe, ele não vai morder, e efetivamente
eu coloquei minha mão na intimidante cavidade
de sua boca, e dentro dela estava

docemente rosado e quente. Ele gentilmente recebeu
a guloseima que deixei cair lá, e fechou as almofadas macias de seus olhos
enquanto mastigava. Depois, ele encostou na cerca
para se coçar, e, trêmula, eu o alcancei para tocar
o concreto vivo de suas costas.

Ou pegue o pardal — inofensivo chilreador
suburbano, comum como uma batata frita — já os vi
sangrentos depenando uns aos outros, arrancando penas para forrar
seus próprios ninhos, e não é segredo que eles costumam reunir
seus parentes, e despachar os filhotes de suas irmãs com facilidade.
Veja, uma vez, quando tive câncer,

ou pelo menos novamente pensei que tinha, um desses pássaros elétricos
guerreou contra o seu reflexo em minha janela, e diante de um adversário
igual a si mesmo, ele quebrou o próprio pescoço.
Portanto, não se deixe enganar pelas palavras:

É só um susto. Foi apenas um susto.
Rainha da recusa, a palavra é rápida para exalar um
OhGraçasaDeus, para suspirar: essa foi por pouco. Mas ouça: a palavra é
uma película, uma pele amniótica arrancada de um recém-nascido para que ele possa
respirar, mas também uma membrana de presságio e sexto sentido.
O susto é a ameaça de morte que se foi, mas ameaça
concretizada; o susto é a sua vida de volta, mas pior,
sua vida que volta a ser como era — você irá brigar
novamente e da-la por certa outra vez,
e todas aquelas promessas
feitas a Deus e aos céus
se sua doença fosse expurgada você

irá quebrar. Isso mesmo: eu perdi
todas as chances — seis vezes já, eu vi como a morte
pode me encontrar em cada núcleo tumoral perfurado e extirpado,
cauterizado e cortado, e entre a detecção
e o diagnóstico eu pensei que, pelo menos, conseguiria acertar
a última parte dos meus dias com tão pouco
pela frente. Agora, estou novamente livre, mas o prognóstico
ainda faz cócegas em minha garganta — não é e se
mas quando. O que quero dizer é
que fui levada até a beira
da mata, perto o suficiente para encontrar uma manada de bisões
que um amigo mantinha, e quando o touro se aproximou do nosso caminhão
vi primeiro uma criatura sublime, um soberano do passado,
mas quando ele estava perto o suficiente para sentir o cheiro da estranha que eu era
em seu domínio, eu vi uma fileira perfeita de moscas bebendo
da borda úmida de seus olhos perfeitos, e como o círculo alado
delas persistia mesmo quando ele piscava como se ainda pudesse ver
os incontáveis de sua espécie que um dia foram assassinados naquele lugar. Ouça.
Eu não sou ingrata: sobrevivi

a outro verão para ver tal coisa.
E não tenho mais pena de mim mesma
do que tenho de todos nós que temos que
partir. Só quero dizer que quando tive a certeza de que
minha medula havia azedado e estava me matando
de dentro pra fora, eu sonhei que todo animal
era uma gaiola e dentro de cada animal havia outro
animal, outra gaiola. Quando acordei, pretendia
escrever sobre o sonho mas em vez disso escrevi
duas palavras: estou assustada.

Agora, eu me curei. Fui abençoada com
outro atestado de saúde. Mas o susto aumentou de
tamanho. Agora, eu volto. Eu reviso minha inserção
inicial. Eu risco assustada e escrevo apavorada,
então mudo para aterrorizada. Não. Tente novamente.
Eu escrevo: Sinto muito. Estou paralisada, Senhor. Estou
profundamente assustada. Você pode me ouvir? Eu sou um animal
que sabe que vai morrer. Você pode me deixar ficar
na minha jaula?

Nota da autora:

Tenho um corpo propenso a inchaços, caroços e miomas, tumores que – desde os meus dezesseis anos – me aterrorizaram cada vez que descobri que tinha um. Felizmente, até agora, todos eles eram benignos, mas depois de tantas surpresas assustadoras espreitando dentro de mim, eu tive uma relação difícil com meu corpo. Uma solução que encontrei foi me dedicar ao estudo e à observação de animais. Nada é tão reconfortante para mim quanto vestir meu macacão e limpar um celeiro; nada é tão estimulante para mim quanto estar na presença de animais e ouvir o que eles podem ter para ensinar. Quando estava lutando com a incerteza de um tumor no interior da minha perna, passei dias e dias no Zoológico de Little Rock e foi lá que encontrei aquele rinoceronte – uma experiência profunda durante aquela temporada no fogo do inferno. Muitos anos mais tarde, não muito tempo depois da remoção de uma grande massa abdominal, dois queridos amigos do Tennessee me levaram para conhecer uma manada de bisões que eles mantêm, e jamais esquecerei o poder daquele touro saindo da floresta, aproximando-se para farejar minha presença desconhecida. Então, sim, o modo profundamente corporificado dos animais me ajudou a superar, mas é igualmente importante não romantizá-los ou transformá-los em metáforas para nosso próprio uso — suas realidades são muito mais complexas do que as ideias que temos sobre eles, e eles freqüentemente sofrem, assim como nós. Esse é o foco deste poema. Suponho que o que tudo isso me ensinou foi como estamos profundamente interconectados com nossos parentes não humanos. Conhecer a realidade mais profunda dos animais não torna a história fácil, significa que eu, você e todos os seres vivos pertencemos – todos nós, juntosa esta terra. Nenhum de nós, vivos – humano ou não -, está sozinho em nosso sofrimento ou em nossa vontade de sobreviver.

Trad.: Nelson Santander

Scare

Let me tell you — no animal far away is the same
up close. I mean, a whale in a magazine might
seem majestic and free, but what you don’t see is
how too near the surface she falls
asleep, how the light blisters her so raw
gulls tear into her sunburnt skin, lifting into the air
beaks full of her proud flesh.
Or you might believe the rhinoceros a beast

with sight so poor and mean he doesn’t bother
to make out a shape ahead before
rushing from the bush, charging
prehistoric horn first, but come with me — meet Jo,
the lone black rhino at the zoo. His caretaker said,
No worries, he won’t bite down, and sure enough,
I placed my hand in the daunting socket
of his mouth, and inside it was

sweetly pink and warm. He gently received
the treat dropped there, closed the soft pads of his eyes
while he chewed. After, he puppied up to the fence
for a scratch, and trembling I reached to touch
the living concrete of his back.

Or take the house sparrow — harmless suburban
chirper, common as a potato chip — I’ve seen them
pluck each other bloody, snatching feathers to line
their own nests, and it’s no secret they’ll mob
their kin, dispatch their sister’s hatchlings with ease.
You see, once, when I had cancer

or at least again thought I did, one of those hot-wired birds
fought his reflection in my window, and facing an adversary
equal to his own, he broke his own neck.
So don’t let the word fool you:

It’s just a scare. It was only a scare.
Queen of dismissal, the word is quick to exhale,
OhthankGod, to sigh, that was close. But listen: the word is
a caul, an amniotic skin peeled off a newborn so she can
breathe but also a membrane of omen and second sight.
Scare is the threat of death gone but the threat
made real; scare is your life returned but worse
your life returned to how it was — you will bicker
again and take it for granted again,
and all those promises
made to God and heaven above
if your pathology was clean you

will break. That’s right: I’ve missed
every chance — six times already, I’ve seen how death
might find me, each tumor core-needled and excised,
cauterized and cut away, and between detection
and diagnosis I thought at least I’d get
the last bit of my days right with so little left
to go. Now, I’m again set free, but the forecast
still tickles the back of my throat — not what if
but when. What I mean to say is
I’ve been brought to the edge
of the woods, close enough to meet a herd of bison
a friend kept, and when the bull ambled to our truck
I saw at first a sublime beast, a sovereign of the past,
but once he was close enough to smell the stranger I was
in his field, I saw a perfect row of flies drinking
from the wet rim his perfect eyes, how the winged ring
of them persisted even when he blinked as if he could still see
the countless of his kind once murdered in this place. Listen.
I’m not ungrateful: I survived

another summer to see such a thing.
And I don’t pity myself more
than I pity all of us who have to
go. I only mean to say when I felt for sure
my marrow had soured and was killing me
from the inside out, I dreamt every animal
was a cage and inside each animal was another
animal, another cage. When I woke, I meant to
write down the dream but instead wrote
two words: I’m scared.

Now, I’ve healed. I’ve been blessed
another clean bill of health. But the scare has grown
teeth. Now, I go back. I revise my original
entry. I cross out scared and write terrified,
then change it to terrorized. No. Try again.
I write: I am sorry. I am petrified, Lord. I am
deeply afraid. Can you hear me? I am an animal
who knows she will die. Can you not let me stay
in my cage?



Author’s Note
I have a body prone to making bumps and lumps and fibroids, tumors that have—ever since I was sixteen — terrorized me every time I’ve discovered one. Gratefully, thus far, they’ve all been benign, but after so many frightening surprises lurking within, I’ve had a difficult relationship with my body. One solution I’ve found is giving myself over to the study and observation of animals. Nothing is quite as comforting to me as putting on my overalls and mucking out a barn; nothing is as nurturing to me as being in the presence of animals and listening for what they might have to teach. When I was struggling with the uncertainty of a growth deep within my leg, I spent days and days at the Little Rock Zoo, and it was there I encountered that rhinoceros—a profound experience during that hellfire time. Many years later, not too long after the removal of a large abdominal mass, two dear friends in Tennessee drove me out to meet a herd of bison they keep, and I’ll never forget the power of that bull stepping out of the forest, approaching to smell my unfamiliar presence. So, yes, the deeply embodied way of animals has helped me heal, but it’s equally as important that we not romanticize them or make them into metaphors for our own uses—their realities are far more complex than the ideas we have of them, and they often suffer, just as we do. That’s the focus of this poem. I suppose what all of it has taught me is how deeply interconnected we are to our non-human kin. Knowing the deeper reality of animals doesn’t make for an easy story, it does mean that I and you and every living being belong — all of us, together — here on this earth. None of us alive — human or not— are alone in our suffering or our will to survive.

Aqui: https://www.missourireview.com/scare-nickole-brown/?fbclid=IwAR311atAUUi1LdO_IOhQFx61M89aA67NWyFgRNia5uYbnR3jZ-B5vFP2W94

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