Maria do Rosário Pedreira – [Quem se afasta do mundo deixa a quem fica]

Maria do Rosário Pedreira –  [Quem se afasta do mundo deixa a quem fica]
                                                          para José Luís Peixoto

Quem se afasta do mundo deixa a quem fica
um rasto de perguntas. Mas eu vi a morte dançar
tantas vezes no lago dos teus olhos que não pergunto
pelos teus passos à lama dos caminhos nem
pelos teus sonhos ao côncavo da cama. Quando

partiste, a solidão ficou nas coisas todas – no prato
que ia por vício para a mesa mas voltava vazio;
nas roupas escuras; nas sardinheiras secas; na dor
embrutecida do cão cego a ganir toda a noite à porta
do teu quarto; na casa fria; no livro aberto

ao meio no tapete (e que ninguém lerá, porque divide
a tua vida entre o que foi e o que podia ter sido se deus
fosse mais deus do que diziam); e ainda neste rosto
que me deste – e que é o teu no meu envelhecido.

A tua morte foi como um espelho partido contra o verão;
e nenhum vento que atravessasse o mundo varreria
de mim os seus estilhaços. Por isso, perguntar não mais
seria do que tecer uma armadilha para as memórias

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Uma resposta para “Maria do Rosário Pedreira – [Quem se afasta do mundo deixa a quem fica]”

  1. […] 20. Maria do Rosário Pedreira – [Quem se afasta do mundo deixa a quem fica]Quem se afasta do mundo deixa a quem ficaum rasto de perguntas. Mas eu vi a morte dançartantas vezes no lago dos teus olhos que não perguntopelos teus passos à lama dos caminhos nempelos teus sonhos ao côncavo da cama. (…) […]

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