Rodrigo da Silva – Chegará um dia em que o seu coração parará de bater

Chegará um dia em que o seu coração parará de bater. A sua pupila dilatará. A sua pele ficará pálida e a sua temperatura corporal esfriará. Você ficará inteiramente esquálido; e então roxo. O seu sangue se tornará mais ácido com o acúmulo de dióxido de carbono. E as suas células começarão a se dividir, … Continue lendo Rodrigo da Silva – Chegará um dia em que o seu coração parará de bater

Oscar Wilde – Da vaidade

"Por que você chora?”, perguntaram as Oreiades. “Choro por Narciso”. “Ah, não nos espanta que você chore por Narciso”, continuaram elas. “Afinal de contas, todas nós sempre corremos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza”. “Mas Narciso era belo?”, quis saber o lago. “Quem … Continue lendo Oscar Wilde – Da vaidade

Philip Roth – Patrimônio (excerto 2)

Ele morreu três semanas depois. Durante uma provação de doze horas, que começou pouco antes da meia-noite de 24 doutubro de 1989 e terminou logo após o meio-dia, ele lutou por cada sorvo de ar com uma erupção impressionante, uma derradeira exibição da tenacidade férrea que havia demonstrado ao longo da vida. Algo digno de … Continue lendo Philip Roth – Patrimônio (excerto 2)

Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer

Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tampouco me legaram o disfarçado furor do cético, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso … Continue lendo Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer

Carlos Drummond de Andrade – Os Gregorianos

Um amigo que tem consciência exacerbada do tempo confia-me que, depois de certo ponto (ele não usa a palavra idade), a vida já não oferece acontecimentos, e sim comemorações. — Por mais que o sujeito faça, não consegue realmente mover-se. Fica parado diante de formas movediças, como naquele romance do Zé Lins do Rego, que … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Os Gregorianos

Shirley Jackson – A Assombração na Casa da Colina (excerto)

"NENHUM ORGANISMO vivo pode existir com sanidade por longo tempo em condições de realidade absoluta; até as cotovias e os gafanhotos, pelo que alguns dizem, sonham. A Casa da Colina nada sã, erguia-se solitária em frente de suas colinas, agasalhando a escuridão em suas entranhas; existia há oitenta anos e provavelmente existiria por mais outros … Continue lendo Shirley Jackson – A Assombração na Casa da Colina (excerto)

António Lobo Antunes

Com os anos a morte vai-se tornando familiar. Quero dizer não a ideia da morte, não o medo da morte: a realidade dela. As pessoas de quem gostamos e partiram amputam-nos cruelmente de partes vivas nossas, e a sua falta obriga-nos a coxear por dentro. Parece que sobrevivemos não aos outros mas a nós mesmos, … Continue lendo António Lobo Antunes

Machado de Assis – Memórias Póstumas (último capítulo)

Talvez o melhor capítulo final da literatura brasileira. «Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os … Continue lendo Machado de Assis – Memórias Póstumas (último capítulo)