Tag: Matinas
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Louise Glück – Matinas (7)

Não apenas o sol mas a própriaterra brilha, fogo brancoirrompendo das imponentes montanhase da estrada planatremeluzindo nas primeiras horas da manhã: será issoapenas para nós, para provocar umaresposta, ou você tambémfica mexido, incapazde se conterna presença da terra? Sinto vergonhado que eu pensava que você fosse,distante de nós, nos observandocomo um experimento: éamargo sero animal…
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Louise Glück – Matinas (6)

O que é o meu coração para vocêque precisa parti-lo repetidas vezescomo um jardineiro testandosua nova espécie? Pratiqueem algo diferente: como posso viverem colônias, como você prefere, se impõeuma quarentena de aflição, apartando-mede membros saudáveis deminha própria tribo? Você não faz issono jardim, não segregaa rosa doente; permite que ela balance suas sociáveisfolhas infestadas nosrostos…
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Louise Glück – Matinas (5)

Quer saber como passo o meu tempo?Eu caminho pelo jardim, fingindoque estou capinando. Deve saberque nunca estou capinando, de joelhos, extirpandotufos de trevos dos canteiros de flores: na verdade,estou em busca de coragem, de alguma evidênciade que minha vida irá mudar, ainda queisso leve uma eternidade, verificandocada touceira em busca da folhasimbólica, e logo o…
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Louise Glück – Matinas (4)

Percebo que com você é como com as bétulas:não posso lhe falarde maneira pessoal. Muitose passou entre nós. Ousempre foi apenas de um lado? Euerrei, eu errei, eu lhe pedipara ser humano – não sou mais carentedo que as outras pessoas. Mas a ausênciade todo sentimento, da menorpreocupação por mim – poderia muito bem continuardirigindo-me…
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Louise Glück – Matinas (3)

Perdoe-me se eu disser que o amo: os poderosossempre são enganados, já que os fracos são sempreguiados pelo pânico. Não posso amaro que não consigo conceber, e você revelapraticamente nada: é como o espinheiro,sempre a mesma coisa no mesmo lugar,ou está mais para a dedaleira, inconstante, brotando primeiroum espigão rosa na encosta atrás das margaridas,e…
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Louise Glück – Matinas (2)

Pai inalcançável, quando fomos, pela primeira vez,exilados do paraíso, criasteuma réplica, um lugar em certo sentidodiferente do paraíso,concebido para ensinar uma lição: de outro modo,o mesmo – beleza em ambos os lados, belezasem alternativa – Excetoque não sabíamos qual era a lição. Deixados sozinhos,nos consumimos. Anosde escuridão se seguiram; nos revezávamoscuidando do jardim, as primeiras…
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Louise Glück – Matinas* (1)

Brilha o sol; perto da caixa de correio, folhasde uma bétula dividida, dobradas, plissadas como barbatanas.Abaixo, hastes ocas de narcisos brancos, Tulipas,Cantatrice**; folhasescuras de violetas selvagens. Noah dizque os depressivos odeiam a primavera, desequilíbrioentre o mundo interior e exterior. Eu defendooutra perspectiva – deprimida, sim, mas de alguma forma apaixonadamenteunida à árvore viva, meu corporealmente…