Quando o grande relógio da estação parou,
as folhas continuaram a cair,
os trens continuaram a circular,
o cabelo da minha mãe continuou a crescer, ainda mais comprido e mais negro,
e o corpo do meu pai continuou a encher-se de tempo.
Não consigo ver o ano no calendário da estação.
Dormimos sob os ponteiros parados do relógio
até a manhã, quando um homem entrou carregando uma escada.
Ele subiu até o mostrador do relógio e o abriu com uma chave.
Só ele sabia o que tinha visto.
Abaixo dele, os rostos mortais continuavam passando,
rumo a todos os pontos cardeais.
As pessoas continuavam cruzando fronteiras,
comprando passagens num fuso horário e pondo os pés em outro.
Cruzando limiares: do sono à vigília e de volta,
da sala de espera ao trem em movimento e de volta,
da zona de guerra à zona segura e de volta.
Cruzando entre perdas e ganhos:
aprendendo novas palavras para o mundo e as coisas que há nele.
Esquecendo antigas palavras para o coração e as coisas que há nele.
E colecionando palavras em outra língua
para aquelas três cores primárias:
ficar, partir e voltar.
E só o homem no alto da escada
compreendia o que via por trás do mostrador
que não sorria nem franzia a testa.
E o corpo do meu pai continuou a encher-se de morte
até alcançar a marca gravada mais alta,
e de seus olhos, e transbordar para os meus.
E o cabelo da minha mãe continua,
sem jamais alcançar a terra.
Trad.: Nelson Santander
Big Clock
When the big clock at the train station stopped,
the leaves kept falling,
the trains kept running,
my mother’s hair kept growing longer and blacker,
and my father’s body kept filling up with time.
I can’t see the year on the station’s calendar.
We slept under the stopped hands of the clock
until morning, when a man entered carrying a ladder.
He climbed up to the clock’s face and opened it with a key.
No one but he knew what he saw.
Below him, the mortal faces went on passing
toward all compass points.
People went on crossing borders,
buying tickets in one time zone and setting foot in another.
Crossing thresholds: sleep to waking and back,
waiting room to moving train and back,
war zone to safe zone and back.
Crossing between gain and loss:
learning new words for the world and the things in it.
Forgetting old words for the heart and the things in it.
And collecting words in a different language
for those three primary colors:
staying, leaving, and returning.
And only the man at the top of the ladder
understood what he saw behind the face
which was neither smiling nor frowning.
And my father’s body went on filling up with death
until it reached the highest etched mark
of his eyes and spilled into mine.
And my mother’s hair goes on
never reaching the earth.

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