Sharon Olds – Depois de 37 anos minha mãe pede desculpas pela minha infância

Sharon Olds – Depois de 37 anos minha mãe pede desculpas pela minha infância

Quando você se inclinou para mim, braços estendidos
como quem tenta atravessar uma fogueira,
quando você cambaleou em minha direção, gritando
que sentia muito pelo que havia feito comigo, seus
olhos se enchendo de um líquido terrível como
bolinhas de mercúrio de um termômetro quebrado
deslizando pelo chão, quando você gritou baixinho
A quem mais eu poderia recorrer? Quem mais eu tinha?, a
louça despedaçada de suas mãos oscilando em minha direção, a
água irrompendo de seus olhos como umidade de pedras
sob forte pressão, eu não conseguia
ver o que faria com o resto de minha vida.
O céu parecia estar se estilhaçando, como uma janela
que alguém arrebenta ao entrar ou sair, seu
rosto pequenino cintilava como se coberto de
cristal despedaçado, de verdadeiro arrependimento, o
arrependimento do corpo. Não conseguia ver como
seriam meus dias com você arrependida, com
você desejando não ter feito aquilo, o
céu desabando ao meu redor, seus estilhaços
cintilando em meus olhos, seu corpo velho e
macio caído contra mim em horror, eu a
tomei nos braços e disse: Está tudo bem,
não chore, está tudo bem, o ar cheio de
vidro voando, eu mal sabia o que
dizia ou quem seria agora que a tinha perdoado.

Trad.: Nelson Santander

After 37 Years My Mother Apologizes for My Childhood

When you tilted toward me, arms out
like someone trying to walk through a fire,
when you swayed toward me, crying out you were
sorry for what you had done to me, your
eyes filling with terrible liquid like
balls of mercury from a broken thermometer
skidding on the floor, when you quietly screamed
Where else could I turn? Who else did I have?, the
chopped crockery of your hands swinging toward me, the
water cracking from your eyes like moisture from
stones under heavy pressure, I could not
see what I would do with the rest of my life.
The sky seemed to be splintering, like a window
someone is bursting into or out of, your
tiny face glittered as if with
shattered crystal, with true regret, the
regret of the body. I could not see what my
days would be, with you sorry, with
you wishing you had not done it, the
sky falling around me, its shards
glistening in my eyes, your old, soft
body fallen against me in horror I
took you in my arms, I said It’s all right,
don’t cry, it’s all right, the air filled with
flying glass, I hardly knew what I
said or who I would be now that I had forgiven you.

Visualizações: 3

Receba novos poemas no seu e-mail

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Uma resposta para “Sharon Olds – Depois de 37 anos minha mãe pede desculpas pela minha infância”

  1. […] 76 – Sharon Olds – Depois de 37 anos…Quando você se inclinou para mim, braços abertos,como quem tenta atravessar uma fogueira,quando você cambaleou em minha direção, gritandoque sentia muito pelo que havia feito comigo, seusolhos se enchendo de um líquido terrível comobolhas de mercúrio de um termômetro partidodeslizando pelo chão, quando você bradou baixinhoA quem mais eu poderia recorrer? Quem mais eu tinha? (…) […]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *