Pedro Salinas – Não Quero que te Vás

Não quero que te vás dor, última maneira de amar. Sinto-me vivo quando me martirizas não em ti, nem aqui, além: no chão, no ano de onde tu vieste, naquele amor por ela e tudo o que foi. Nessa realidade submersa que nega a si mesma e se empenha em nunca ter havido, que só … Continue lendo Pedro Salinas – Não Quero que te Vás

Paulo Henriques Britto – de “Dez Sonetoides Mancos”

VI Nada de mergulhos. É na superfície que o real, minúsculo plâncton, se trai. Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneira do funcional. E o sofrimento, ai, esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti- nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, … Continue lendo Paulo Henriques Britto – de “Dez Sonetoides Mancos”

Fernando Moreira Salles – Legado

Não há dor partilhável nem lamento que se ouça É pequeno o destino do teu sonho e do meu Se alguém te viu passar se o caminho te pertence segue e sorri

Mia Couto – A Luz da Dor

O meu modo de saber é adoecendo. A uns, a ideia surge em luz. A mim, se declara uma pontada no peito. O advento da dor, o deflagrar da súbita febre e eu sei que o meu corpo sabe. Um dia destes me desconhecerei vivo desfalecido de aguda sapiência. Até lá repartirei com um anjo … Continue lendo Mia Couto – A Luz da Dor

Fernando Pessoa – Autopsicografia

O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a … Continue lendo Fernando Pessoa – Autopsicografia

Paulo Henriques Britto – De “Bonbonnière”

IV Só não dói mais porque não é preciso. Se fosse o caso, a dor era pior. Não há nada nisso de extraordinário: A natureza odeia o desperdício, tal como o vácuo. Sem tirar nem pôr. É exatamente a conta necessária, até que alguma solução se encontre. O que aliás não acontece nunca. E isso … Continue lendo Paulo Henriques Britto – De “Bonbonnière”