Tag: Vésperas
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Ivan Junqueira – Vésperas

A tarde descortina uma paisagem híspida: no galho seco, o ninho é uma inútil relíquia que a luz do sol calcina até a estrita cinza. Gota a gota, o alambique das horas se esvazia, e dilui-se a vertigem do álcool que lhe mordia as veias retorcidas. Êxtase da agonia no crepúsculo a pino. Sob o…
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Louise Glück – Vésperas (10)

Fim de agosto. Calorcomo em uma estufa sobre ahorta do John. E algumas coisastêm a coragem de começar,cachos de tomates, talhõesde lírios tardios – otimismodas grandes hastes – ouroe prata imperiais: mas por queiniciar algotão perto do fim?Tomates que nunca amadurecerão, líriosque o inverno matará, que nãoretornarão na primavera. Ouvocê acha queeu passo tempo demaispensando…
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Louise Glück – Vésperas (9)

Sua voz se foi agora; mal consigo ouvi-la.Sua voz estrelada é apenas sombra agorae a terra está escura novamentecom suas grandes transformações. E de dia a grama fica parda em alguns pontossob as amplas sombras dos carvalhos.Agora, por toda parte, sou assunto para o silêncio, então está claro que não tenho acesso a você;Não existo…
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Louise Glück – Vésperas (7)

Eu sei o que você planejou, o que pretendia ao me ensinara amar o mundo, tornando impossívelvirar completamente as costas, excluí-lo completamente para sempre –está por toda parte; quando fecho os olhos,no canto dos pássaros, no aroma de lilases no início da primavera, no aroma de rosas no verão:você quer arrancar de mim cada flor,…
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Louise Glück – Vésperas (6)

Você pensou que nós não soubéssemos. Mas nós sabíamos,as crianças sabem dessas coisas. Não vire as costas agora – nós habitávamosuma mentira para apaziguá-lo. Eu me lembroda luz do sol do início da primavera, os taludesreticulados por vincas roxas. Eu me lembrode me deitar em um campo, roçando o corpo de meu irmão.Não vire as costas…
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Louise Glück – Vésperas (5)

Assim como você apareceu para Moisés, porqueeu necessito de você, você aparece para mim,raramente, porém. Eu vivo essencialmentenas trevas. Você talvez esteja me treinando para sermais responsiva ao menor clarão. Ou, como os poetas,será que o desespero o estimula, o sofrimentoo leva a revelar sua natureza? Esta tarde,no mundo material ao qual você normalmentecontribui com…
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Louise Glück – Vésperas (4)

Eu não me pergunto mais onde você está.Você está no jardim; você está onde John está,na terra, absorto, segurando sua pequena pá verde.É assim que ele jardina: quinze minutos de intenso esforço,quinze minutos de estática contemplação. Às vezes,trabalho ao lado dele, fazendo as tarefas à sombra,capinando, esfolhando as alfaces; às vezes, o observodo alpendre próximo…
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Louise Glück – Vésperas (3)

Para além de mim, muito provavelmentevocê ama ainda mais as criaturas do campo; talvez, até o próprio campo, pontilhado em agostode chicórias-bravas e ásteres.Eu sei. Eu me compareia essas flores, com seu leque de sentimentostão menores e sem problemas; assim como à ovelha branca,na verdade, cinzenta: eu sou particularmenteapta a louva-lo. Então por quevocê me…
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Louise Glück – Vésperas (2)

Em sua prolongada ausência, você me permiteusar a terra, antecipandoalgum retorno sobre o investimento. Devo reportarque falhei em minha missão, principalmenteem relação à plantação de tomates.Acho que não devo ser encorajada a cultivartomates. Ou, se o for, você você deveria reteras fortes chuvas, as gélidas noites que sãotão comuns por aqui, enquanto outras regiões desfrutamde…
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Louise Glück – Vésperas (1)

Uma vez acreditei em você; plantei uma figueira.Aqui, em Vermont, uma terraque desconhece o verão. Era um teste: se a árvore sobrevivesse,isso provaria que você existe. Segundo essa lógica, você não existe. Ou existeexclusivamente em climas mais quentes,na fervorosa Sicília, no México e na Califórnia,onde crescem o inimagináveldamasco e o vulnerável pêssego. Talvezvejam sua face…