Mês: janeiro 2025
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Eugenio Montale – A enguia

A enguia, a sereiados mares frios que deixa o Bálticopara alcançar os nossos mares,nossos estuários, os riosque sobe pelas profundezas, contra a enxurrada,de braço em braço e depoisde veio em veio, cada vez mais delgados,sempre mais dentro, sempre mais perto do coraçãoda rocha, filtrando-sepor regos de lama até que um diauma luz desfechada dos castanheirosacende…
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Li-Young Lee – Cuidado

“Cuidado”, um poema de Li-Young Lee sobre a intimidade dos pequenos gestos cotidianos e a inevitabilidade da passagem do tempo, revelando a beleza e a fragilidade da vida.
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Eavan Boland – Quarentena

Na pior hora da pior estaçãodo pior ano de todo um povoum homem partiu do internato com a mulherEle andava – ambos andavam – para o norte Ela tinha a febre da fome e não se aguentava.Ele a ergueu e a pôs nas costas.Andou assim para oeste e oeste e norte. Até queao anoitecer sob…
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Marina Colasanti – Sexta-feira à noite
Sexta-feira à noiteOs homens acariciam o clitóris das esposasCom dedos molhados de saliva.O mesmo gesto com que todos os diasContam dinheiro, papéis, documentosE folheiam nas revistasA vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noiteOs homens penetram suas esposasCom tédio e pénis.O mesmo tédio com que todos os diasEnfiam o carro na garagemO dedo no narizE metem…
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Anna Swir – Eu lavo a camisa

“Eu lavo a camisa”, um poema de Anna Swir sobre o último adeus através de um ato simples, mas carregado de significado e emoção.
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Emily Dickinson – Após grande dor sobrevém um sentimento austero

Após grande dor sobrevém um sentimento austero –Os Nervos ficam cerimoniosos como um cemitério –Indaga o rijo Coração se foi Ele que sofreu,Se Ontem, ou Séculos antes aconteceu? Os pés, mecânicos, circundam sem cessar –Nos Sopés, no Ar, em qualquer Lugar –Um caminho de madeiraQue indiferentemente medraUm contentamento de Quartzo, uma pedra – A Hora…
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Linda Gregg – Noites na vizinhança

“Noites na Vizinhança”, um poema de Linda Gregg sobre a compaixão silenciosa que ilumina os cantos escuros da alma humana.
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William Carlos Williams – Nevasca

Neve:anos de fúria seguindohoras que flutuam indolentes —a nevascadeposita seu fardocada vez mais fundo por três diasou sessenta anos, não? Entãoo sol! um tumulto deflocos amarelos e azuis —Árvores de aparência hirsuta destacam-seem longas alamedassobre uma selvagem solidão.O homem se vira e lá —seu solitário rastro estendendo-sesobre o mundo. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema originalmente…
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Edward Hirsh – Como será a última noite

“Como será a última noite”, um poema de Edward Hirsh sobre a solidão íntima e a contemplação resignada diante da vastidão da noite e do infinito.
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Nuno Júdice – Epidemia

Passa de um para o outro através do olhar, de uma palavra,de um toque de mãos; por vezes, basta um leve suspiropara adivinhar a febre, e atrás dele descobre-se quenão é preciso cura nem tratamento. Instala-se na cabeça,no corpo, na boca, nos dedos, sem dor nem cansaço,apenas aquela ânsia a que se dá o nome…