Os restos
—Wuxi, China
Saindo do novo cemitério, meu pai
pega a minha mão, tendo acabado de reenterrar os restos
de seu próprio pai e das duas esposas dele —
aos dez anos, ele já perdera a mãe para a tuberculose.
Ele pega a minha mão e diz: Agora posso morrer em paz
mesmo sem termos conseguido os ossos de fato. Os bandidos da aldeia
contratados pelo meu tio garantiram que os montículos das sepulturas
atrás da casa em que meu pai crescera não sentiriam
uma única lâmina de pá entrar, enquanto eles estavam ali
de sentinela com os braços cruzados. A esposa do meu tio
teve um sonho em que da ferida aberta da sepultura
irrompiam demônios — fantasmas ancestrais que não queriam ser
perturbados. Em menos de uma década, tratores virão
botar abaixo a aldeia dos Liu. As cinzas do meu
avô, os ossos da minha avó, meu próprio pai
se afastando com dois punhados de terra e dizendo:
Isso terá que servir. Tantos outros morreram
sem ter deixado nada para trás. Eu nunca mais voltarei
a este lugar. Meu pai beija a minha mão,
eu que atravessei de avião doze fusos horários para estar aqui
ao seu lado numa van emprestada, eu olhando pela
janela para uma paisagem rural outrora invadida
por japoneses marchando para o oeste ao longo dos trilhos,
meu pai e seus irmãos escondidos numa latrina,
um cavalo morto encontrado no pátio da escola logo após
a partida dos soldados. Suas mãos são tão macias!, eu digo
ao meu pai. As suas também, ele responde. Lembra
quando foi a última vez em que ficamos de mãos dadas? Eu devia ser
uma criança, respondo, talvez com oito, ou dez? Você tinha seis,
meu pai diz. E ainda sou seu filho, eu digo,
apoiando-me no ombro dele, nossas mãos do mesmo tamanho.
E eu serei sempre seu pai, meu pai diz
antes que eu tenha a oportunidade de dizer outra palavra,
meu pai de oitenta anos caindo no sono.
Trad.: Nelson Santander
The Remains
—Wuxi, China
Walking out of the new cemetery, my father
takes my hand, having just re-interred the remains
of his own father and his father’s two wives—
his mother dead from T.B. by the time he was ten.
He takes my hand and says, Now I can die in peace
even if we didn’t get the actual bones. Village thugs
hired by my uncle made sure the burial mounds
behind the house my father grew up in would not feel
a single shovel blade go in as they stood there
sentinel with arms crossed. My uncle’s wife
had a dream that out of the grave’s opened gash
demons rushed—ancestral ghosts not wanting to be
disturbed. In less than a decade, bulldozers will come
to take the Liu village down. My grandfather’s
ashes, my grandmother’s bones, my own father
walking away with two fistfuls of dirt and saying,
This will have to do. So many others have died
who’ve left nothing behind. I’ll never come back
to this place again. My father kisses my hand,
I who’ve flown across twelve time zones to be here
at his side in a borrowed van, me looking out
the window at a countryside once overrun
with Japs marching West along the railroad tracks,
my father and his siblings hiding in an outhouse,
a dead horse found in the schoolyard soon after
the soldiers had gone. Your hands are so soft! I say
to my father. So are yours, he says. Remember
when it was we last held hands? I must have been
a kid, I say, maybe eight, or ten? You were six,
my father says. And I’m still your son, I say,
leaning into his shoulder, our hands the same size.
And I’ll always be your father, my father says
before I have the chance to say another word,
my eighty-year-old father nodding off into sleep.

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