Não importa a dor, seu peso,
somos obrigados a carregá-la.
Erguemo-nos e ganhamos impulso, a força entorpecida
que nos empurra através das multidões.
Mas então um garoto me indica o caminho
com tanto entusiasmo. Uma mulher segura a porta de vidro aberta,
pacientemente esperando meu corpo vazio passar por ela.
Ao longo do dia, isso continua, cada ato de bondade
se estendendo em direção a outro — um estranho
cantando para ninguém enquanto passo pelo caminho, árvores
ofertando suas flores, uma criança
que ergue seus olhos amendoados e sorri.
De alguma forma, eles sempre me encontram, até parecem
estar à espera, determinados a me afastar
de mim mesma, daquilo que me chama,
como um dia deve tê-los chamado —
esta tentação de dar um passo além da borda
e cair sem peso, longe do mundo.
Trad.: Nelson Santander
N. do T.: O título original, For the Sake of Strangers, admite uma tradução mais direta como “Por amor aos estranhos”. Optei por “Da gentileza de estranhos” para destacar a bondade cotidiana que atravessa o poema e evocar a fala de Blanche DuBois sobre sua dependência da gentileza de estranhos, em Um bonde chamado desejo, de Tennessee Williams.
For the Sake of Strangers
No matter what the grief, its weight,
we are obliged to carry it.
We rise and gather momentum, the dull strength
that pushes us through crowds.
And then the young boy gives me directions
so avidly. A woman holds the glass door open,
waiting patiently for my empty body to pass through.
All day it continues, each kindness
reaching toward another—a stranger
singing to no one as I pass on the path, trees
offering their blossoms, a child
who lifts his almond eyes and smiles.
Somehow they always find me, seem even
to be waiting, determined to keep me
from myself, from the thing that calls to me
as it must have once called to them—
this temptation to step off the edge
and fall weightless, away from the world.

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