Mosab Abu Toha
Em uma noite sem estrelas
Em uma noite sem estrelas,
eu viro de um lado para outro.
A terra treme, e eu caio da cama.
Olho pela minha janela. A casa
vizinha não existe mais. Está deitada, como um velho tapete no
chão da terra, pisoteada por mísseis, largos chinelos
voando de pés sem pernas.
Eu não sabia que meus vizinhos ainda tinham aquela pequena TV, que aquele quadro
antigo ainda estava pendurado em suas paredes, que a gata deles tivera filhotes.

O que é lar?
O que é lar?
é a sombra das árvores no meu caminho para a escola antes de serem arrancadas.
é a foto em preto e branco do casamento dos meus avós antes das paredes desmoronarem.
É o tapete de oração do meu tio, onde dezenas de formigas dormiam nas noites de inverno, antes de ser saqueado e colocado em um museu.
É o forno que minha mãe usava para assar pão e frango antes de uma bomba reduzir nossa casa a cinzas.
É a cafeteria onde eu assistia a partidas de futebol e jogava.
Meu filho me interrompe: uma palavra de três letras pode conter tudo isso?

Merecemos uma morte melhor
Merecemos uma morte melhor.
Nossos corpos estão desfigurados e retorcidos,
adornados com balas e estilhaços.
Nossos nomes são mal pronunciados
no rádio e na TV.
Nossas fotos, afixadas nas paredes de nossos prédios,
desbotam e empalidecem.
As inscrições em nossas lápides desaparecem,
cobertas por fezes de pássaros e répteis.
Ninguém rega as árvores que fazem sombra
em nossos túmulos.
O sol abrasador subjuga
nossos corpos em decomposição.
Mosab Abu Toha, poeta palestino. Segundo o The New York Times, recentemente ele foi detido pelas tropas israelitas enquanto migrava para o sul de Gaza com sua família. Depois de espancado, torturado e interrogado pelos soldados de Israel, acabou sendo solto no último dia 21/11.

Khaled Juma
Oh crianças malcriadas de Gaza
Oh crianças malcriadas de Gaza.
Vocês que me perturbavam o tempo todo
com seus gritos debaixo da minha janela.
Vocês que enchiam de caos e correria
todas as minhas manhãs.
Vocês que quebraram meu vaso
e roubaram a flor solitária em minha varanda.
Voltem,
e gritem o quanto quiserem
e quebrem todos os vasos.
Roubem todas as flores.
Voltem.
Apenas voltem.
Khaled Juma é um renomado escritor e poeta da Palestina. Nascido em Rafah, em 25 de outubro de 1965, Juma foi criado no campo de refugiados palestinos de Al-Shaboura, na Faixa de Gaza. Ele é chefe do Departamento Cultural da Agência de Notícias e Informações da Palestina (WAFA) e foi editor-chefe da revista Roya por sete anos.

N. do T.: todas as traduções foram feitas a partir de versões em inglês dos poemas acima.

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