James Davis May – Rubra em dente e garra

James Davis May – Rubra em dente e garra

Mesmo na noite em que meu amigo morreu1 e 2
depois de uma longa doença —
não vou usar a palavra
batalha,
mas o câncer tinha sumido,
e então voltou, como o assassino de algum filmes de terror —
mesmo naquela noite, a gata selvagem, aquela
branca e felpuda e às vezes afável,
ainda atravessava em silêncio a entrada de nossa garagem,
dos pinheiros do vizinho aos nossos rododendros,
mesmo naquela noite, ela procuraria algum roedor
ou pássaro para aterrorizar e mutilar
e talvez matar de vez.
E eu, bebendo, de luto, em nosso terraço,
estava horrorizado com o mundo e sua bruta recusa
em deixar de ser o mundo,
e depois envergonhado,
não apenas por minha própria ingenuidade (embora disso eu tenha de sobra),
mas pela minha doença humana inata de acreditar
que importamos,
que há alguém nos ouvindo,
que a civilidade não é apenas algo que imaginamos
e que, de qualquer modo, nem praticamos de verdade.
Naquela noite,
eu queria que tudo fosse melhor do que é,
então fui até a geladeira, tirei o leite,
despejei-o numa pequena tigela, que deixei na varanda,
e encontrei vazia na manhã seguinte.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

1. O título alude à célebre expressão “Nature, red in tooth and claw”, do canto LVI de In Memoriam A.H.H. (1850), elegia em que Alfred Lord Tennyson, escrevendo a partir da morte de seu amigo Arthur Henry Hallam, confronta a crença no amor como lei última da Criação com a violência e a indiferença do mundo natural. A alusão é especialmente significativa neste poema, que também parte da morte de um amigo para interrogar a natureza, a fé e a pretensão humana de que o mundo responda às nossas categorias morais. Optei por “Rubra em Dente e Garra” para preservar essa referência intertextual, embora a expressão inglesa não possua equivalente idiomático exato em português.

2. “Red in Tooth and Claw” foi finalista do Rattle Poetry Prize de 2019 e venceu o Rattle Poetry Prize Readers’ Choice Award, escolhido pelos assinantes da revista. Ao comentar o poema, James Davis May explicou que seu desconforto com a metáfora da doença como guerra se mistura aqui ao luto e a uma crise secular de fé — na natureza e na humanidade — e que ele próprio não sabe se o gesto final da tigela de leite constitui uma resposta fraca ou convincente à crise: talvez seja ambas as coisas.

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Red In Tooth And Claw

Even on the night my friend died
after a long illness—
I won’t use the word
battle,
but the cancer was gone,
and then it came back, like some slasher film killer—
even on that night, the feral cat, the one
that’s white and fluffy and sometimes affectionate,
still crossed our driveway, quietly,
from our neighbor’s pines to our rhododendrons,
even on that night, she would look for some rodent
or bird to terrorize and mangle
and maybe fully kill.
And I, drinking and grieving on our deck,
was appalled by the world and its gross refusal
to stop being the world,
and then embarrassed
not just by my own naivety (though there’s plenty of that)
but by my innate human sickness that believes
we matter,
that someone is listening,
that civility isn’t just something we imagined
and don’t really follow anyway.
That night
I wanted everything to be better than it is,
so I went to the fridge, got out the milk,
poured it into a little bowl, which I left on the porch
and found empty the next morning.

Visualizações: 6

Receba novos poemas no seu e-mail

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Uma resposta para “James Davis May – Rubra em dente e garra”

  1. […] 61. James Davis May – Lei da SilvaAté na noite em que meu amigo morreudepois de uma longa doença —não vou usar a palavrabatalha,pois o câncer havia desaparecido,e depois voltou, como algum assassino de filmes de terror —até naquela noite, a gata selvagem, aquelabranca e fofa e às vezes afável,ainda cruzava nossa garagem, silenciosamente,dos pinheiros do vizinho até nossos rododendros,até naquela noite, ela procurava algum roedorou pássaro para aterrorizar e mutilare talvez até matar. (…) […]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *