Reginald Gibbons – O que remanesce

Sim, o pão está envenenado. E não há sequer um gole de ar.
Como é difícil curar a ferida da vida.
O próprio José, vendido ao Egito como escravo,
não poderia ter ficado mais profundamente magoado.

Então, sob o enxame de estrelas do céu, chegam os Beduínos.
Eles acalmam seus cavalos. Então, por turnos, com olhos fechados,
cada um inventa algum fragmento cantado de seu dia que nada
teve de épico, que só lhes trouxe tédio,

pois entre tais cavaleiros, pouco é necessário para inspirar —
nas dunas, um homem perdeu uma aljava de flechas,
outros trocaram alguns castrados por uma égua — os eventos são
apenas uma névoa que rareia e desaparece.

Mas se — apenas se — tais canções forem cantadas até o fim
com todo o coração, com toda respiração dos pulmões,
quase tudo desaparece… E o que remanesce
é a vastidão do deserto, as estrelas, e aquele que canta.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: “What Remains” é uma versão do poeta, romancista, tradutor e crítico literário americano Reginald Gibons para o poema “Отравлен хлеб, и воздух выпит…” (“O ar foi todo bebido e o pão, corrompido…”), de Ósip Mandelstam, que traduzi e publiquei neste blog no último sábado (Aqui).

Aqui você pode ler uma (ótima) revisão deste poema.

What Remains

Yes, bread that’s poisoned. And not even one sip of air.
How hard it is for the wound of life to be cured.
Joseph himself, sold to Egypt as a slave,
could not have been more heavily grieved.

Then under the sky-swarm of stars, Bedouins come.
They quiet their horses. Then in turn, with eyes closed,
each invents some chanted fragment of their day
of epic nothing, that only brought them boredom,

for among such riders, little’s needed to inspire—
in the dunes, one man lost a quiver of arrows,
others traded some geldings for a mare—events are
only a mist that thins and disappears.

But if—if—such songs are sung out to the end
with all the heart, with all the breath in the lungs,
almost everything vanishes . . . And what remains
is the desert vastness, the stars, the one who sings.

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