Peter Sirr – Uma cartilha saxônica

Uma cartilha saxônica

Para além deste afã e deste verso, aguarda-me inesgotável o universo. – Borges

Penso então em Borges ficando cego,
e no que ele disse sobre a alma.
Ele tentava entender por que
um homem que perde o mundo
busca espadas e monstros
e saxões com vozes rudes no Salão de Hidromel1.

É que a alma sabe-se imortal,
diz ele, e seu faminto círculo espiralado
tudo alcança, realiza o que é possível.
Há um tipo de conhecimento secreto
que nos abraça, atinge tudo o que fazemos ou então
tudo o que fazemos é conhecimento e alma.

Além de tudo isso, a gramática suada,
o esforço de conhecer uma coisa após outra,
do outro lado do poema o universo aguarda,
paciente e inesgotável. Repetidamente,
a luz vai desvanecendo de tudo quanto amamos
embora a ela nos voltemos sempre, cantando

para mitigar a escuridão e recolher a luz de volta.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

  1. Um salão de festas na antiga Escandinávia e na Europa germânica, que servia também de residência de um senhor e de seus servos. Na mitologia nórdica, a mead hall era o salão onde eventualmente os mortos aportavam assim que deixavam a vida. P. e., o Valhalla.

A Saxon Primer

Más allá de este afán y de este verso me aguarda inagotable el universo. – Borges

Then I think of Borges going blind,
of what he said about the soul.
He was trying to understand
why a man who was losing the world
would seek out swords and monsters,
blunt-voiced Saxons in the mead hall.

It’s that the soul must know it’s immortal,
he said, and its hungry turning circle
takes everything in, achieves all that’s possible.
There’s a kind of secret knowledge
enfolds us, reaches everything we do
or else all we do is the knowledge and the soul.

Beyond all this, the sweated grammar,
the effort to know one thing after another,
on the other side of the poem the universe is waiting,
patient and inexhaustible. Time and again
the light keeps fading from what we love
though we turn and turn to it, singing

to blunt the darkness, to fold the light back in.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s