Ellen Bass – A dor de deus

Ellen Bass – A dor de deus

Grande progenitor
que deve ter começado
com tão grandes esperanças.
Que magnitude de sofrimento,
a imensidão da culpa,
o desespero avassalador.
Uma mente do tamanho do sol,
ardendo de anseio,
um coração enorme como uma baleia-cinzenta
irrompendo à superfície, jorrando
água do mar contra o céu claro.
Deus-homem ou deus-fera,
deus que respira em cada folha plissada,
saco vocal de sapo, penugem e haste —
deus do plutônio e da penicilina, bêbado
dormindo sobre a grade do metrô,
deus de Joana d´Arc, deus de Crazy Horse,
de Lady Day1, que nos põe de joelhos,
deus de Houdini com mãos
como um rio, de Einstein, o arrependimento
correndo espesso em suas veias,
deus de Stalin, deus de Somoza,
deus da Grande Marcha2,
da Trilha das Lágrimas3,
dos trens,
deus de Allende e deus de Tookie4,
do colhedor de morangos, fogo nas costas,
deus da meia-noite, deus do inverno,
deus das crianças maquiadas vendidas
junto com uma semana de hospedagem
e passagem aérea para a Tailândia,
deus em apuros, deus no limite —
insone, impotente —
deus desesperado, deus desvairado, coração-baleia
perdido em águas rasas, encalhado
na areia, ressequido, empolado, esmagado
pelo peso imenso da gravidade.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “God’s Grief”. In:_____The Human Line. EUA: Copper Canyon Press, June 01, 2007.

Miniantologia Poética – 7

Notas

  1. Lady Day era o apelido da cantora de jazz Billie Holiday (1915–1959), dado a ela pelo saxofonista Lester Young.
  2. A Grande Marcha foi a retirada das forças comunistas chinesas em 1934–35, durante a Guerra Civil Chinesa, para escapar ao cerco das forças do Kuomintang
  3. Nome associado às remoções forçadas de povos indígenas do sudeste dos Estados Unidos para o Território Indígena, atual Oklahoma, na década de 1830; a remoção Cherokee de 1838–39 provocou milhares de mortes durante a viagem e em consequência dela
  4. Stanley ‘Tookie’ Williams III (1953–2005), cofundador dos Crips, foi condenado por quatro homicídios e executado na Califórnia em 2005. Durante os anos no corredor da morte, tornou-se autor de livros contra a violência de gangues e participou de iniciativas voltadas à prevenção desse tipo de violência.

God’s Grief

Great parent
who must have started out
with such high hopes.
What magnitude of suffering,
the immensity of guilt,
the staggering despair.
A mind the size of the sun,
burning with longing,
a heart huge as a gray whale
breaching, streaming
seawater against the pale sky.
Man god or beast god,
god that breathes in every pleated leaf,
throat sac of frog, pinfeather and shaft—
god of plutonium and penicillin, drunk
sleeping on the subway grate,
god of Joan of Arc, god of Crazy Horse,
Lady Day, bringing us to our knees,
god of Houdini with hands
like a river, of Einstein, regret
running thick in his veins,
god of Stalin, god of Somoza,
god of the long march,
the Trail of Tears,
the trains,
god of Allende and god of Tookie,
the strawberry picker, fire in his back,
god of midnight, god of winter,
god of rouged children sold
with a week’s lodging
and airfare to Thailand,
god in trouble, god at the end of his rope—
sleepless, helpless—
desperate god, frantic god, whale heart
lost in the shallows, beached
on the sand, parched, blistered, crushed
by gravity’s massive weight.

Ellen Bass – A dor de Deus

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3 respostas a “Ellen Bass – A dor de deus”

  1. […] desgastou de tal forma, e acumulamos tantos traumas, recalques, remorsos, mágoas, insatisfações, arrependimentos, frustrações, perdas, que comparar o presente com o passado soa quase como […]

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