Joseph Stroud – Primeira Canção

Aquela distante manhã na fazenda da Ruth
em que me escondi entre as glicínias
e observei os beija-flores. Eu achava
que o rubi ou o ouro que brilhavam em seus pescoços
fossem o sangue adocicado das flores.
Eles metiam seus bicos perfurantes
em uma coroa de pétalas até suas cabeças
desaparecerem. As flores se esbatiam ao vento,
e a respiração que eu ouvia
vinha das finas hastes das glicínias em movimento.
Naquela noite, meu rosto pressionado contra a vidraça,
eu olhei para fora, para a escuridão
onde a lua se afogava nos salgueiros
perto da lagoa. Meu coração, sanguíneo jaspe,
se transformou. Aquela longa noite, a fazenda,
aqueles rútilos pássaros, todos esses anos idos.
Os cavalos em pé quietos e enormes
sob a lua trespassada de escuridão.

Trad.: Nelson Santander

First Song

That long-ago morning at Ruth’s farm
when I hid in the wisteria
and watched hummingbirds. I thought
the ruby or gold that gleamed on their throats
was the honeyed blood of flowers.
They would stick their piercing beaks
into a crown of petals until their heads
disappeared. The blossoms blurred into wings,
and the breathing I heard
was the thin, moving stems of wisteria.
That night, my face pressed against the window,
I looked out into the dark
where the moon drowned in the willows
by the pond. My heart, bloodstone,
turned. That long night, the farm,
those jeweled birds, all these gone years.
The horses standing quiet and huge
in the moon-crossing blackness.

Joseph Stroud – A mais difícil tradução do amor

Após cinco anos de casamento
ele achou que seu coração finalmente havia traduzido o matrimônio.
Mas foi como aquela noite no Festival de Filmes Estrangeiros
quando, quase na metade, o filme de repente
mudou de legendado para dublado
& por um instante ele achou que entendia romeno.

Trad.: Nelson Santander

Love’s More Difficult Translation

About five years into the marriage
he thought his heart had finally translated it.
But it was like that night at the Foreign Film Festival
halfway through a movie when suddenly
it switched from subtitles to dubbed English
& for an instant he thought he understood Romanian.

Joseph Stroud – Perdido

O cervo se distancia de mim e segue tranquilamente
colina acima sem nem mesmo relancear os olhos
para onde estou, de onde começo a cruzar
um campo de neve em meu corpo e me perco
enquanto uma cinza branca despenha do céu encobrindo meus rastros
e não há como encontrar o caminho de volta.

Lost

The deer turns his head away from me and casually
continues along the ridge not even glancing back
to where I stand, to where I begin to walk across
a field of snow inside my body and lose myself
as a white ash drifts from the sky filling my tracks
and there is no way to find my way back.

Joseph Stroud – Tributo a Rolf Jacobsen

A jaqueta amarela fica batendo contra a vidraça
tentando sair. Desde o começo era apenas uma questão
de abrir a janela, encontrar as palavras,
e você por aí – em um outro, maior mundo.
Para os mortos, o paraíso é a calçada na qual você caminha
olhando as janelas, cantarolando, parando para um café.

Trad.: Nelson Santander

Homage To Rolf Jacobsen

The yellow jacket keeps crashing against the pane
trying to get out. All along it’s only a matter
of opening the window, finding the words,
and you’re out there — in the other, larger world.
To the dead, paradise is the sidewalk you stroll down
looking in windows, humming, stopping for coffee.

Joseph Stroud – Lázaro em Varanasi

Em uma pira no flamejante Ghat
um cadáver senta-se lentamente entre as chamas.
Como se lembrasse de algo importante.
Como se olhasse ao redor uma vez mais.
Como se tivesse finalmente algo a dizer.
Como se houvesse uma maneira de sair disso.

Trad.: Nelson Santander

Lazarus In Varanasi

From a pyre on the burning ghat
a corpse slowly sits up in the flames.
As if remembering something important.
As if to look around one more time.
As if he has something at last to say.
As if there might be a way out of this.

Joseph Stroud – Lendo Kaváfis sozinho na cama

Eu, também, me lembro do passado, meu quarto iluminado por velas,
e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto
com seu rosto, com boca e língua e lábios,
do pomar à noite, do odor das frutas,
seus seios – lembra, corpo? – aquele quarto,
lembra? – nossos gritos, as velas bruxuleantes?

Trad.: Nelson Santander

Reading Cavafy Alone In Bed

I, too, remember the past, my room lit by candles,
and the night she entered and touched my face
with her face, with mouth and tongue and lips,
in the orchard night, in the odor of fruit,
her breasts — remember, body? — that room,
remember? — our cries, the flickering candles?