Javier Salvago – Ano Novo

Como as coisas não podiam ficar pior - escreveu Kafka, em seu Diário - melhoraram. Como eu gostaria, ante este negro e inóspito horizonte que se abre, diante de mim - como mais um ano, ou como menos um ano -, de poder dizer o mesmo. Mas sinto que ainda não cheguei ao fundo, que … Continue lendo Javier Salvago – Ano Novo

Amalia Bautista – Façamos uma limpeza geral

Façamos uma limpeza geral, vamos deitar fora todas as coisas que não nos servem para nada, essas coisas que já não usamos, as que não prestam senão para ganhar pó, e em que tentamos nem reparar porque nos trazem as lembranças mais amargas, coisas que magoam, que ocupam espaço e nunca quisemos perto de nós. … Continue lendo Amalia Bautista – Façamos uma limpeza geral

Carlos Drummond de Andrade – Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Receita de Ano Novo

Laura Liuzzi – Fio Sem Fim

Chega-se, enfim, à última página embora deixe claro: não se chega ao fim. Um mesmo fio fino frágil mas firme, da mesma fibra de rio conduz memória e história: storage — está estendido para sempre e para sempre soará, suará a cada renovação do sol, mesmo quando atingirmos o final — mesmo assim não se … Continue lendo Laura Liuzzi – Fio Sem Fim

Affonso Romano de Sant’Anna – Vai, Ano Velho

Vai, ano velho, vai de vez, vai com tuas dívidas e dúvidas, vai, dobra a ex- quina da sorte, e no trinta e um, à meia-noite, esgota o copo e a culpa do que nem me lembro e me cravou entre janeiro e dezembro. Vai, leva tudo: destroços, ossos, fotos de presidentes, beijos de atrizes, … Continue lendo Affonso Romano de Sant’Anna – Vai, Ano Velho

Ferreira Gullar – Ano Novo

Meia-noite. Fim de um ano, início de outro. Olho o céu: nenhum indício. Olho o céu: o abismo vence o olhar. O mesmo espantoso silêncio da Via-Láctea feito um ectoplasma sobre a minha cabeça nada ali indica que um ano novo começa. E não começa nem no céu nem no chão do planeta: começa no … Continue lendo Ferreira Gullar – Ano Novo