Alan Jenkins – Pertences

Segurei a mão dela, que estava sempre marcada
Por cortar, fatiar, pelas facas que estavam à espreita
No lavatório, mão mal-acabada,
Os nós avermelhados dos dedos, ásperos de esfregar com força
panelas, frigideiras, xícaras e pratos,
Dando amor do único jeito que ela sabia,
Em cada corte barato de carne, em assados e ensopados,
Comidas tradicionais que ela preparava e nós comíamos;
E vi que tinham tirado seus anéis,
Os anéis que ela havia guardado uma vez na gaveta da penteadeira
Com fotos desbotadas, coisas há muito esquecidas
(Vaporizadores de perfume, pentes de tartaruga, um instantâneo ou dois
Da época em que tiramos férias ‘no exterior’)
Mas sem os quais ultimamente ela nunca mais havia ficado, como se
Quisesse que todos soubessem que ela era sua esposa
Só agora que ele estava morto. E o relógio dela? –
Modelo clássico feminino, pulseira de ouro – havia sumido,
E eu nunca a tinha visto sem ele,
Nem em todos aqueles anos que eles se sentaram juntos
Assistindo as telenovelas e game shows que eu desdenhava
E nem quando chegou a minha vez de cozinhar para ela,
Costeletas ou porções de frango, sabores ingleses,
Sem graça, familiares, que ela dizia preferir
A qualquer ‘coisa estrangeira esquisita’
Que os jovens parecem comer hoje em dia, pelo que ela ouvira;
Nem em todas aquelas semanas em que não apareci, quando ela se sentava
Noite após noite e ficava encarando sem ver
A televisão, em seu clima interior,
Se colocava de pé, piscava, se servia de
Drinque após drinque, bebia e fixava o olhar – o uísque
Que, quando ele estava vivo, ela não tocaria,
Esse era o jeito dela estar com ele de novo;
Nem mais tarde, na ala psiquiátrica,
Onde ela piscava sem ver a parede, as enfermeiras
(Que roubariam qualquer coisa, ela dizia), e sonhava
Em quando ela era menina, com o tempo antes
De eu nascer, ou crescer e aprender a desprezar,
Enquanto a TV no canto retumbava
Para abafar os gemidos e imprecações de algumas ‘pobres almas’,
E ela tomava seus comprimidos e piscava e fixava o olhar
Enquanto os outros vagueavam, e babavam, e praguejavam…
Mas agora ela estava deitada aqui, um grosso elástico
Com seu nome escrito em tinta preta borrada era tudo o que ela usava
Na mão que eu segurava, uma mão manchada e enrugada
Cujos dedos não podiam mais apertar os meus
Ou acenar hesitantes, ou tatear minha manga –
As últimas palavras que ela dissera foram Por favor, não vá embora
Mas é claro que eu fui; agora eu estava de volta, embora ela
Não pudesse saber disso, ou virar o rosto para ver
Uma enfermeira trazer a malinha com os seus pertences para mim.

Trad.: Nelson Santander

Effects

I held her hand, that was always scarred
From chopping, slicing, from the knives that lay in wait
In bowls of washing-up, that was raw,
The knuckles reddened, rough from scrubbing hard
At saucepan, frying pan, cup and plate
And giving love the only way she knew,
In each cheap cut of meat, in roast and stew,
Old-fashioned food she cooked and we ate;
And I saw that they had taken off her rings,
The rings she’d kept once in her dressing-table drawer
With faded snapshots, long-forgotten things
(Scent-sprays, tortoise-shell combs, a snap or two
From the time we took a holiday ‘abroad’)
But lately had never been without, as if
She wanted everyone to know she was his wife
Only now that he was dead. And her watch? –
Classic ladies’ model, gold strap – it was gone,
And I’d never known her not have that on,
Not in all the years they sat together
Watching soaps and game shows I’d disdain
And not when my turn came to cook for her,
Chops or chicken portions, English, bland,
Familiar flavours she said she preferred
To whatever ‘funny foreign stuff’
Young people seemed to eat these days, she’d heard;
Not all the weeks I didn’t come, when she sat
Night after night and stared unseeing at
The television, at her inner weather,
Heaved herself upright, blinked and poured
Drink after drink, and gulped and stared – the scotch
That, when he was alive, she wouldn’t touch,
That was her way to be with him again;
Not later in the psychiatric ward,
Where she blinked unseeing at the wall, the nurses
(Who would steal anything, she said), and dreamt
Of when she was a girl, of the time before
I was born, or grew up and learned contempt,
While the TV in the corner blared
To drown some ‘poor soul’s’ moans and curses,
And she took her pills and blinked and stared
As the others shuffled round, and drooled, and swore…
But now she lay here, a thick rubber band
With her name on it in smudged black ink was all she wore
On the hand I held, a blotched and crinkled hand
Whose fingers couldn’t clasp mine any more
Or falteringly wave, or fumble at my sleeve –
The last words she had said were Please don’t leave
But of course I left; now I was back, though she
Could not know that, or turn her face to see
A nurse bring the little bag of her effects to me.

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