Billy Collins – As cadeiras em que ninguém se senta

Vêem-se em varandas e em relvados
mesmo à beira do lago,
geralmente dispostas em pares indicando que um casal

se poderá sentar ali e olhar para
a água ou para as grandes árvores frondosas.
O problema é que nunca se vê ninguém

sentado nessas cadeiras abandonadas
embora a dada altura deva ter parecido
um bom lugar para parar e não fazer nada por um momento.

Às vezes há uma pequena mesa
entre as cadeiras onde ninguém
deixou um copo pousado ou um livro com a capa para baixo.

Posso não ter nada com isso,
mas suponhamos haver um dia
em que todos os que colocaram essas cadeiras vagas

numa varanda ou num cais se sentariam nelas
nem que fosse para se lembrarem
daquilo que achavam que valia a pena

ser contemplado das duas cadeiras
lado a lado com uma mesa pelo meio.
As nuvens estariam altas e imponentes nesse dia.

A mulher descola o olhar do seu livro.
O homem toma um gole da sua bebida.
E ouve-se apenas o som do seu olhar,

o marulhar da água do lago, e o canto de um pássaro
depois de outro, gritos de alegria ou de aflição —
o tempo vai passando enquanto se percebe quais.

Trad.: Ricardo Marques

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 30/01/2019

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Billy Collins – The Chairs That No One Sits In

You see them on porches and on lawns
down by the lakeside,
usually arranged in pairs implying a couple

who might sit there and look out
at the water or the big shade trees.
The trouble is you never see anyone

sitting in these forlorn chairs
though at one time it must have seemed
a good place to stop and do nothing for a while.

Sometimes there is a little table
between the chairs where no one
is resting a glass or placing a book facedown.

It might be none of my business,
but it might be a good idea one day
for everyone who placed those vacant chairs

on a veranda or a dock to sit down in them
for the sake of remembering
whatever it was they thought deserved

to be viewed from two chairs
side by side with a table in between.
The clouds are high and massive that day.

The woman looks up from her book.
The man takes a sip of his drink.
Then there is nothing but the sound of their looking,

the lapping of lake water, and a call of one bird
then another, cries of joy or warning—
it passes the time to wonder which.

Terence Winch – Aquele navio já partiu

Em nossa antiga vida, comíamos sorvete e pudim
de pão. Bebíamos copo após copo de
Grand Marnier até ficarmos enjoados.
Nossa libido era grande como um outdoor.
Nossa libido era maior do que a tela
de um cinema drive-in no meio do nada,
exibindo intermináveis clássicos pornográficos
adolescentes. Tínhamos um apetite insaciável.
Derramávamos banha derretida sobre nossa
pipoca, que então cobríamos
com uma tempestade de sal. Fumávamos,
cheirávamos e nos divertíamos com pessoas
com quem era melhor não se envolver. Falávamos
a noite inteira ao telefone. Líamos
Keats e Yeats e todos os grandes
dia e noite. Brigávamos
em bares. Bebíamos dezesseis xícaras
de café todos os dias. Fingíamos estar doentes
e passávamos o dia em mistérios, dúvidas e
incertezas. Desprezávamos nossas
responsabilidades sem pensar duas
vezes. Comíamos comida chinesa
e pizza no café da manhã. Pegávamos
o ônibus para visitar os amigos onde quer
que estivessem. Roubávamos livros.
Enganávamos, mentíamos, chorávamos.
Dançávamos a noite toda na sala
ao redor da árvore de natal.

Em nossa nova vida, tentamos lembrar
os nomes das pessoas com quem pensamos
ter dormido. Tiramos
as embalagens de brócolis congelados do
freezer. Acendemos uma vela
para comemorar a travessia
da grande divisão entre
a ilha esmeralda dos jovens
e as canções em nossos ossos
que ficaram sem ser cantadas.

Trad.: Nelson Santander

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That Ship Has Sailed

In our old life, we ate ice cream and bread
pudding. We drank glass after glass of
Grand Marnier until it made us sick.
Our libido was as big as a billboard.
Our libido was larger than a drive-in
theater screen in the middle of nowhere
playing endless adolescent pornographic
classics. We had an appetite for appetite.
We poured melted lard all over our
popcorn which we then covered
with a snowstorm of salt. We smoked,
we snorted, we cavorted with people
who were best left alone. We talked
all fucking night on the phone. We read
Keats and Yeats and all the greats
day and night. We got into fights
in pubs. We drank sixteen cups
of coffee every day. We called in sick
and spent the day in mysteries, doubts,
uncertainties. We shirked our
responsibilities without a second
thought. We ate Chinese food
and pizza for breakfast. We rode
the bus to visit friends wherever
they might be. We stole books.
We cheated, we lied, we cried.
We danced all night in the living
room around the Christmas tree.

In our new life, we try to remember
the names of the people we think
we might have slept with. We haul
the bags of frozen broccoli out
of the freezer. We light a candle
to commemorate crossing
the great divide between
the green island of the young
and the songs in our bones
that have come unsung.

Ursula K. Le Guin – Prece de uma Noite de Janeiro

Sinos badalam, excêntricos ventos
assobiam gelados vindos das terras desérticas
sobre as montanhas. Janus, Senhor
do inverno e dos começos, fendido
e abalado, com duas faces,
sentinela dos portões dos ventos e das cidades,
deus dos insones:
livra-me da gélida inveja
e da ira mesquinha. Abre
minha alma para os vastos
lugares escuros. Diz-me, e diz de novo:
nada nos é tomado, só ofertado.

Trad.: Nelson Santander

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January Night Prayer

Bellchimes jangle, freakish wind
whistles icy out of desert lands
over the mountains. Janus, Lord
of winter and beginnings, riven
and shaken, with two faces,
watcher at the gates of winds and cities,
god of the wakeful:
keep me from coldhanded envy
and petty anger. Open
my soul to the vast
dark places. Say to me, say again,
nothing is taken, only given.

Wendell Berry – Eles se sentam juntos na varanda

Eles se sentam juntos na varanda, a escuridão
Aproximando-se, a casa atrás deles na penumbra.
Terminada a refeição, lavaram e secaram
A louça – apenas dois pratos agora, dois copos,
Duas facas, dois garfos, duas colheres – tarefa pequena para dois.
Ela se senta com as mãos cruzadas no colo,
Em repouso. Ele fuma seu cachimbo. Não trocam palavras,
E quando finalmente o fazem é para dizer
O que ambos sabem que o outro já sabe. Têm
uma mente em comum agora, que,
Apesar de todo o conhecimento, não saberá exatamente
Quem será o primeiro a atravessar o escuro portal, desejando
Boa noite, e quem ficará sozinho por um tempo.

Trad.: Nelson Santander

They Sit Together on the Porch

They sit together on the porch, the dark
Almost fallen, the house behind them dark.
Their supper done with, they have washed and dried
The dishes–only two plates now, two glasses,
Two knives, two forks, two spoons–small work for two.
She sits with her hands folded in her lap,
At rest. He smokes his pipe. They do not speak,
And when they speak at last it is to say
What each one knows the other knows. They have
One mind between them, now, that finally
For all its knowing will not exactly know
Which one goes first through the dark doorway, bidding
Goodnight, and which sits on a while alone.

Linda Pastan – Os meses

Janeiro

Retorcidas pelo vento,
meras estruturas para gelo ou neve,
as árvores decidem
resistir por enquanto,

elas brotarão em abril.
E eu devo ser paciente
como as árvores —
uma resolução de inverno

que quebro novamente,
enquanto o frio pressiona
sua lâmina afiada
contra minha garganta.

Fevereiro

Após uma interminável
hibernação
no peitoril da janela,
a orquídea floresce —

pontos púrpuras bordados,
acima e abaixo,
numa fina haste.
Lá fora, a neve

derrete no ar e se transforma
em chuva.
Mês abreviado.
Todo tipo de clima.

Março

Quando o Rei dos Elfos veio
levar a criança
no poema de Goethe, o pai disse:
não tenha medo,

é apenas o vento…
Como se não fosse o vento
que leva embora os fragmentos
delicados deste mundo —

folhas remanescentes nos cantos
do jardim, uma rosa quaresmal
que pensou estar segura
ao florescer tão cedo.

Abril

No borrão em tons pastéis
do jardim,
a cereja
e a Cercis1

sacodem a chuva
de seus delicados
ombros, enquanto pétalas
da dogwood

rosa
descem pelas valetas
como oníricos
rios de cores.

Maio

Maçã-de-maio, narciso,
jacinto, lírio,
e junto aos degraus
da varanda da frente

todos os tons
ondulantes de lilás
e lavanda roxa,
a flor favorita de minha mãe,

doce respiração flutuando pelas
janelas abertas:
perfume da memória — condutora
da primavera.

Junho

O besouro de junho
na porta telada
zune como uma máquina
pequena e feia,

e um coro de sapos
e grilos zumbindo como Musak2
em todas as janelas.
O que não vemos claramente

nos conforta.
Cintilação de relâmpago, rosnado
de trovão — apenas o calor
limpando a garganta.

Julho

Nesta noite, os vagalumes
acendem suas breves
velas
em todas as árvores

de verão —
cor de flocos de lua,
cor de renda
fluorescente

onde o oceano arrasta
sua bainha rasgada
sobre a areia
escura.

Agosto

Descalça
e atordoada pelo sol,
mordo esse pêssego maduro
de um mês,

reunindo crianças
em meus braços
em toda sua glória
areenta,

enchendo
minha mesa todas as noites
com nada além
de milho e tomates.

Setembro

Seu romance de verão
acabou, mas os amantes
ainda se agarram
um ao outro

assim como as
folhas verdes se agarram
às árvores
no calor estranho

de setembro, como se
desta vez
não houvesse
outono.

Outubro

Quão repentinamente
a floresta
se transformou
novamente. Sinto-me

como Daphne3, parada
com os braços
estendidos em direção
à estação,

envolvida
pelas cores, coroada
com o dourado martelado
das folhas.

Novembro

Essas folhas
anônimas, seus corpos
molhados pressionados
contra a janela

ou caindo —
eu as conto
enquanto durmo,
absolvendo a gravidade,

absolvendo até mesmo a morte
que conhece como eu
os imperativos
da estação.

Dezembro

A pomba branca do inverno
perde suas primeiras
preciosas penas;
elas derretem

ao tocar
o chão quente
como notas
de uma música que já foi

familiar; a terra
estremece e
e se volta para
o solstício.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

  1. Cercis é o nome científico do gênero de árvores que inclui a Redbud, mencionada no original do poema. Optei por usar o termo Cercis em vez de manter “redbud” para aproveitar a meia-rima com a palavra “jardim” e criar a aliteração formada pelas palavras “cereja”, “Cercis” e “sacodem”, evocando o som da chuva sobre as plantas do jardim.
  2. Música ambiente
  3. Daphne, na mitologia grega, era uma ninfa da natureza, conhecida por sua beleza e conexão com o mundo natural. Segundo a lenda, ela foi transformada em uma árvore de loureiro para escapar do deus Apolo, que estava obcecado por ela. Essa história simboliza a profunda ligação entre Daphne e a natureza, mostrando sua identificação com o ambiente natural e sua escolha de se tornar parte dele.

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The Months

January

Contorted by wind,
mere armatures for ice or snow,
the trees resolve
to endure for now,

they will leaf out in April.
And I must be as patient
as the trees—
a winter resolution

I break all over again,
as the cold presses
its sharp blade
against my throat.

February

After endless
hibernation
on the windowsill,
the orchid blooms—

embroidered purple stitches
up and down
a slender stem.
Outside, snow

melts midair
to rain.
Abbreviated month.
Every kind of weather.

March

When the Earl King came
to steal away the child
in Goethe’s poem, the father said
don’t be afraid,

it’s just the wind. . .
As if it weren’t the wind
that blows away the tender
fragments of this world—

leftover leaves in the corners
of the garden, a Lenten Rose
that thought it safe
to bloom so early.

April

In the pastel blur
of the garden,
the cherry
and redbud

shake rain
from their delicate
shoulders, as petals
of pink

dogwood
wash down the ditches
in dreamlike
rivers of color.

May

May apple, daffodil,
hyacinth, lily,
and by the front
porch steps

every billowing
shade of purple
and lavender lilac,
my mother’s favorite flower,

sweet breath drifting through
the open windows:
perfume of memory—conduit
of spring.

June

The June bug
on the screen door
whirs like a small,
ugly machine,

and a chorus of frogs
and crickets drones like Musak
at all the windows.
What we don’t quite see

comforts us.
Blink of lightning, grumble
of thunder—just the heat
clearing its throat.

July

Tonight the fireflies
light their brief
candles
in all the trees

of summer—
color of moonflakes,
color of fluorescent
lace

where the ocean drags
its torn hem
over the dark
sand.

August

Barefoot
and sun-dazed,
I bite into this ripe peach
of a month,

gathering children
into my arms
in all their sandy
glory,

heaping
my table each night
with nothing
but corn and tomatoes.

September

Their summer romance
over, the lovers
still cling
to each other

the way the green
leaves cling
to their trees
in the strange heat

of September, as if
this time
there will be
no autumn.

October

How suddenly
the woods
have turned
again. I feel

like Daphne, standing
with my arms
outstretched
to the season,

overtaken
by color, crowned
with the hammered gold
of leaves.

November

These anonymous
leaves, their wet
bodies pressed
against the window

or falling past—
I count them
in my sleep,
absolving gravity,

absolving even death
who knows as I do
the imperatives
of the season.

December

The white dove of winter
sheds its first
fine feathers;
they melt

as they touch
the warm ground
like notes
of a once familiar

music; the earth
shivers and
turns towards
the solstice.

Mark Perlberg – A segunda vida das árvores de natal

Em um janeiro congelante, meus amigos e eu
arrastávamos árvores de natal descartadas
das calçadas de nossa cidade tremeluzente
para um terreno baldio. Um fósforo aceso e o fogo
se alastrou por um ramo seco como um jorro de vida.
Uma rajada de vento e a pilha se incendiou,
flamejando acima de nossas cabeças. Ondas de seda.
Aroma de breu e bálsamo em nossas narinas.

Permanecemos em círculo ao redor do corpo da fogueira —
aproximando-nos o máximo que cada garoto ousava,
nossos rostos ardendo pelo calor e pelo frio,
o açoite daquela estrela selvagem irrompendo numa noite de inverno.

Trad.: Nelson Santander

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Second Life of Christmas Trees

In frozen January, my friends and I
would drag discarded Christmas trees
from the sidewalks of our shivering town
to an empty lot. One match and fire
raced down a dry sprig like a spurt of life.
A puff of wind and the pile ignited,
flamed above our heads. Silk waves.
Spice of pitch and balsam in our nostrils.

We stood in a ring around the body of the fire—
drawn close as each boy dared,
our faces stinging from the heat and cold,
lash of that wild star burst on a winter night.

Allen Hoey – Ano Novo

Neve de novo. Às vezes uma rajada
faz girar os flocos que caem em linha reta.
Uma dúzia de pardais se faz
diminuta nos galhos nus da
Rosa-de-Saron, flores do ano passado
emaranhadas nas pontas dos ramos.
Que eu nunca me torne indiferente à perda.

Trad.: Nelson Santander

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New Year

Snow again. At times a gust
swirls the straightly falling flakes.
A dozen sparrows make themselves
small in the bare limbs of the
Rose-of-Sharon, last year’s blossoms
ragged clumps on the stem ends.
May I never harden to loss.

Retrospectiva 2023

E assim, mais um ano se foi. Veloz como um pássaro em voo, impulsionado pela velocidade dos eventos climáticos extremos. Mais um ano marcado pelo terror, destruição e pelas indignidades das guerras e massacres (e nisso a humanidade nunca falha: todo ano, a guerra – esse servidor público do extermínio – bate o ponto em 1º de janeiro e, sem tirar férias ou abonar faltas, segue trabalhando incessantemente). Ano das migrações climáticas e daquelas causadas pelas guerras civis, conflitos armados e pobreza extrema. Ano em que a concentração de riqueza nas mãos de poucos aumentou vertiginosamente, levando ao empobrecimento de nações inteiras.

Foi também o ano em que perdemos Botero, De Masi, Tonny Bennett, Zé Celso, Astrud Gilberto, Rita Lee, Boris Fausto, Juca Chaves, o cartunista Paulo Caruso, Gina Lollobrigida, e, mais perto do universo desta página, a grande Louise Glück.

Em meio a tanta desolação, um alívio: 2023 foi também o ano em que o Brasil se livrou de uma grande catástrofe, para dizer o mínimo. As sombras do recrudescimento do fascismo – que tem varrido o mundo nesses tempos incertos – ainda pairam sobre nós, é verdade, mas, por enquanto, estamos livres delas.

Não, não me permito crer em grandes mudanças para melhor a curto ou médio prazo. Quisera ter o otimismo da sempre perspicaz Dorianne Laux que um dia escreveu:

Se estamos fraturados,
assim o estamos
como estrelas
feitas para brilhar
em todas as direções,
por qualquer dimensão,
bilhões de anos
desde então.

Não lamentarei
o humano, ainda não.
Há algo mais
por vir, nossos corações
são como uma mina de ouro
inexplorada,
um mar desconhecido.

Nada se foi para sempre.
Se viemos do pó
e ao pó voltaremos,
então podemos descobrir o
caminho para qualquer coisa.

Ainda não se sabe
do que somos capazes,
por isso, agora mesmo, eu nos elogio
antecipadamente.

Dorianne Laux – De qualquer forma

Não é o meu caso. Mas, se é assim, sempre podemos nos abrigar no agora, no hoje, que, fundamentalmente, é tudo o que temos de concreto.

Portanto, carpe diem!

Vivamos o efêmero hoje, da melhor maneira possível, que do futuro nada sabemos.

A seguir, apresento a tradicional retrospectiva dos poemas e textos que, a meu critério, foram os mais significativos publicados na página ao longo de 2023. Espero que desfrutem desta seleção.

Desejo a todos um feliz 2024!

1. Juan Vicente Piqueras - Como Estás

Morri na última terça-feira e ninguém notou.

O mundo permaneceu o mesmo, mudando e imutável.
Não houve furacão, anúncio, tempestade
ou nuvens por entre as quais surgisse
aquele raio de luz que aparecia
nas capas dos catecismos. (...)
2. Don Peterson - Compaixão

Ela podia ter meses de sua vida canina,
mas para ser o quê? Ela estava leve como um ninho,
o dia todo sob suas longas orelhas
ouvindo em seu próprio peito um rádio em desalinho. (...)
3. Matthew Olzmann – Carta à pessoa que gravou suas iniciais no mais antigo pinheiro de folha longa da América do Norte

Diga-me como é viver sem
curiosidade, sem sentir admiração. Navegar
em águas cristalinas, desviando os olhos
dos recifes de algas que ondulam
abaixo de você, ignorando o cintilar
das escamas de sereias no nevoeiro,
olhando para o mundo e sentindo
apenas tédio. (...)
4. Judith Hemschemeyer - Naquele Verão

Naquele verão
depois que você se enforcou
sem perguntar
a ninguém que o amava
se eles podiam suportar

dei por mim arrastando mangueiras (...)
5. Dan Albergotti – Coisas para fazer no ventre da baleia

Meça as paredes. Conte as costelas. Registre os longos dias.
Olhe para o céu azul por entre os esguichos. Faça pequenas fogueiras
com os cascos partidos dos barcos de pesca. Pratique sinais de fumaça.
Ligue para os velhos amigos e escute os ecos de vozes distantes. (...)
6. Ursula K. Le Guin – Parentesco

Ardendo muito lentamente, a grande árvore da floresta
se ergue da sutil cavidade de neve
derretida ao seu redor pelo brando e duradouro
calor de seu ser e de sua vontade de ser
raiz, tronco, ramo, folha, (...)
7. Ruth Lepson – No dia da audiência do nosso divórcio

você me convidou para almoçar em uma cantina.
Nunca tínhamos sido tão gentis um com o outro.
Quando você disse que eu ainda era uma desleixada, nós rimos.
Depois do almoço, ficamos no estacionamento. (...)
8. Linda Pastan – A filha

Gostaria de ter tido outra chance
com o meu pai, desempenhado
um papel diferente
no drama da minha infância. (...)
9. Czesław Miłosz – Café

Daqueles que se encontravam à mesa do café
onde, no meio-dia de inverno, um jardim de gelo reluzia nas vidraças,
só eu sobrevivi.
Eu poderia entrar ali se quisesse
e, tamborilando meus dedos em um frio vazio,
convocar as sombras. (...)
10. Mary Oliver – Garças

Onde o caminho
se encerrava,
por entre folhas matizadas,
galhos caídos,
através de nodosas salsaparrilhas,
eu continuei. Por fim,
não pude
salvar meus braços
dos espinhos; (...)
11. Czesław Miłosz – Uma vida afortunada

Sua velhice coincidiu com os anos de colheita abundante.
Não houve terremotos, secas ou inundações.
Dir-se-ia que a mudança das estações ganhava em regularidade,
As estrelas se fortaleciam e o sol aumentava seu poder.
Mesmo em províncias remotas nenhuma guerra foi travada. (...)
12. Adam Zagajewski – Um breve poema

Eu ouvia cânticos gregorianos
num carro em alta velocidade
em uma rodovia na França.
As árvores passavam velozes. As vozes dos monges
entoavam preces a um deus invisível
(ao amanhecer de uma capela tremendo de frio). (...)
13. Thom Gunn – Natureza morta

Não esquecerei tão cedo
A pele amarelo-acinzentada
À qual o rosto se havia fixado:
Pálpebras apertadas: nada dele,
Nenhum tremor interior,
Brincava na superfície.
Ele ainda respirava, e contudo
Esta era uma obscura habilidade. (...)
14. David Wagoner – Perdido

Permanece imóvel. As árvores à frente e os arbustos ao teu lado
Não estão perdidos. Onde quer que estejas é chamado de Aqui,
E deves tratá-lo como um poderoso estranho,
Pedir permissão para conhece-lo e ser conhecido. (...)
15. Brad Aaron Modlin – O que você perdeu no dia em que não foi à aula

A Sra. Nelson explicou como ficar imóvel e ouvir
o vento, como encontrar sentido em encher o tanque,

como descascar batatas pode ser uma forma de oração. Ela respondeu
a perguntas sobre como não se sentir perdido no escuro. (...)
16. Danusha Laméris – Nada quer sofrer

Nada quer sofrer. Nem o vento
que arranha contra a encosta. Nem o penhasco

sendo devorado, lentamente, pelo mar. A terra não quer
sofrer o pisoteio bruto de quem a ignora.

As árvores não querem sofrer o machado, nem ver
suas irmãs derrubadas pela podridão, pelo mofo e oxidação de suas raízes. (...)
17. Eugenio Montale – O lago de Annecy

Não sei por que minhas memórias te relacionam
ao lago de Annecy
que visitei alguns anos antes de tua morte.
Mas na época eu não pensava em ti, era jovem
e julgava ser o senhor do meu destino. (...)
18. Alex Dimitrov – Os anos

Todas as festas que você frequentou
observando o salão
de uma sacada
onde alguém se juntou a você
para fumar e depois voltou. (...)
19. Rosanna Warren – Lago

Você estava com água até as coxas e a luz verde refletia
nas cavidades dos seus quadris e no estômago, que é onde a chama piloto
ardia nas antigas estátuas de Dionísio,
e por um momento, enquanto você caminhava mais em direção ao fundo, parecia que
aquela água poderia lavar o peso
de suas próprias estações e de doenças que não eram as suas: (...)
20. Paulo Henriques Britto – de “Oito sonetos entrópicos”

Deixar de ser é coisa natural,
como é natural ser. Pensando bem
(ou só pensando, seja bem ou mal),
o que haverá de natural, porém,
em ser o que se é, e não ser, apenas? (...)
21. Peter Sirr – Uma cartilha saxônica

Penso então em Borges ficando cego,
e no que ele disse sobre a alma.
Ele tentava entender por que
um homem que perde o mundo
busca espadas e monstros
e saxões com vozes rudes no Salão de Hidromel. (...)
22. Ted Kooser – Fazenda Abandonada

Ele era um homem grande, diz o tamanho
dos seus sapatos sobre uma pilha de pratos quebrados junto à casa;
um homem alto também, diz o comprimento da cama
no quarto do andar de cima; e um homem bom e temente a Deus,
diz a Bíblia com a contracapa arruinada
no chão abaixo da janela, empoeirada de sol;
mas não um fazendeiro, dizem os campos
cobertos por pedregulhos e o celeiro com goteiras. (...)
23. Charlotte Mew – Quartos

Lembro-me de quartos que tiveram relação
Com o constante esgotamento do coração.
O quarto em Paris, o quarto em Genebra,
O quarto pequeno e úmido com cheiro de algas
E aquele som da maré, enlouquecedor e perenal —
Quartos onde as coisas morriam — para o bem ou para o mal. (...)
24. Ada Limón – A rebitadora

O que eu não disse
quando ela me perguntou
por que eu sabia tanto
sobre morrer foi que,
para mim, aquilo era uma tarefa.
Quando papai ligou para dizer
que tínhamos um mês, eu fiz uma lista. (...)
25. Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami

As traduções que fiz da série de poemas e elegias que Jack Gilbert escreveu em homenagem à sua falecida esposa, Michiko Nogami. Uma nota introdutória sobre o poeta, sua esposa e os poemas/elegias acompanha o primeiro poema da série - "I - Noites e manhãs sem fim"
26. Zbigniew Herbert – Uma vida

Eu era um rapaz sossegado, um tanto sonolento e — surpreendentemente —
ao contrário dos meus colegas — que ansiavam por aventuras —
não nutria grandes expectativas — não costumava olhar pela janela
Na escola, era mais diligente do que competente — dócil e estável (...)
27. Gwen Harwood – No parque

Ela se senta no parque. São antiquados os seus trajes.
Duas crianças choram e brigam, puxam-lhe o babado.
Uma outra traça padrões ao acaso no gramado
Alguém que há muito tempo ela amou passa – tarde (...)
28. W. S. Merwin – Para o aniversário da minha morte

Todo ano, sem perceber, passo pelo dia
Em que as últimas chamas acenarão para mim
E o silêncio colocar-se-á a caminho
Infatigável viajante
Como os feixes de uma estrela sem luz (...)
29. Hayden Carruth – Ensaio

(...) Eles estão partindo – seus pelos e seus olhos selvagens,
suas vozes. Cervos saltam e saltam na frente
de estridentes snowmobiles até saltarem para
fora da existência. Falcões circulam uma ou duas vezes
acima de seus ninhos destruídos e depois sobem
até as estrelas. (...)
30. Ada Limón – O real motivo

Eu não tenho nenhuma tatuagem, elas não fazem parte da minha história, e sim da história
de minha mãe. Certa vez, caminhando pela Bedford Avenue quando tinha vinte e poucos anos,

liguei para ela como costumava fazer, como faço. E disse-lhe que queria uma
tatuagem na nuca. Algo discreto, mas permanente,

e como ela é uma artista, eu queria que ela fizesse a arte, um símbolo —
um peixe com o qual eu sonhava todas as noites. (...)
31. Patrizia Cavalli – Agora que

Agora que o tempo parece ser todo meu
e ninguém me chama para almoçar ou jantar,
agora que posso ficar observando
como uma nuvem desbota e se desfaz,
como um gato atravessa o telhado
no imenso luxo de uma aventura, (...)
32. Yusef Komunyakaa – Ode à Larva

Irmã da mosca-varejeira
& da divindade, você faz mágica
Nos campos de batalha,
Em pedaços de carne suína estragada

& em lugares sujos. Sim, você
Chega à raiz de todas as coisas.
Você é sólida & matemática. (...)
33. Filodemo de Gádara – Estação da Rosa Silvestre

É a estação da rosa silvestre e da hortelã, Sosylos,
a estação do grão-de-bico e dos primeiros cortes dos brotos,
dos lambaris e dos queijos salgados, da alface-crespa
em cujas novas folhas a luz transfunde
um brilho quase esquecido. Ainda assim,
reparaste como neste ano algo mudou? (...)
34. James Tate – A promoção

Eu já fui um cachorro em minha vida passada, um cachorro
muito bom, e, por isso, fui promovido a ser humano.
Eu gostava de ser um cachorro. Trabalhava para um fazendeiro pobre,
protegendo e pastoreando suas ovelhas. Lobos e coiotes
tentavam passar por mim todas as noites, mas eu
nunca perdia uma ovelha. (...)
35. Thom Gunn – O atiçador

Quarenta e oito anos atrás —
Já se passaram mesmo quarenta e oito anos
Desde então?— eles forçaram a porta
Que ela havia barricado
Com o peso de uma escrivaninha inteira
Para que ninguém descobrisse, como eles descobriram,
o que ela havia bloqueado. (...)
36. David Wagoner – O silêncio das estrelas

Certa noite, no deserto de Kalahari, quando
Laurens van der Post1 disse aos bosquímanos
Que não conseguia ouvir as estrelas
Cantando, eles não acreditaram. Eles o olharam,
Meio sorridentes. Examinaram seu rosto
Para ver se ele não estava brincando
Ou enganando-os. (...)
37. Hala Alyan – Spoiler

(...) A água devora seu trabalho como uma revoada de pássaros selvagens. Há destroços.
Um farrapo de algas marinhas e sangue onde você arranhou seu braço
tentando resistir à correnteza. Pode demorar muito tempo para acontecer,
mas um dia enfim você deslizará novamente os dedos pela areia, colherá um punhado dela
e espalhará sobre um novo chão. (...)
38. Galway Kinnell – Shelley

Quando eu tinha vinte anos, o único espírito
verdadeiramente livre de quem tinha ouvido falar era Shelley,
Shelley, que escreveu tratados defendendo
o ateísmo, o amor livre, a emancipação
feminina, a abolição da riqueza e das classes sociais,
e poemas sobre a felicidade do amor romântico, (...)
39. Li-Young Lee – Comendo sozinho

Colhi as últimas cebolas frescas do ano.
O jardim está limpo agora. O solo está frio,
gasto e pardacento. O que resta do dia
arde nos bordos, nas bordas dos meus
olhos. Eu me viro, um cardeal desaparece.
Junto à porta da adega, lavo as cebolas,
depois bebo da gelada torneira de metal. (...)
40. Sharon Olds – Minha mão

Quando olho para a minha mão, e para o dorso do meu pulso,
brilhando com o petrolato que
esfreguei em suas fissuras — óleo mineral,
ceresina, lanolina, pantenol, glicerina,
bisabolol, vejo as rugas
finas, muitas formando losangos,
algumas delas longas cicatrizes vacilantes —
isso me parece comovente e afortunado. (...)
41. Lucille Clifton – Dois poemas

adão pensando

ela
roubou meu osso
não é de admirar
que eu anseie cavar de volta
para dentro desesperado
para reconectar costela e argila
e ser inteiro outra vez (...)
42. Philip Schultz – Fracasso

Para pagar o funeral do meu pai,
pedi dinheiro emprestado a pessoas
a quem ele já devia dinheiro.
Um deles o chamou de zé-ninguém.
Não, eu disse, ele era um fracassado.
Ninguém se lembra o nome
de um zé-ninguém, é por isso que
eles são chamados de zés-ninguém. (...)
43. Otto D’Sola – Plenitude

Da formiga à estrela mais alta, fomos capazes de tecer uma longa história que nunca acabará;
da rocha aos pinhais,
dos pântanos ao berço de um tênue vento recém-nascido, fomos capazes de dar ao solo duro e seco a alegria de contemplar uma estrela e uma flor aberta. (...)
44. Ann Fischer-Wirth – Milagre de um coração sagrado e três folhas de faia, cada uma machada de verde e carmesim

Agora, as traças comeram seu triste dicionário.
Uma vez, você esteve atrás do balcão,

laços em seus cabelos, medindo e cortando tecidos
para as damas rechonchudas. E agora uma pilha de Kleenex

sobe pelo seu cotovelo enquanto você lida com sua rinite.
Você se tornou uma caixa de sobras, cabelos ralos

e sem viço, unhas azuis de cianose. (...)
45. Stanley Kunitz – Cometa de Halley

A srta. Murphy, da primeira série,
escreveu o nome dele no quadro negro
com giz e nos contou que ele
viajava rugindo pelas trajetórias de tempestades
da Via Láctea a uma velocidade aterrorizante,
e que se ele desviasse do seu curso
e colidisse com a terra
não haveria aula no dia seguinte. (...)
46. Matthew Rohrer – Não há absolutamente nada mais solitário

Não há absolutamente nada mais solitário
do que o pequeno Mars Rover,
sempre em funcionamento, escavando
rochas, tão longe da Bond street
sob a chuva suave. (...)
47. Ada Limón – Notas sobre o Subterrâneo

Colossal caverna, diga-me, úmido calcário, rocha de arenito,
asa de morcego, cego e translúcido camarão-das-cavernas,

esta queda livre para além do desconhecido,
como se guardam segredos por tanto tempo? (...)
48. Diane Seuss – [Todas as coisas agora me lembram]

Todas as coisas agora me lembram de como o amor costumava ser. Taboas dilatadas em lugares
solitários. Condicionador viscoso em meus cabelos. Sólidos livros. Suas variegadas lombadas. (...)
49. James Tate – A volta para casa

Eu disse ao médico que nunca mais o veria. “Não, acho
que não”, ele disse. Saí pela porta me sentindo realmente bem.
Claro, eu sabia que ia morrer, mas ainda assim o dia parecia claro
para mim. Caminhei até o lago. Patos circulavam ao redor por ali. (...)
50. A. E. Stallings – Lógica de conto de fadas

Os contos de fadas estão repletos de tarefas irreais:
Juntar os pelos do queixo de uma cabra que os homens devora,
Ou cruzar um lago sulfúrico em uma danificada igara,
Escolher o príncipe de uma fila de máscaras iguais, (...)
51. Dennis Trudell – Conto de Feriado

Uma mulher nunca contou ao marido
ou a qualquer pessoa sobre o bilhete de amor
que recebera há trinta anos. Não havia
assinatura, e depois de tentar adivinhar inúmeras
vezes quem na cidade o enviara, ela
há muito aceitara que nunca o saberia. (...)
52. Jeffrey McDaniel – O mundo silencioso

Na tentativa de fazer as pessoas olharem
mais nos olhos umas das outras,
e também para apaziguar os mudos,
o governo decidiu atribuir
a cada pessoa exatamente cento
e sessenta e sete palavras por dia. (...)
53. Emily Bryant Voigt – A cúspide

Tão poucos pássaros — os que passam o inverno
e os gansos migrando pelos campos vazios,
atravessando as hastes retorcidas de milho cortado:
ao nosso redor, tudo o que é verde é suprimido,
e na melancólica floresta, as árvores nuas,
despidas de folhas ou quase sem elas,
formam uma morada sombria entre nuvens baixas
que têm o aspecto de neve obstinada. (...)
54. Sharon Olds – Destino

Finalmente desisti e me tornei meu pai,
sua face oleosa e abatida, brilhando para
qualquer pessoa que eu olhasse, seus olhos castanhos-lodo
em meu rosto, cintilando como chão molhado em que
as coisas que amamos caíram,
e se perderam para sempre. (...)
55. Lisel Mueller – Isso é o que você fará

O que você fez quando a geleira
cobriu sua boca com gelo
     quando suas escamas se desprenderam
e foram deixadas no chão para se deteriorar
     quando você parou de trilhar as águas
e começou a respirar o ar? (...)
56. Bob Hicok – Alzheimer

As cadeiras se movem sozinhas, assim como os livros.
Os netos vêm visitá-la, são
jovens e sem nomes, peças ausentes nos quebra-cabeças
de seus rostos. Ela é como um peixe

no oceano profundo, seu corpo é feito de luz. (...)
57. Ada Limón - Em um poste de luz, há muito tempo

Não sei por onde começar
na lista
de todas as coisas que estão desaparecendo: peixes, pássaros, árvores,
flores, abelhas,
e também idiomas. Dizem que, se as taxas históricas forem
calculadas,
um idioma morrerá a cada quatro meses. (...)
58. Jaime Manrique – O céu sobre a casa de minha mãe

É uma noite de julho
perfumada com gardênias.
Brilham a lua e as estrelas
sem revelar a essência da noite.
Ao longo do crepúsculo
— com suas gradações cada vez mais intensas de ônix,
e o resplendor dourado das estrelas e das sombras —
minha mãe arrumou a casa, o jardim, a cozinha. (...)
59. Philip Larkin – A casa está tão triste

A casa está tão triste. Ficou como foi deixada,
Moldada para o conforto dos últimos saintes
Querendo reconquista-los. Ao invés, despojada
De alguém para agradar, ela definha assim, carente
De um coração para esquecer que foi roubada (...)
60. Eavan Boland – Atlântida – Um soneto perdido

Como diabos aconteceu, eu costumava me perguntar,
de uma cidade inteira – arcos, pilares, colunatas,
isso sem falar nos veículos e animais – ter-se,
um belo dia, afundado? (...)

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Larry Levis – Na cidade das luzes

A última coisa que meu pai fez por mim
Foi traçar um caminho: ele morreu, & assim
Tornou a morte possível. Se ele conseguiu, eu
Também, um dia, terei essa honra. Certa vez,

À noite, caminhei pelas ruas iluminadas
De Nova York, do Gramercy Park Hotel,
Subindo a Lexington & naquela hora, sozinho,
Eu parei de ouvir o tráfego, as vozes, a agitação

Do vento de primavera alçando um jornal alto,
Sobre as luzes. As ruas molhadas,
E brilhantes. Sem sons. Certa vez,

Quando vi meu filho nascer, pensei
Como esse mundo deve soar alto para ele, como algo final.

Naquela noite, por respeito a alguém ausente,
Deixei de escutá-lo.

Por respeito a alguém ausente,
Devo dizer

Que essa não é toda a história.
O fato é que ainda estava apaixonado.
Meu pai tinha morrido, & eu ainda estava apaixonado. Sei
Que é de mau gosto dizer dessa forma. Diga-me,
Como você diria?

A história é: querendo ficar sozinho & desejando
A solidão tranquila dos viajantes,

Me despedi em um aeroporto & voei para o oeste.
Aconteceu de outro modo.
E onde a segurei perto de mim,
Minha pele ficou em carne viva, & esfolada.

Ao descer, olhei para a luz cobrindo os campos
De pálidas videiras, & pequenas cidades, cada uma
Com uma torre de água; depois as sobras das asas;
Depois, nada.

Meu único conselho é não ir embora.
Ou vá. A maioria

De minhas decisões foi errada.

Quando acordo, jogo água fria
Em meu rosto. Fecho meus olhos.

Um corpo deseja ser abraçado, & abraçado, & o que
Você pode fazer sobre isso?

Porque há rostos que talvez nunca mais veja,
Há duas coisas que quero lembrar
Sobre a luz, & o que ela faz conosco:

Seus olhos verdes brilhantes em um aeroporto — como eles se dilataram
Como se incrédulos;
E meu pai abrindo o portão: uma cidade iluminada &

Silente.

Trad.: Nelson Santander

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In the City of Light

The last thing my father did for me
Was map a way: he died, & so
Made death possible. If he could do it, I
Will also, someday, be so honored. Once,

At night, I walked through the lit streets
Of New York, from the Gramercy Park Hotel
Up Lexington & at that hour, alone,
I stopped hearing traffic, voices, the racket

Of spring wind lifting a newspaper high
Above the lights. The streets wet,
And shining. No sounds. Once,

When I saw my son be born, I thought
How loud this world must be to him, how final.

That night, out of respect for someone missing,
I stopped listening to it.

Out of respect for someone missing,
I have to say

This isn’t the whole story.
The fact is, I was still in love.
My father died, & I was still in love. I know
It’s in bad taste to say it quite this way. Tell me,
How would you say it?

The story goes: wanting to be alone & wanting
The easy loneliness of travelers,

I said good-bye in an airport & flew west.
It happened otherwise.
And where I’d held her close to me,
My skin felt raw, & flayed.

Descending, I looked down at light lacquering fields
Of pale vines, & small towns, each
With a water tower; then the shadows of wings;
Then nothing.

My only advice is not to go away.
Or, go away. Most

Of my decisions have been wrong.

When I wake, I lift cold water
To my face. I close my eyes.

A body wishes to be held, & held, & what
Can you do about that?

Because there are faces I might never see again,
There are two things I want to remember
About light, & what it does to us.

Her bright, green eyes at an airport—how they widened
As if in disbelief;
And my father opening the gate: a lit, & silent

City.

Juan Luis Panero – Mensagem de Antonio a Cleópatra

Mensagem de Antonio a Cleópatra

I

Elogiem outros
tua beleza adormecida,
a suavidade de tua pele em repouso,
a medida perfeição de teus membros.
Eu não vim por isso,
vim somente para te penetrar
pela frente e por trás
como um punhal que atravessa
a água límpida
e afunda e se perde
no poço sombrio.

Mensagem de Cleópatra a Antonio

II

Não louves minha beleza,
outros já o fizeram.
Penetra-me pela frente e por trás,
faz-me sentir a vida na cintura
e que, enlaçados, teu corpo e o meu
possam deter a fúria cruel do tempo.
Mas, se chegar um dia em que o tempo nos alcance,
não te lamentes, estúpido beberrão,
e lança-te corajosamente – Kaváfis já o escreveu –
nesse poço sombrio.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 20/01/2019

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Mensaje de Antonio a Cleopatra

I

Alaben otros
tu dormida belleza,
la suavidad de tu piel en reposo,
la medida perfección de tus miembros.
yo no he venido a eso,
he venido tan solo a penetrarte
por el pecho y por la espalda,
como un puñal atraviesa
el agua transparente
y se hunde y se pierde
en el pozo sombrío.

Mensaje de Cleopatra a Antonio

II

No alabes mi belleza,
otros ya lo han hecho.
penétrame por el pecho y la espalda,
hazme sentir la vida en la cintura
y que, enlazados, tu cuerpo y el mío
puedan detener la furia atroz del tiempo.
pero, si llega un día en que el tiempo nos alcance,
no te lamentes, estúpido borracho,
y cae con valor – Cavafis ya lo ha escrito-
a ese pozo sombrío.