Marianne Moore – Uma água-viva

Visível, invisível,
uma flutuante sedução
que uma ametista cor de âmbar
habita, se aproximam
seus tentáculos, abrem
e fecham; você pretendia
pega-los e eles tremem;
você abandona este intento.

Trad.: Nelson Santander

A Jelly-Fish

Visible, invisible,
a fluctuating charm
an amber-tinctured amethyst
inhabits it, your arm
approaches and it opens
and it closes; you had meant
to catch it and it quivers;
you abandon your intent.

Eloy Sánchez Rosillo – O segredo

Se por acaso a alegria se assuste
e se apresse em me deixar,
eu a escondo das pessoas e não digo a ninguém
que veio à minha casa depois de muito tempo.
Falo com ela, e com frequência vê-la
de novo tão próxima
me faz chorar, e rio.
Depois a deixo sozinha e vou
para a rua muito sério.
A ninguém direi que veio a minha casa.
Espero que aqui esteja quando eu voltar.

Trad.: Nelson Santander

El secreto

Por si acaso se asusta la alegría
y se apresura a irse,
se la escondo a la gente y no le digo a nadie
que ha llegado a mi casa después de mucho tiempo.
Hablo con ella, y con frecuencia verla
de nuevo tan cercana
me hace llorar, y río.
Después la dejo sola y yo me voy
a la calle muy serio.
A nadie le diré que ha venido a mi casa.
Espero que esté aquí cuando regrese.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Naquele agora

As chances de encontrar-te novamente
eram remotas. Uma em um bilhão. E havendo
infinitos lugares dispersos pelos números
de um cálculo improvável, quem imaginaria
que eu te veria naquela cantina, transformando-te
na luz daqueles tempos felizes, ou isso quiseram
crer, anos atrás, aqueles dois que fomos.

Estavas ali, de repente e sem aviso
prévio, com um tímido sorriso, apoiando-se
no ombro de um cara de aspecto desprezível
que poderia ter sido eu. Não reconheceste
meu rosto entre as pessoas do bar. Embora talvez,
suponho, pretendias saber onde e quando
viste minhas feições, em que lugar mais recente
fizeste uma parada, sob que estranhas circunstâncias
encontraste com alguém que se me parecia
de longe. Mas não recordaste, se é que
tentaste, a quem prometeste um sonho
que não irias realizar, quando nos despedimos
atrás de uma janela. De volta a este agora,
teu rosto era o mesmo onde vi o resplendor
do anjo e o toque de um crepúsculo cinza
e hermético. Tinhas o rosto corado
e os cabelos mais negros que minhas mãos
já tocaram no vale lunar de tua cintura.

A bem-aventurança foi nossa companheira
de viagem às estrelas tão próximas à fome
de nossos corações e suas dores difusas.
Era a idade do bronze polido de teus seios.
As noites eram lentas palavras inaudíveis
do mundo que brotavam sem encaixes. Bebíamos
a vida entre os versos de uma poetisa árabe
e bailava nua a luz no terraço.

Tu então te acendias e o vento ia contigo
por algum beco a sórdidas tabernas,
levantando tua saia minúscula, mostrando-me
as rotas que de repente me alçavam ao mistério.
Sem dúvida, eras feliz de uma maneira ingovernável.
Também o fui. Fomos. Eu te disse, lembro-me
como se fosse ontem, que um deus faria seus
os traços de teu nome e do vinho teu sabor
de amêndoa e paraíso. Ainda és a mesma, inclusive
até te achei mais bonita, talvez menos
alegre que a imagem que de ti conservei
todo este tempo em vão. Por detrás do teu olhar
não encontrei o resplendor daquela garota insone,
mas uma palidez cinza de brasas
que ainda parecem guardar a vertigem do fogo.

Não posso assegura-lo. E tampouco importa.

Trad.: Nelson Santander

Aquel Ahora

Las posibilidades de volverte a encontrar
eran remotas. Una entre un billón. Y habiendo
infinitos lugares dispersos por los números
de un cálculo improbable, quién imaginaría
que te iba a ver en esa cantina, transformándote
en luz de aquel entonces feliz, o eso quisieron
creer años atrás aquellos dos que fuimos.

Estabas allí, tú de pronto y sin aviso
previo, con una tímida sonrisa, recargada
en el hombro de un tipo de aspecto deleznable
que podría haber sido yo. No reconociste
mi rostro entre la gente del bar. Aunque tal vez,
supongo, pretendías saber adónde y cuándo
miraste mis facciones, en qué sitio más joven
hiciste un alto, bajo qué extrañas circunstancias
coincidiste con alguien que se me parecía
de lejos. Pero no recordaste, si acaso
lo intentabas, a quien le prometiste un sueño
que no ibas a cumplir, cuando nos despedimos
tras una ventanilla. De vuelta en este ahora,
tu cara era la misma donde vi el resplandor
del ángelus y el tacto de un crepúsculo gris
y hermético. Llevabas rubor en las mejillas
y el cabello más negro que alguna vez tocaron
mis manos por el valle lunar de tu cintura.

La bienaventuranza fue nuestra compañera
de viaje a las estrellas tan próximas al hambre
de nuestros corazones y su dolor difuso.
Era la edad del bronce pulido de tus pechos.
Las noches fueron lentas palabras inaudibles
del mundo que brotaba sin encajes. Bebíamos
la vida entre los versos de una poeta árabe
y bailaba desnuda la luz en la terraza.

Tú entonces te encendías y el viento iba contigo
por algún callejón a sórdidas tabernas,
levantando tu falda minúscula, mostrándome
las rutas que de súbito me alzaban al misterio.
Sin duda eras feliz de forma ingobernable.
También lo fui. Lo fuimos. Te dije, lo recuerdo
como si fuera ayer, que un dios haría suyos
los rasgos de tu nombre y el vino tu sabor
de almendra y paraíso. Sigues igual, incluso
me has parecido más hermosa, quizá menos
alegre que la imagen que de ti conservé
todo este tiempo en vano. Detrás de tu mirada
no encontré el resplandor de aquella chica insomne,
sino una palidez ceniza de rescoldos
que aún parecen guardar el vértigo del fuego.

No puedo asegurarlo. Y ya tan poco importa.

Luis Alberto de Cuenca – Só o silêncio salva

Só o silêncio salva, companheiro.
Só o silêncio salva. Se tiveste
uma noite gloriosa em que Afrodite
sorriu para ti e Baco encheu-te
a taça sem cessar, pensa que em breve,
quando e noite se for,
teus amigos voltarem para casa
e começar a amanhecer, só o silêncio
te salvará, rapaz. Tem isso em conta.

Trad.: Nelson Santander

Sólo el silencio salva

Sólo el silencio salva, compañero.
Sólo el silencia salva. Si has tenido
una noche gloriosa en que Afrodita
te ha sonreído y Baco te ha llenado
la copa sin cesar, piensa que luego,
cuando la oscuridad se desvanezca,
tus amigos se marchen a sus casas
y empiece a amanecer, sólo el silencio
va a salvarte, muchacho. Tenlo en cuenta.

A íris selvagem – Sumário

A Íris Selvagem – Louise Glück

Tradução: Nelson Santander

SUMÁRIO

Apresentação de “The Wild Iris”, de Louise Glück
A íris selvagem
Matinas
Matinas
Trillium
Lamium
Flores-de-neve
Manhã Clara
Neve de Primavera
Fim de Inverno
Matinas
Matinas
Scilla
Vento em Retirada
O Jardim
O Espinheiro
Amor ao Luar
Abril
Violetas
Capim-das-bruxas
A Escada de Jacó
Matinas
Matinas
Canção
Campo de Flores
A Papoula Vermelha
Trevo
Matinas
Céu e Terra
A Porta de Entrada
Solstício de Verão
Vésperas
Vésperas
Vésperas
Margaridas
Fim de Verão
Vésperas
Vésperas
Vésperas
Escuridão Inicial
Colheita
A Rosa Branca
Ipomoea
Presque Isle
Luz em Retirada
Vésperas
Vésperas: Parousia
Vésperas
Vésperas
Ocaso
Acalanto
O Lírio Prateado
Crepúsculo de Setembro
O Lírio Dourado
Os Lírios Brancos

Louise Glück – Os lírios brancos

Como um homem e uma mulher fazem
de um jardim entre eles
um leito de estrelas, aqui
eles permanecem na noite de verão
e a noite se torna
fria com seu pavor: tudo
pode acabar, tudo é capaz
de devastação. Tudo, tudo
se pode perder, pelo ar perfumado
das colunas estreitas
se elevando inutilmente, e mais além,
um agitado mar de papoulas —

Silêncio, amada. Não me importa
quantos verões eu viverei para voltar:
neste verão nós entramos na eternidade.
Eu senti suas duas mãos
me enterrando para liberar o seu esplendor.

Trad.: Nelson Santander

The white lilies

As a man and woman make
a garden between them like
a bed of stars, here
they linger in the summer evening
and the evening turns
cold with their terror: it
could all end, it is capable
of devastation. All, all
can be lost, through scented air
the narrow columns
uselessly rising, and beyond,
a churning sea of poppies —

Hush, beloved. It doesn’t matter to me
how many summers I live to return:
this one summer we have entered eternity.
I felt your two hands
bury me to release its splendor.

Louise Glück – O lírio dourado

Como percebo,
estou morrendo agora e sei
que não falarei novamente,
não sobreviverei à terra, serei convocado
dela uma vez mais, ainda não
uma flor, apenas uma espinha, terra crua
aderindo às minhas costelas, eu o invoco,
pai e mestre: ao redor,
meus companheiras estão fraquejando, pensando
que você não os vê. Como
eles poderão saber que você os enxerga
a menos que os salve?
No crepúsculo do verão, você estará
perto o suficiente para ouvir
o terror de seu filho? Ou
você não é meu pai,
aquele que me criou?

Trad.: Nelson Santander

No link que segue, uma ótima revisão deste poema (em inglês): https://www.encyclopedia.com/arts/educational-magazines/gold-lily

The gold lily

As I perceive
I am dying now and know
I will not speak again, will not
survive the earth, be summoned
out of it again, not
a flower yet, a spine only, raw dirt
catching my ribs, I call you,
father and master: all around,
my companions are failing, thinking
you do not see. How
can they know you see
unless you save us?
In the summer twilight, are you
close enough to hear
your child’s terror? Or
are you not my father,
you who raised me?

Louise Glück – Crepúsculo de Setembro

Eu os reuni,
eu posso dispensa-los —

Estou farto de vocês, do caos
do mundo dos vivos —
Eu só posso me estender
por tanto tempo a algo vivo.

Convoquei-os à existência
ao abrir minha boca, ao erguer
meu dedo mínimo,

cintilando azuis de
aster selvagem, flor
de lírio, imensa,
com veias douradas —

Vocês vêm e vão; eventualmente
esqueço seus nomes.
Vocês vêm e vão, cada um de vocês
imperfeito de alguma forma,
comprometido de alguma forma: vocês valem
uma vida, não mais do que isso.

Eu os reuni;
eu posso apaga-los
como se fossem um rascunho a ser descartado,
um pequeno exercício

porque eu os terminei, visão
do luto mais profundo.

Trad.: Nelson Santander

September twilight

I gathered you together,
I can dispense with you —

I’m tired of you, chaos
of the living world —
I can only extend myself
for so long to a living thing.

I summoned you into existence
by opening my mouth, by lifting
my little finger, shimmering

blues of the wild
aster, blossom
of the lily, immense,
gold-veined —

you come and go; eventually
I forget your names.
You come and go, every one of you
flawed in some way,
in some way compromised: you are worth
one life, no more than that.

I gathered you together;
I can erase you
as though you were a draft to be thrown away,
an exercise

because I’ve finished you, vision
of deepest mourning.

Louise Glück – O lírio prateado

As noites esfriaram novamente, como as noites
do início da primavera, e estão silenciosas outra vez. Incomoda-o
conversarmos? Estamos
sozinhos agora; não há razão para o silêncio.

Você pode ver, sobre o jardim — a lua cheia nasce.
Eu não verei a próxima lua cheia.

Na primavera, quando a lua surgia, significava
que o tempo era infindo. Campainhas-brancas
abriam e fechavam, as sementes
de bordos agrupadas caíam em pálidas torrentes.
Branco sobre branco, a lua emergia sobre a bétula.
E na curva, onde a árvore se divide,
as folhas dos primeiros narcisos, à luz da lua,
em um suave verde-prateado.

Chegamos longe demais juntos, perto do fim agora,
para temer o fim. Nestas noites, eu nem mesmo tenho certeza
do que o fim significa. E você, que já esteve com um homem –

após os primeiros gritos,
a alegria, assim como o medo, não faz nenhum som?

Trad.: Nelson Santander

The silver lily

The nights have grown cool again, like the nights
of early spring, and quiet again. Will
speech disturb you? We’re
alone now; we have no reason for silence.

Can you see, over the garden — the full moon rises.
I won’t see the next full moon.

In spring, when the moon rose, it meant
time was endless. Snowdrops
opened and closed, the clustered
seeds of the maples fell in pale drifts.
White over white, the moon rose over the birch tree.
And in the crook, where the tree divides,
leaves of the first daffodils, in moonlight
soft greenish-silver.

We have come too far together toward the end now
to fear the end. These nights, I am no longer even certain
I know what the end means. And you, who’ve been with a man —

after the first cries,
doesn’t joy, like fear, make no sound?

Louise Glück – Acalanto

Hora de descansar agora; você
já teve emoção suficiente por ora.

Crepúsculo, depois início da noite. Vaga-lumes
no quarto, cintilando aqui e ali, aqui e ali,
e a profunda doçura do verão inundando através da janela aberta.

Não pense mais nessas coisas.
Escute minha respiração, sua própria respiração
como os vaga-lumes, cada pequena respiração
uma centelha na qual o mundo se revela.

Já cantei para você por tempo suficiente na noite de verão.
Vou conquista-lo no final; o mundo não pode lhe proporcionar
essa contínua visão.

Você precisa ser ensinado a me amar. Os seres humanos devem ser ensinados a amar
o silêncio e a escuridão.

Trad.: Nelson Santander

Lullaby

Time to rest now; you have had
enough excitement for the time being.

Twilight, then early evening. Fireflies
in the room, flickering here and there, here and there,
and summer’s deep sweetness filling the open window.

Don’t think of these things anymore.
Listen to my breathing, your own breathing
like the fireflies, each small breath
a flare in which the world appears.

I’ve sung to you long enough in the summer night.
I’ll win you over in the end; the world can’t give you
this sustained vision.

You must be taught to love me. Human beings must be taught to love
silence and darkness.